quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O legado político-administrativo de Eduardo Campos (parte II): nepotismo, aparelhamento da máquina pública e personalismo.


               Continuando a série de textos críticos sobre o legado político-administrativo [1] de Eduardo Campos, vamos falar de sua forma de gestão na máquina pública e do seu partido, o PSB. Os elementos analisados contribuíram para desmistificar a áurea do líder moderno e democrático que Eduardo Campos criou sobre si mesmo – usando muito dinheiro público para isso, é claro. Vamos demonstrar a prática de nepotismo no aparelho do Estado, o aparelhamento da máquina pública e lembrar alguns episódios da dinâmica interna do PSB que explicitam bem o modo eduardiano de fazer política.
             
             Eduardo Campos, como bom marqueteiro que era, sempre procurou passar uma imagem dissociada de suas práticas reais. Seu governo aprovou a lei complementar N° 097, de 01 de outubro de 2007, que criminalizava o nepotismo. Nepotismo é a prática de empregar parentes na máquina pública. Depois de aprovada esse lei, Eduardo usou todo marketing imaginável para mostrar que Pernambuco, no seu governo, estava livre de várias práticas nepotistas e coronelistas. Vamos à realidade:
           
            Os jornalistas Conceição Lemes, Chico Deniz e Daniel Bento fizeram uma ampla pesquisa nas nomeações de parentes na Era Eduardiana, e ao final do último mandato chagaram a essa conclusão:

Atualmente, sete primos  – antes eram nove – ocupam cargos na administração estadual de Pernambuco, além de, pelo menos, mais dois sobrinhos, uma tia, o sogro, uma cunhada e um ex-cunhado. Não estão incluídos aí os dois tios e a mãe do governador que estão em postos na administração federal. [2]

Para ilustrar melhor a questão, mesmo deixando o texto um pouco maçante, vale à pena citar o nome, grau de parentesco com Eduardo Campos e o cargo de cada familiar:


Carla Ramos Santos Leal (tia). Cargo: chefe de administração do Palácio do Campo das Princesas.

Cyro Andrade Lima (sogro). Cargo: integra o conselho de administração Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).

Ana Elisabeth Andrade Lima (é  irmã de Renata Campos e cunhada do governador). Cargo:  gerente da Política de Saúde do Estado.

Rodrigo de Andrade Lima Molina (sobrinho). Cargo: gerente de finanças da secretaria de desenvolvimento econômico.

Marcela de Andrade Lima Molina (sobrinha). Cargo: cargo comissionado de gestora técnica na Secretaria de Governo.


Francisco Tadeu Barbosa de Alencar (primo). Cargo: secretário da Casa Civil.

José Everardo Arraes de Alencar (primo). Cargo:  preside o conselho editorial da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE).

Thiago Arraes Alencar Norões (primo). Cargo: procurador-geral do Estado.
             
               Depois de todos esses exemplos, ficou claro que Eduardo Campos praticou de forma aberta e escancarada o nepotismo. Mas temos um detalhe jurídico: do ponto de vista legal, empregar primos não é nepotismo, pois eles não são parentes de primeiro grau (irmão, esposa etc.), mas é claramente imoral. Basta fazer a simples pergunta: se não fossem primos do governador, essas pessoas teriam esses cargos?
              
             Esse nepotismo também se configura como uma forma de aparelhamento da máquina pública. As teorias republicanas (independente se eu concordo com elas ou não) pregam que o administrador público deve procurar zelar pelo bem-comum, evitando sobrepor o interesse do seu grupo político ao da coletividade que ele representa. Ao nomear parentes para cargos do Estado, fica claro que Campos tinha maior preocupação garantir dinheiro, prestígio e poder político para grupo político do que em contratar quadros capacitados e experientes para realizar uma boa administração pública. Aliás, o familismo na gestão de Eduardo Campos foi tão grande, que ele colocou o nome do avô Miguel Arraes em vários bens públicos (Hospital Miguel Arraes, Avenida Norte Miguel Arraes, Escola Estadual Miguel Arraes, e por aí vai).
           
           É importante analisar como Eduardo Campos, que foi por anos presidente do PSB, se comportava no seu partido. Destacarei dois grandes episódios sobre a questão para mostrar o modo personalista, autoritário e semi-coronelista de conduzir a política partidária interna.
            
             Na eleição para presidente de 2010, a escolhida de Lula para ser seu sucessor, Dilma Rousseff, era uma grande incógnita. Sem experiência em disputas eleitorais, sem carisma e sem muito apoio no PT. Ciro Gomes, experiente político nacional, era do PSB. Ele pretendia lançar-se candidato à presidência. As pesquisas pré-processo eleitoral indicavam que ele já saía com uma expectativa de 10 milhões de votos. Em 2010, Eduardo Campos ainda não tinha a fama nacional que Ciro Gomes. Como o PSB era partido – à época – de médio porte, a possibilidade de ter um candidato à presidência com 10 milhões de votos ou mais, animava muitos membros do partido. Isso poderia fazer com que o PSB passasse a ser um partido de grande porte, aumentando sua bancada de deputados federais, estaduais, senadores e montando palanques fortes para concorrer aos cargos de governador. Eduardo Campos, com medo do aumento da popularidade de Ciro Gomes e querendo garantir sua candidatura para presidente em 2014, manobrou internamente o partido, isolou e até expulsou quem defendia a candidatura de Ciro Gomes e por fim fez com que ele tivesse que sair do partido. Perdeu o quadro mais popular do PSB, a chance de, já em 2010, o PSB se tornar um partido de porte nacional e até, quem sabe, chegar ao segundo turno. Tudo para não atrapalhar seus planos pessoais.

              
           Outro momento que ilustra bem qual era o comportamento partidário de Eduardo Campos foi a escolha do secretário estadual da juventude socialista do PSB. Eduardo Campos, sem respeitar qualquer conversão interna e o regimento do partido, usou sua influência no partido para colocar o nome de seu filho mais velho, João Campos, para o cargo. O episódio gerou um racha no clã da Família Campos, quando Marília Arraes, prima de Eduardo Campos, protestou publicamente [3] contra o método personalista e autoritário do ex-mandatário pernambucano. A partir daí, Marília Arraes tornou-se uma das principais vozes de combate interno (dentro do PSB) às ingerências do seu primo.
              
          Não é necessário tecer maiores comentários sobre o show de horrores no qual se converteu o velório de Eduardo Campos. Sua morte foi usada como palanque político; o luto, como puxador de votos e sua “memória” como cabo-eleitoral. A família Campos mostrou que o personalismo e o familismo sobrevivem além do corpo físico, usando uma fatalidade como um recurso para ganhar votos. O nível de personalismo é tão alto que o João Campos está sendo preparado para assumir “o lugar do pai”. A imprensa pernambucana toda semana coloca-o como cotado para vereador ou vice-prefeito [4] do Recife, como se o Estado de Pernambuco fosse propriedade familiar, um negócio privado da família Campos.
              
         Em resumo: a propaganda oficial do Governo Eduardo Campos que sustenta a visão de uma gestão moderna, democrática, transparente e que superou os velhos vícios do clientelismo coronelista, não se sustenta na realidade: a Era Eduardiana é marcada por nepotismo, aparelhamento da máquina pública, personalismo e autoritarismo. Isso tanto no governo do Estado quanto na direção do PSB.

Notas
[2] -http://www.viomundo.com.br/denuncias/eduardo-campos-tem-parentes-no-governo-secretario-nega-nepotismo.html

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