segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Piketty é Pop

O economista francês Thomas Piketty está causando frizon no mundo. Seu livro "O capital do século XXI" é um verdadeiro sucesso de vendas. Ele está no Brasil, já passou por várias capitais, deu várias entrevistas, é badalado por onde passa. Uma verdadeira estrela. Pipocam nas redes sociais, sites e jornais textos, análises, criticas, elogios, avaliações de sua obra. Mesmo sem ter lido o livro, suas teses centrais já são bem conhecidas: Piketty afirma, através de uma série enorme de dados estatísticos de 21 países em uma escala temporal de 200 anos, que o ciclo de reprodução do capital tende a geras desigualdades sociais e criar elites políticas super-ricas com poder político global descomunal. Segundo as análises do francês, só com políticas públicas redistributivas, como taxação de grandes fortunas e do direito de herança, é que a desigualdade de renda pode ser mitigada. Caso contrário a democracia [burguesa] fica ameaçada.

Oras, tudo isso que Piketty falou não é nenhuma novidade. Se a publicação do "Capital do século XXI" fosse nos anos 50 ou 60, Piketty seria apenas mais um. A teoria macroeconômica keynesiana - para não falar do marxismo - sabe, desde o início do século XX, que o capital em seu ciclo de reprodução gera concentração de renda. Que os ganhos de capital (lucro, juros, rendas da terra etc.) são sempre maiores que os salários e, inclusive, esse é um dos motivos das crises de subconsumo. Por isso a necessidade de políticas anticíclicas para fortalecer a demanda agregada e restabelecer a taxa média de lucros. A necessidade de políticas de distribuição de renda para evitar crises era tão forte no auge da social-democracia que em vários países, como a Alemanha Ocidental, quem aplicou essas políticas foi a direita (Democracia cristã). A grande diferença em termos de política econômica da Democracia Cristã e da Social-Democracia era o nível de nacionalizações, a amplitude das políticas sociais e o nível de extensão do planejamento indicativo. Mas todo mundo, inclusive os liberais, viam como óbvios a necessidade dessas políticas redistributivas.  


Evidentemente que depois de 40 anos de neoliberalismo o mundo ficou mais burro. Esqueceu o básico. O novo padrão de acumulação (neoliberalismo e produção flexível) e de dominação política (substituição do Estado social pelo Estado penal) não necessita mais de políticas redistributivas. Contudo, alguns membros da burguesia já percebem o perigo desse neoliberalismo extremo - via políticas de austeridade - que destrói a Europa (e os Estados Unidos). The Economist há dois anos soltou um editorial falando do perigo da desigualdade. O bilionário George Soros é líder de um junto de ricos que defende a taxação de grandes fortunas com medo da instabilidade política causada pelo aumento brutal da pobreza. Até o FMI está preocupado com a redução drástica do mercado consumidor no mundo. Enfim, Piketty surge como alguém que apresenta uma "solução" branda para as desgraças do mundo. Em vários países o enfrentamento da crise está gerando soluções radicais à esquerda, como na Grécia, Portugal e Espanha. Em vários outros, a legitimidade dos governos capitalistas está indo para o buraco. Como forma de evitar a continuidade dessa exploração extrema autodestrutiva, o surge à proposta - amplamente divulgada nos monopólios mundiais de mídia - de um retorno light do Estado de Bem Estar-Social. Enfim, Piketty é pop, só não é novidade e muito menos solução! 

2 comentários:

  1. A reforma financeira dos Estados e o controle pelo Estado do sistema financeiro mundial na esteira do padrão ouro-dólar era uma das obras-primas do velho "keynesianismo" no período em que vigorou os acordos de Breton Woods. A teoria macroeconômica "keynesiana" começava a declinar com o fim padrão ouro-dólar durante a primeira crise do petróleo na década de 70 e colapsou com a primeira crise das dívidas dos países emergentes na década de 80.Substituiu-se, em consequência, o "nacional-desenvolvimentismo macroeconômico burguês do velho paradigma keynesiano pelo paradigma do Consenso de Washington - o da escola macroeconômica liberal. A desregulamentação do sistema financeiro em escala global é a "menina-dos-olhos" deste último.

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  2. E você acha que é possível resgatar aquela padrão dos anos dourados do capitalismo, Ailton? Piketty acha que sim. Eu acho que não.

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