segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A questão LGBTT e as eleições.

Não chegamos ainda no Juízo Final, mas o apocalipse para alguns têm cara e nome: Marina Silva. Depois de Marina Silva, o governo Dilma (o mais conservador do PT até agora) tornou-se alternativa de "esquerda" com base em um discurso meio ridículo e meio superficial. O fato de o governo Dilma está fazendo a pior política agrária (para os sem-terra, pequenos camponeses e índios) dos últimos anos, de ter a pior política ambiental da última década (nenhuma zona de proteção ambiental homologada no seu governo), de fazer uma política de segurança pública de mais militarização e repressão, de ter aumentado as políticas de privatizações já realizadas no governo Lula, etc., vira detalhe. O discurso do medo está pronto: com Marina vai ser muito pior. Há alguns meses o governo Dilma colocou o exército na rua para garantir o leilão do Campo de Livra. Episódio semelhante só aconteceu no governo de FHC. Mas quem se lembra disso?

Aí temos a questão LGBTT. Silas Malafaia - representante de uma versão neofascista com verniz religioso - através das redes sociais questionou o programa de Marina Silva apoiar o casamento civil igualitário e a criminalização da homofobia. Depois da pressão de Malafaia, Marina Silva mudou seu programa e se tornou a principal candidata do fundamentalismo religioso. Depois disso, militantes do PT, de memória curta ou mal intencionados, começam a mostrar Dilma como a opção dos LGBTTs e Marina como a encarnação do fundamentalismo. Vamos aos fatos.

Marina Silva já nas eleições de 2010 declarou que questões como o casamento gay, aborto e descriminalização das drogas seriam tratadas via plebiscito. Em um país onde a maioria da população é conservadora por causa da formatação de suas subjetividades através de aparelhos ideológicos monopolizados pela classe dominante é claro que plebiscito para temas assim o "não" terá a maioria dos votos. Aliás, colocar direitos de "minorias sociológicas" em votação é a maior prova de cretinismo parlamentar. Marina está apenas sendo coerente. Nunca defendeu direito das minorias e continua sem defender. Enganasse quem quiser.

Dilma - assim como Marina - tem relação com o fundamentalismo religioso. Edir Macedo apóia o Governo Federal do PT faz anos. Marcelo Crivella, outro grande nome do fundamentalismo religioso também apoiou por anos o PT. Chegando a ser ministro de Estado. Marcos Feliciano só foi presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em acordo com o PT. O PSC, partido do Pastor Everaldo, foi por anos da base do governo do PT. O PT também não fez nada para tributar os empreendimentos religiosos milionários, nada para combater a compra de horários na TV e nada de efetivo pela criminalização da homofobia e institucionalização do seu combate nas escolas. Cumpre lembrar que o PT desistiu do programa Escola Sem Homofobia por pressão de fundamentalistas religiosos (assim como Marina mudou seu programa de governo pela mesma pressão). Antes de alguém afirmar que o PT é uma coisa; o governo federal é outra. Que o Partido defende isso e aquilo. Se partirmos por essa lógica, temos que aplicá-la a todos os partidos. O PSDB até hoje mantém um programa com vários elementos social-democratas. O PSB até hoje mantém um programa socialista. O PPS até hoje mantém um programa de tipo reformismo radical atrelado a tradição italiana (programa claramente de esquerda). Mesmo os documentos desses partidos defendendo pauta “X” ou “Y” e suas Fundações também defendendo bandeiras associadas à esquerda, ninguém coloca esses partidos como progressistas. 
Mas agora durante a campanha Dilma se comprometeu a criminalizar a homofobia. Os PTistas de toda ordem tomam isso como prova de que Dilma representa a esquerda contra o fundamentalismo religioso e o neoliberalismo de Marina Silva (todos os governos do PT até agora mantiveram o aspecto neoliberal do período FHC). O que dizer disso:


A ) É comum políticos em época de campanha fazerem promessas e depois elas não serem cumpridas. Quantas vezes já vimos isso? Pois é, o PT em quase 12 anos à frente do Governo Federal não fez nada de substancioso pela causa LGBTT e só AGORA promete algo.

B ) É comum PTistas afirmaram que reformas estruturais não caminham no governo do PT por causa da correlação de forças, dependência de partidos conservadores (como o PMDB), etc. Oras, a coalizão atual do PT é a mais conservadora desde o primeiro mandato de Lula. Em 2002 tínhamos na coalizão que elegeu o PT, o PCdoB (ainda se afirmando comunista), o PSB (ainda se afirmando socialista), o PCB (comunista de fato), o PPS (social-democrata) e o próprio PT bem mais à esquerda que hoje. Mesmo com essa coligação não tivemos pautas como a criminalização da homofobia tocadas. Também vale lembrar que Lula no segundo mandato se tornou o presidente mais popular da história do Brasil e nem assim a questão caminhou. Hoje com uma dependência cada vez maior do PMDB e de partidos como o PP fica difícil crer em uma guinada “progressista”. A coalizão, o histórico e a prática nos fazem duvidar da vontade de Dilma (que faz um governo totalmente afastado dos movimentos sociais) de realmente levar essa promessa de campanha adiante.

Aécio Neves como candidato das camadas médias conservadoras e do capital financeiro faz nem questão de tocar no tema. Marina Silva por convicções pessoais e por sua base eleitoral é contra a criminalização da homofobia, o casamento civil igualitário e a defesa das minorias. Dilma participa de um partido que está a quase 12 anos no Governo Federal e não tentou de forma séria defender o direito das minorias e combater o fundamentalismo religioso e hoje faz propostas nesse sentido de forma oportunista e eleitoreira – o clássico cretinismo parlamentar.

Pessoas coerentes, aquelas sem memória curta e que duvidam de posturas que aparecem apenas no momento eleitoral, se foram votar, devem escolher Mauro Iasi (PCB), Luciana Genro (PSOL) ou Zé Marina (PSTU). Somente esses partidos defendem no dia-a-dia, na concretude diária, as pautas LGBTTs, a defesa das minorias, a criminalização da homofobia e o casamento civil igualitário. Somente esses partidos podem criticar os outros candidatos sem ser incoerente e ter relações promiscuas com o fundamentalismo religioso.

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