segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Sobre as manifestações que pedem o impeachment de Dilma (ou um golpe de Estado):

Bem, desde que começaram essas manifestações ridículas pedindo o impeachment de Dilma eu evitei falar sobre o tema seja nas redes sociais, seja nas relações face a face diárias; não escrevi nenhum texto sobre e praticamente não compartilhe nenhuma notícia sobre a questão. Tudo isso por um simples motivo: esses protestos não têm qualquer relevância política. Contudo, como era de se esperar, a mídia e forças da esquerda governistas usam esses protestos para reafirmar uma suposta polarização entre um projeto popular (representado pelo PT) e as elites (representada pela "grande mídia" e o PSDB). O negócio é o seguinte:

A) A classe média não é "elite", não é parte da classe dominante. A "síndrome de Marilena Chauí" parece que cegou alguns. Pelo simples fato de que no nosso dia-a-dia as classes médias estão presentes (e a burguesia diretamente não) e que esse estrato social é claramente privilegiado em relação ao conjunto da classe trabalhadora, aparece uma tendência ao esquecimento de quem é a classe dominante de verdade. Então, cinco ou seis mil reacionários de classe média (a maioria com empregos públicos) protestando contra um governo não é sinal de que "a elite" ou a classe dominante tá contra esse governo (nem uma votação de 40 milhões de eleitores tendencialmente conservadores).
B ) A revista Veja, Folha de São Paulo, Estadão, etc., são aparelhos ideológicos da classe dominante, mas não sua voz direta. Além disso, no seio da classe dominante temos visões de gestão diferente do capitalismo e conflitos entre frações do capital. CartaCapital é um órgão de imprensa tão burguês quanto a Folha de São Paulo, só que os dois representam frações de classe diferentes e projetos de gestão diferentes do capital. Se quiser saber o ponto de vista das classes dominantes muito mais do que a Revista Veja é importante ler a Revista Exame, The Economist, Valor Econômico, etc., e, principalmente, os órgãos diretamente organizados pela burguesia: os editoriais da ABIMAQ, ABAG, FIESP, etc.
C) Só existe perigo de golpe de Estado em uma democracia burguesa em duas situações: quando alguma fração do capital é sistematicamente excluída da capacidade de disputa da hegemonia no seio do bloco no poder - ou seja, quando o domínio de uma fração do capital é tão grande que as outras lutam para romper a institucionalidade; ou quando o avanço das classes populares ameaça a reprodução da ordem burguesia ou se cria uma idéia de que existe uma ameaça (como em 1964). Nenhuma das duas situações estão vigentes no Brasil. Todas as frações do capital vêm tendo fortes taxas de lucros e expansão no Brasil e ao contrário de existir um forte avanço anti-capitalista das forças populares, o atual governo é um instrumento seguro de impedimento desse avanço (via cooptação, burocratização de entidades, aparelhamento de movimentos sociais, etc.). Basta olhar os financiamentos de campanha, basta olhar os programas do Governo Federal, basta olhar as declarações de grandes nomes da burguesia interna depois da reeleição de Dilma, etc. Só para exemplificar esse argumento: quando Edward Snowden revelou os milhares de documentos sobre a espionagem dos Estados Unidos contra o Brasil um detalhe passou despercebido: ao contrário do que acontece com Cuba e Venezuela (por exemplo) o Departamento de Estado dos EUA não investe bilhões na criação de uma oposição orgânica pró-capital "local" associado ao imperialismo na tentativa de derrubar o governo de Dilma. Por um simples motivo: não é necessário. Embora com fricções e atritos esporádicos, o atual grupo no Governo Federal representa um projeto político plenamente burguês integrado com todas as classes dominantes nacionais e o imperialismo estadunidense.

Mas aí alguém pode perguntar como esses ridículos protestos podem ganhar alguma repercussão em alguns aparelhos ideológicos da classe dominante. A resposta vem de um texto do camarada Mauro Iasi (o Escravo da casa-grande e o desprezo pela esquerda):
"O problema é que, mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação. O leque de alianças da governabilidade petista não implica fidelidade dos setores do capital monopolista, adeptos do amor livre, entendem o apoio ao governo do PT como uma relação aberta. Por isso aparecem na época das eleições na forma de suas personificações como partidos de “oposição”.
Tal dinâmica produz um movimento interessante. Amor e união com a burguesia monopolista durante o governo e pau na classe trabalhadora (combinada com apassivamento via políticas focalizadas e inserção como consumidores); e briga com a burguesia e promessas de amor com os trabalhadores na época de eleição!"

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