segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O mito do “brasileiro feliz” e a ideologia burguesa.

O Fantástico da Rede Globo dedicou no seu programa do último domingo (23/02/2014) mais de treze minutos para tratar de uma pesquisa do Instituto Data Popular, que mostra como “94% dos moradores de favelas são felizes”. A matéria foi chamada com ares de grande “bomba jornalística”, como se fosse uma espetacular descoberta científica ou um gigantesco fato histórico da humanidade. Mas o que está por trás de dedicar tanto tempo, em pleno horário nobre do domingo, há uma matéria tão simples e aparentemente sem sentido? É isso que vamos explicar rapidamente nesse texto.

Para entendermos profundamente o motivo da exibição dessa matéria do Fantástico é necessário fazer algumas breves ponderações teóricas. Como todos sabem vivemos no modo de produção capitalista, que é historicamente construído, portanto, sujeito a práxis revolucionária para sua transformação. Todo modo de produção tem que se reproduzir para continuar historicamente existindo. Dentre os vários elementos dessa reprodução, a estratégia política da classe dominante para perpetuar a dominação das classes dominadas através de vários aparelhos de poder e táticas políticas são elementos essenciais da reprodução do capital. O comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) Ao analisar esses aparelhos de poder e as táticas e estratégias políticas da classe dominante – materializada principalmente, mas não só no Estado capitalista e nos aparelhos privados de hegemonia – percebeu que a burguesia mantém sua dominação através de uma combinação tático-estratégica de coerção e consenso; violência e convencimento, etc. Gramsci percebeu que a violência pura e simples não é suficiente para manter a dominação burguesa.  Que é preciso difundir os valores burgueses por toda sociedade e construir o “consentimento” dos dominados. Os valores morais, ético, estéticos, religiosos; produção do conhecimento, ideologia política, sexualidade, visão de família, etc. são elementos culturais e ideológicos que perpassam a luta de classes; são produtos, sujeitos e armas na luta de classe. Na sociedade burguesa não existe ideologia neutra, toda ideologia é de classe.  

O uso tático-estratégico da coerção e da ideologia são momentos unidos, mas diversos – unidade na diversidade – na estratégia de dominação burguesa. Para usar a polícia contra os manifestantes tem-se que convencer a “opinião publica” que os manifestantes são vândalos, que suas reivindicações não são válidas, etc. O fato é que mesmo nas periferias do Brasil onde o uso da violência é sistêmico e intenso, onde Estado Democrático de Direito, democracia e cidadania são palavras sem sentido, mesmo nesse lugares e para suas classes (os trabalhadores super precarizados) o uso da violência faz-se mediado por estratégias de convencimento ideológico que vão desde o Funk ostentação passando pelas igrejas evangélicas até a propaganda governista da nova classe média e da ascensão social pelo consumo (e muitos outros elementos). Porém as estratégias de dominação burguesas não funcionam para sempre. O Brasil vive um aumento forte das lutas populares de resistência contra a dominação do capital. Não só as “Jornadas de Junho”, como também o número de greves que não param de subir, o número de confrontos no campo, a luta dos índios pela terra, as rebeliões populares nas favelas principalmente contra a ditadura imposta pela policia militar, etc. Só em São Paulo no mês de janeiro tivemos mais de 120 ônibus quebrados ou queimados em atos de protestos populares, a sua maioria de moradores das favelas por vários motivos, sendo, normalmente, o principal contra a violência policial.

O clima de aumento gradual da luta de classe é bem claro. Podesse duvidar do ritmo desse aumento, suas causas e sua amplitude, mas uma mera constatação empírica mostra que as classes populares estão mais ativas nas lutas de resistência. É envolto em toda essa atmosfera que o Fantástico exibe a pesquisa que mostra a felicidade do "brasileiro favelado". O mito ideológico do brasileiro pobre feliz acima de tudo; que mesmo com toda dominação que é vítima está conformado com sua vida; que não têm planos de mudanças sempre foi propagado pela classe dominante. Não é nenhuma novidade. Programas como o “Esquenta” da Regina Casé demonstram claramente essa estratégia ideológica da burguesia. Além disso, a estratégia de construção da hegemonia do lulismo através uma base material de compromissos com as classes dominadas, materializado em aumento de salários, programas sociais e acesso ao crédito. Isso provoca a capacidade de compra (antes quase inexistentes) das classes populares que antes ficavam restritos às classes médias. Os famosos “rolezinhos” ou a tradicional reclamação de que os aeroportos estão parecendo rodoviárias inscrevem-se nesse processo de maior acesso ao consumo das classes populares e o processo de reação conservadora de muitos setores das camadas médias. Ou seja, temos dois necessários: uma ameaça política clara para a burguesia com o aumento das resistências populares e dos protestos de reivindicação e o aumento do conservadorismo de setores médios por ver seus espaços de consumo, o retrato dos seus privilégios de classe, “sendo maculados” pela presença dos pobres, dos favelados.

É nesse quadro que se inscreve a matéria do Fantástico. A matéria tem estética feliz, alegre, com muitas cores, filmagens em dia de sol iluminado. Afirma que segundo a pesquisa 94% dos moradores das favelas são felizes, não trocam suas favelas por nada, não querem mudar de lugar. Mostra também que os moradores da favela estão consumindo mais, tem mais empregos (base material da hegemonia lulista) e, numa passagem rápida e superficial pelos problemas encontrados diariamente pelos moradores das favelas, conclui mostrando que apesar de tudo os trabalhadores pobres e extremamente precarizados são felizes. Não estou negando que existam trabalhadores nas favelas que pensam assim. A grande tática da construção da hegemonia burguesia é universalizar um tipo, tomá-lo como representante de um todo. A estratégia é agir em duas frentes: reforçar o mito do pobre feliz acima de tudo num momento de maior resistência popular e com isso reforçar o “consentimento passivo” dos dominados e inculcar na cabeça dos jovens e trabalhadores que o direito à cidade, ao lazer, aos espaços de consumo que buscam fora das favelas está errado. O comentário do camarada Antônio Alves no meu facebook foi perfeito nesse sentido:

A reportagem foi para incutir na cabeça da população que a periferia tem espaços de laser sim, que lugar de pobre é na periferia, que eles sempre tiveram uma ótima estrutura social, e quando não, disponham de uma criatividade que superava as dificuldades inerentes a sua situação econômica e social. Foi essa a observação mais latente, foram o discurso otimista de felicidade.”

A mensagem podia ser resumida da seguinte forma: continuem na sua posição de classes dominadas e respeitem a estratificação social.

Por fim é importante sempre atentar que a construção de uma “realidade social” distorcida é sempre presente nas produções artísticas dos grandes meios de comunicação, que não são outra coisa que aparelhos ideológicos das classes dominantes. É clássico e conhecido como nas novelas da Rede Globo as favelas são representadas sem violência policial e seus graves problemas estruturais. 



A matéria do Fantástico para quem quiser conferir: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/02/pesquisa-mostra-que-94-dos-moradores-de-favela-sao-felizes.html

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