segunda-feira, 19 de maio de 2014


Che Guevara e as acusações de homofobia. 


Estou profundamente incomodado com uma tendência que vem crescendo em certa esquerda. A tendência de execrar o camarada Che Guevara. Che é chamado por alguns de machista e homofóbico, a própria Revolução Cubana é atacada por que até o início dos anos 1980 os homossexuais eram perseguidos em Cuba e alguns internados em clínicas psiquiátricas. 



Pois bem, vamos nessa. A contradição principal do capitalismo é a do Capital-Trabalho, ou seja, as relações materiais de produção são o fator determinante de toda reprodução social. Nesse sentido, a exploração do ser humano pelo ser humano é uma relação fundamentada nas relações de produção antagônicas em seu sentido amplo (no sentido de modo de produção, que inclui as esferas políticas e ideológicas da reprodução social e da dominação). É claro que nos interstícios da dominação do Capital sobre o Trabalho existem várias formas de opressão (de etnia, gênero, sexualidade, nacionalidade, etc.), que se não foram criadas pelo capitalismo (como a dominação patriarcal) são funcionais à reprodução do capital. Para dar um exemplo simples, a dominação de gênero produz super-lucros para o capital, pois pagasse menos as mulheres pôr trabalhos idênticos aos realizados por homens; essa diferença engorda a mais-valia do capitalista. O velho Engels - que é mais lembrado do que lido - analisou de forma perfeita a ligação da dominação do capital com as opressões em seu clássico (também mais citado que lido) "A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado". 

Pois bem, dito isso fica claro que o movimento comunista luta contra as opressões. É vanguarda histórica na luta pela libertação das mulheres, contra o racismo e a xenofobia. Mas ao mesmo tempo, para o movimento comunista a contradição central é Capital-trabalho. A luta contra as opressões é uma luta fundamental aliada à luta estratégica, mas entendemos que sem derrotar a sociedade produtora de mercadorias não existe fim das opressões, no máximo "emancipação política" ou melhoras cosméticas na integração à ordem burguesa. Os que negam que a contradição central da sociedade capitalista é entre capital-trabalho são reformistas. O reformismo têm várias formas. Não só se materializa em acordos espúrios com a burguesia ou adaptabilidade institucional à ordem burguesa. O Partido Social Democrata Alemão quando traio o marxismo e adotou o chauvinismo da primeira guerra mundial já tinha abandonado a centralidade do conflito capital-trabalho e aderido a uma análise que priorizava o nível de nações e Estados. 

Voltando mais especificamente a questão do Che. O problema da emancipação da mulher aparece com força na cena histórica já no século XIX. A questão da diversidade sexual só aparece como questão primordial dos movimentos emancipatório depois da segunda metade do século XX. Até o início dos anos 90, se não me engano, a OMS (Organização Mundial da Saúde) considerava a homossexualidade uma doença e chamava de "homossexualismo". Cuba realmente internou homossexuais em hospitais psiquiátricos, como muitos países, mas Cuba já fez sua autocrítica e hoje é um dos países mais avanços do mundo no combate à homofobia e na promoção da diversidade sexual. Che não era homofóbico. Chamá-lo assim seria anacronismo. Ele se comportava em relação aos homossexuais como o pensamento dominante na época e nossa critica deve centrar-se no fato de ele não ter visto a frente do seu tempo nessa questão. Também não faz sentido chamar Che de machista. Aliás, em todas as grandes revoluções do século XX as mulheres tiveram papel de destaque e vanguarda. A Revolução cubana é um exemplo sensacional de combate ao patriarcado. As falhas, os retrocessos e as lacunas são debatidas, discutidas, avaliadas. Cuba continua avançando e segue firme e forte no combate ao machismo. 

Portanto a entrevista que Jean Wyllys deu a Folha de São Paulo falando mal de Che por causa de sua "homofobia" e seu "machismo" é imbuída de anacronismo e depois um falseamento da história de Che e da Revolução Cubana. Che é um dos maiores exemplos da luta revolucionária da América Latina e do Mundo. Um exemplo para todos os revolucionários e se não devemos canonizá-lo, também devemos ser honestos na crítica. 

Por fim, quem fala em "reducionismo de classe" e nega a contradição central do capital-trabalho é REFORMISTA (R-E-F-O-R-M-I-S-T-A), não tem outro nome. Quem chama Che de homofóbico esta sendo anacrônico (nessa lógica poderíamos chamar Marx de xenofóbico, pois ele usava o termo bárbaro para falar de povos não europeus) e quem chama Che de machista ou é um ignorante do papel das mulheres na Revolução Cubana e da postura de Che ou é apenas um maldoso mesmo.

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