terça-feira, 12 de agosto de 2014


Sobre a Coréia Popular:
Eu gostaria de fazer uma autocrítica. No auge do meu eurocentrismo já usei a categoria "stalinismo" para me referir à economia e ao sistema político vigente na Coréia Popular - vulgarmente chamada de Coréia do Norte. Faço uma autocrítica porque isso é eurocentrismo dos mais vulgares. Depois de algumas leituras (Domenico Losurdo, Frantz Fanon e Edgardo Lander) percebi o quanto meu pensamento e o próprio marxismo ainda é, infelizmente, eurocêntrico - um saber colonial. A identidade nacional na Coréia têm raízes milenares, a sua relação entre o real e o místico é diferente da nossa, o papel do líder na relação líder/massa é algo também peculiar da cultura milenar da Coréia. Enquanto o nacionalismo Ocidental nasceu no século XVIII na Europa, com a Revolução Francesa, o nacionalismo coreano tem mais de três milênios de tradição e contém várias diferenças em relação ao nosso. Reduzir todos os elementos peculiares da cultura coreana na categoria ocidental e limitada de stalinismo não passa de eurocentrismo. Evidentemente não estou afirmando com isso que a Coréia Popular é o melhor dos mundos. Porém sua luta antiimperialista e em defesa da soberania nacional é uma das mais avançadas e exitosas do mundo.
Achar por exemplo que as demonstrações públicas de pesares da população coreana com a morte do líder Kim Jong-il é tudo plano de uma ampla máquina de propaganda que cria "artificialmente" esse sentimento, comparando com o culto à personalidade da URSS dos anos 30, é desconhecer a realidade coreana e querer entender ela por termos ocidentais. O marxismo perdeu muito com o eurocentrismo. Não bastam todos os debates inúteis sobre a existência ou não do feudalismo na América Latina (debate bitolado que alguns grupos continuam mantendo) e a idéia "proletariocêntrica" de procurar um proletário industrial onde não havia e desconhecer a principal classe explorada de vários países da América Latina (os índios nos países andinos, por exemplo, constituem os principais elementos dominados e que tem potencial revolucionário). Enfim, procurar feudalismo na América Latina, chamar a Coréia Popular de stalinista e chamar as transformações em curso na Bolívia (principalmente essa), Venezuela e Equador de social-democrata não passa de eurocentrismo, de uma visão colonial da ciência e do conhecimento teórico.

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