terça-feira, 16 de setembro de 2014

O PT e a "classe média": sobre a lenda do ódio recíproco!

Antes era Karl Marx, a história era a história da luta de classe. Na era moderna era burguesia contra proletariado; a burguesia é a vilã: a que explora, humilha, mata, oprime, mas aí vem Marilena Chauí que odeia a classe média, que diz que ela é abominação, mas acha a burguesia até legal. Então a história vira a estória de uma mítica classe média atrasada, reacionária e que em bloco odeia todo o PT e os governos petistas. Vamos à realidade.

Primeiro, o conceito de "classe média" é em si problemático. De maneira geral, podemos dividir o que chamamos de "classe média" em dois grandes grupos. O primeiro é formado por pequenos proprietários comerciais, industriais, de serviços e pequenos fazendeiros (a clássica "pequena-burguesia") e o segundo formado por não proprietários, mas que tem um nível de renda maior que a maioria do conjunto da classe trabalhadora o que os permite viver melhor, consumir melhor, etc. São normalmente funcionários de empresas privadas de alta qualificação, operários sindicalizados e estáveis de indústrias de transformação, funcionários públicos (com salários maiores que quatro mínimos), artistas, intelectuais e profissionais liberais qualificados (advogados, etc.), etc. Ou seja, fica claro que pensar em bloco a "classe média" é um erro. Um professor universitário é tão "classe média" quanto um dono de uma pequena rede de mercadinhos e os dois, tendencialmente, têm posições políticas e visões de mundo diferentes.

Ao fim da ditadura empresarial-militar, com a crise do "milagre econômico", as camadas médias (acho camadas médias um conceito mais preciso que “classe média”) estavam sobre pressão, acumulando perdas salariais, redução do padrão de vida e sem expressão política. Em sua maioria, se criou um senso comum democrático e tendencialmente de esquerda. O PT e o PSDB foram os principais beneficiários disso (o PSDB quando surgiu também era um partido de esquerda). O PT absorveu o apoio de grande parte da intelectualidade, artistas, funcionários públicos, operários sindicalizados da indústria e até pequenos-proprietários. Outra parte ficou com o PSDB e PDT e outra manteve-se aliada a ideologia e partidos de centro ou de direita. Cumpre destacar que, segundo dados de André Singer no seu livro "Os Sentidos do Lulismo", nas eleições presidenciais de 89, 94, 98 e 2002 quanto maior era a escolaridade maior eram os votos no PT, além de entre o segundo grande grupo das camadas médias o PT recebia votos massivamente. Ou seja, de 89 até 2002 os principais votos do PT eram de frações das camadas médias (pelo menos nas eleições presidenciais), sendo o voto da população miserável centrado em partidos de direita e conservadores (os motivos disso não convêm serem explicados nesse texto). Fernando Collor de Melo teve a imensa maioria dos votos entre os mais pobres, o que garantiu sua eleição.

A partir da eleição presidencial de 2006 foi que as camadas médias deixaram de ser a principal base eleitoral do PT e a população mais pobre, sem muita escolaridade, que ganha até três salários mínimos, é que tomou seu lugar. Algo que deverá se manter para a eleição atual. Aliado a isso, temos um processo de transformação da consciência sócio-política de várias camadas médias, que depois da crise dos anos 80, com a estabilização dos anos 90 de suas posições sociais (aqui pense principalmente na "pequena-burguesia"), vão se afastando do senso comum democrático e tendencialmente de esquerda dominante do fim da ditadura empresarial-militar. A transformação das posições do PSDB mostra isso. Porém, continua sendo um erro pensar as camadas médias como conservadoras em bloco. O PT ainda tem amplos votos nesses setores, o PSOL tenta ocupar o lugar que ficou vago pelo PT e candidatos com estética e proposta de esquerda não "radical" tem uma franja de votos certos entre as camadas médias. Lembre-se da votação de Ciro Gomes na eleição de 2002, de Heloísa Helena em 2006, na expectativa de votos que tinha Ciro Gomes em 2010 e na votação de Marina Silva em 2010 (que claramente tinha uma estética de esquerda).

Portanto, essa história de que existe um ódio recíproco e mortal entre o PT e a "classe média" não resiste nem a uma apreciação empírica do histórico de votos do partido (embora, é claro, uma fração das camadas médias mantenha realmente um odeio pelo PT). A lenda de que a "classe média" é conservadora em bloco também é uma falácia. Basta olhar o nível de renda e escolaridade de quem vota no PSOL. O que existe, na verdade, é um aumento do segmento conservador entre as camadas médias (principalmente entre as de renda muita alta, acima de 10 salários e os pequenos proprietários) resultado também de políticas do próprio PT no governo federal e uma redução da ideologia de esquerda no conjunto da sociedade. Por fim, um olhar com cuidado na origem social da militância dos movimentos sociais e principais partidos de esquerda no Brasil (PCB, PSOL, PSTU, PCR, anarquistas, Brigadas Populares, etc.) mostra que a maioria ou é de "classe média" (considerando o nível de renda) ou tem "capital cultural" de "classe média" (é pobre, mas é universitário, frequenta ambientes de consumo cultural "culto", etc.). Então quando Chauí diz que “a classe média é conservadora, reacionária, etc.” ela tá sendo no máximo uma propagandista infantil do PT.

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