terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Hipócritas e embusteiros III: por que os liberais não falam do trabalho escravo?

              Alguns dias atrás as Lojas Renner [1], conhecido grupo do varejo brasileiro, foi flagrada com trabalho escravo. Casos como esse são recorrentes no Brasil e no mundo. É cada vez mais comum achar trabalhadores em situação análoga à escravidão. Embora sem estatísticas precisas, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), estima que temos em média de 25 a 45 mil pessoas em situação de escravidão. O que quero destacar é que os sites liberais não só não falaram nada sobre o caso da Renner – mesmo esse sendo um dos assuntos mais comentados das redes sociais por dois dias -, como praticam um ensurdecedor silêncio sobre a questão.
             
             O primeiro texto da série Hipócritas e Embusteiros foi para demonstrar que o liberalismo não pode ser efetivamente contra as opressões (racismo, machismo, etc.) [2]. O segundo foi para mostrar o interessante silêncio dos liberais sobre as operações de perseguição ilegais do Estado contra os militantes de esquerda no Rio de Janeiro [3]. Nesse último texto procurei nos principais sites liberais notícias sobre o tema e constatei o silêncio. Nesse fiz o mesmo percurso: fui ao site do Instituto Mises, Mercado Popular, Instituto Liberal, Instituto Milleniun, Liberdade e Mercado e Ordem livre. Nenhum desses sites comentou a notícia. Nenhum desses sites trata do problema. É evidente que temos motivos claros para isso (o Mercado Popular publica várias postagens diárias em sua página do Facebook. Inclusive comentários rápidos. E mesmo assim silêncio sobre o caso).
            
           A teoria liberal, em especial a Escola Austríaca, trata o burguês (chamado apologeticamente de empreendedor) como alguém dedicado, disciplinado, inovador, ousado, sagaz. Um sujeito sempre pronto a atender da melhor forma possível seu consumidor, sempre pronto a inovar, descobrir uma nova forma de aumentar suas vendas. Evidentemente que historicamente essa figura nunca existiu. No máximo a teoria liberal pega a figura de um pequeno-proprietário idealizado e transforma-o em “tipo ideial”, como representante de toda uma classe. Só pelo fato de que o capitalismo ter surgido umbilicalmente ligado ao colonialismo, a escravidão e a violenta expulsão dos camponeses de suas terras na Europa (o processo de acumulação primitiva, analisado por Marx) já denota o quanto essa visão é fantasiosa.
          
           O impacto simbólico dos casos de escravidão é chocante demais para nossos liberais. Ele mostra, de forma cabal, que as relações de produção orientadas pelo lucro geram a negação de qualquer solidariedade e humanidade. O fato de um mega-grupo empresarial usar de super-exploração – para não falar da exploração legal – mostra não uma propensão para inovação, ousadia e melhora dos serviços, mas sim para aumentar a margem de lucros crescendo a exploração sobre os trabalhadores. Nunca é demais lembrar que a burguesia brasileira faz uma cruzada santa contra a CLT há décadas. A CLT ainda não foi derrubada por causa do seu impacto simbólico no imaginário social. Os riscos seriam muitos. Mas a CLT vem sendo cada dia mais relativizada através de vários expedientes jurídicos. A terceirização tá aí para provar.  

Por fim, para termos uma ideia desse drama negligenciado por nossos liberais, justamente aqueles que dizem amar a liberdade, cabe citar o Leandro Sakamoto:

A escravidão contemporânea é diferente daquela que existia até o final do século 19, quando o Estado garantia que comprar, vender e usar gente era uma atividade legal. Mas é tão perversa quanto, por roubar do ser humano sua liberdade e dignidade. E ela não se resume à terra de ninguém que é a região de expansão agrícola amazônica, mas está presente nas carvoarias do cerrado, nos laranjais e canaviais do interior paulista, em fazendas de frutas e algodão do Nordeste, nas pequenas tecelagens do Brás e Bom Retiro, da cidade de São Paulo. 
A nova escravidão é mais vantajosa para os empresários que a da época do Brasil-Colônia e do Império, pelo menos do ponto de vista financeiro e operacional. O sociólogo norte-americano Kevin Bales, considerado um dos maiores especialistas no tema, traça em seu livro “Disposable People: New Slavery in the Global Economy” (Gente Descartável: A Nova Escravidão na Economia Mundial), paralelos entre esses dois sistemas. 
Antigamente, a propriedade legal era permitida, hoje não. Mas era muito mais caro comprar e manter um escravo do que hoje. O negro africano era um investimento dispendioso que poucas pessoas podiam ter. Hoje, o custo é quase zero - paga-se apenas o transporte e, no máximo, a dívida que o sujeito tinha em algum comércio ou hotel. Além do fato de que, se o trabalhador fica doente, é só largá-lo na estrada mais próxima e aliciar outra pessoa. O desemprego é gigantesco no país, e a mão-de-obra, farta. [4]



Notas
[3] - http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2014/07/hipocritase-embusteiros-ii-cade-o.html



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