segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Imperialismo estadunidense e fundamentalismo religioso: uma longa história de amor.


                 Como esperado depois dos atentados em Paris, todos os principais monopólios de mídia do mundo iniciam sua clássica campanha de medo. O discurso de que a Europa está vulnerável ao terrorismo e o novo reforço ideológico da guerra ao terror fundamentam o fortalecimento dos aparelhos repressivos e de controle do Estado e a restrição das já escassas "liberdades democráticas" na Europa. A retórica enviesada dos monopólios de mídia, que verbalizam os interesses geopolíticos da burguesia, deve ser combatida a todo custo. A melhor forma disso é mostrar como historicamente o fundamentalismo religioso foi incentivado e usado como arma do imperialismo estadunidense para a vitória da contrarrevolução, o sufocamento de levantes de libertação nacional e das lutas anticapitalistas.
                  
             Mostraremos como o fundamentalismo religioso é instrumentalizado pelos Estados Unidos traçando uma análise histórica em grandes linhas, abordando a questão a partir da guarida aos fundamentalistas anti-soviéticos na guerra do Afeganistão, a ação dos mercenários na Líbia e Síria e o armamento do Estado Islâmico (ISIS).
                  
            A CIA – agência de inteligência dos EUA – começou a treinar, financiar, armar e apoiar politicamente organizações fundamentalistas anti-soviéticos no Afeganistão. A ex-URSS tinha uma ampla população muçulmana e vários países de maioria muçulmana. A agência norte-americana poderia ter apoiado organizações anti-soviéticas nacionalistas e laicas, mas sua avaliação é que os fundamentalistas cumpririam um trabalho melhor. Osama Bin Laden era um jovem milionário de família saudita, ao saber do início dos enfrentamentos de grupos fundamentalistas contra os “ateus soviéticos” (como a propaganda da CIA assimilada pelos jihadistas chamavam o governo de Moscou) engajou-se na luta. Recebeu treinamento, armas e dinheiro.
              
               Em 1983 é criada a Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão (IAAM, em inglês). A IAAM era uma reunião de todas as organizações fundamentalistas contra o poder soviético no Afeganistão. A articulação do imperialismo estadunidense garantiu um governo fundamentalista no Paquistão, Arábia Saudita (até hoje) e continuava fortalecendo a IAAM com fim de fazer do Afeganistão outro aliado fiel pró-EUA. Os príncipes saudistas “doaram” mais de 20 bilhões de dólares aos fundamentalistas afegãos, a CIA veio com um aporte de outros 20 bilhões. O resultado disso é que eles além de forte treinamento, boa estrutura logística, forte rede internacional de contatos e muito dinheiro, eles ainda podiam contar com mísseis anti-helicópteros e outros armamentos de ponta fundamentais na derrota dos soviéticos (o Afeganistão soviético era um país laico, as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens e o islamismo dominante não tinha qualquer traço de fundamentalismo) [1].
                   
             A continuação da história de Osama Bin Laden todos sabemos. Ele se voltou contra os Estados Unidos, usou todo dinheiro, armas e treinamento que teve do imperialismo estadunidense para confrontá-lo. O 11 de setembro é apenas um desdobramento dos atos passados da CIA no Afeganistão. Aliás, é sempre importante lembrar que enquanto Bin Laden e seus “guerreiros” fundamentalistas estavam lutando contra os soviéticos, o Times de Londres os chamavam de “combatentes da liberdade” e “rebeldes”. A palavra “terrorista” não compareceu uma única vez. O filme Rambo 3  é uma apologia dos fundamentalistas jihadistas. Evidentemente que o imperialismo só mobiliza sua máquina de propaganda quando seu ex-aliado deixa de ser funcional aos seus planos.
                 
            Antes de prosseguimos para o próximo ponto, é importante lembrar dois fatos históricos. Depois dos atentados de 11 de setembro (muito suspeito!) o Afeganistão foi invadido com a desculpa de capturar Bin Laden, pois este seria chefe de uma super-rede terrorista que supostamente comandaria operações terroristas do país. O Iraque também foi ocupado militarmente. Saddam teria armas de destruição em massa que precisavam ser neutralizadas. Poucos meses depois da ocupação militar descobrimentos que a história das armas de destruição em massas era falsa - nunca apareceram. Bin Laden nunca foi achado no Afeganistão e a própria existência a Al Qedda com o nível de articulação que os Estados Unidos diz que a organização tem é questionável. Até hoje nenhuma prova consistente dessa suposta organização com estrutura mundial foi apresentada.
                
            Mas vamos voltar ao uso do fundamentalismo religioso como instrumento do imperialismo estadunidense nos seus planos de dominação geopolítica. A chamada Primavera Árabe combinou uma série de revoltas legitimas de amplos segmentos sociais de vários países e ações orquestradas de desestabilização e dominação geopolítica comandadas pela CIA. A Líbia e a Síria são os exemplos mais claros do segundo caso.
                
             Na Líbia a operação foi vitoriosa: Kadafi foi assassinado, toda estrutura do país destruída, centenas de pessoas chacinadas e as reservas de petróleo e gás natural sob comando das empresas monopolistas do setor e do governo dos EUA. Mercenários supostamente ligados a al-Qaeda estão envolvidos até o pescoço na operação. É claro que assim como no Afeganistão, os mercenários tiveram aporte financeiro, militar, diplomático e logístico. Convenientemente, ninguém fala mais da situação da Líbia atual. Antes era o país com maior IDH da África, hoje é uma confusão de milícias que  matam-se diariamente enquanto as reservas de combustível fóssil são tranquilamente exploradas [2].
                
             A Síria por ter melhor estrutura militar, apoio geopolítico da Rússia e China e muito mais apoio interno do que tinha o governo líbio consegue resistir bravamente. De novo, a principal força mercenária é composta por fundamentalistas religiosos que não aceitam o fato do governo de Bashar Assad ser laico com convivência harmônica entre todas as religiões (algo raro na região).
                  
                É lógico que os jihadistas que lutam para derrubar Assad são chamados pelos monopólios de mídia de lutadores da liberdade [3]. Vários deles depois de guerrearem na Síria voltam para seus países de origem com treinamento e amplo conhecimento militar para lutar contra os “infiéis” do seu país. Os “terroristas” de Paris participaram da guerra na Síria contra o governo em nome do fundamentalismo religioso. Assad [e o povo sírio] que representa, nesse caso, a luta pela democracia e contra o obscurantismo religioso é taxado de ditador, déspota, sanguinário, etc. [4] (que os monopólios de mídia enquanto armas ideológicas do imperialismo façam isso é normal, bizarro é ver grupos de esquerda como o PSTU e as tendências morenistas do PSOL falaram dos mercenários como se fossem lutadores da liberdade).
                
              Por fim, antes dos atentados em Paris, a moda era apresentar o Estado Islâmico, o ISIS, como principal ameaça à “civilização ocidental” (forma arrogante de os EUA se autodenominarem). Mas o ISIS e seus guerrilheiro fundamentalistas não seriam nada sem sua ligação com os Estados Unidos. Vamos dar a palavra para os deputados iraquianos:

Parlamentares iraquianos querem denunciar na ONU a coalizão liderada pelos Estados Unidos que continua sistematicamente entregando armas aos terroristas do EILL
Deputados do Parlamento do Iraque pediram nesta quinta-feira (01) ao governo em Bagdá quer apresentasse um relatório para as Nações Unidas (ONU) denunciando o fornecimento de armas pelo os EUA ao grupo EILL.Em um comunicado a imprensa estrangeira, o parlamentar iraquiano, Alia Nasif, considera que o lançamento de armas pelos aviões norte americanos em áreas de conflitos são intencionais e as armas sempre acabam em mãos de terroristas, o que contradiz o direito internacional e, portanto o governo iraquiano tem que denunciar perante a ONU [5].

                   Em outro trecho da matéria os deputados se queixam de que a Casa Branca diz que enviam as armas por engano. Seria cômico se não fosse trágico e estivesse ceifando a vida de milhares de pessoas. Na mesma matéria podemos ver a afirmação da que “Os Estados Unidos apoiam o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e de forma explicita o denominado Exercito Livre Sírio (ELS) e a oposição armada síria, afirmou o parlamentar.” O curioso é que os guerrilheiros curdos, comunistas e laicos, são a principal força de enfrentamento aos jihadistas assassinos do ISIS. O Exército de Libertação Curdo tem forte participação e destaque das mulheres, verdadeiras heroínas da liberdade, enquanto os fundamentalistas apoiados e usados pelo imperialismo estadunidense procuram atribuir a mulher um status sub-humano [6].
                
        Não restam dúvidas. Como mostramos no texto: os principais grupos terroristas-fundamentalistas dos últimos anos foram financiados e apoiados das mais diversas formas pelos Estados Unidos para cumprir determinadas funções dentro da estratégia imperialista de dominação geopolítica (agindo enquanto representante e organizador mundial do capital). Portanto, a “guerra ao terror” não passa de uma estratégia ideológica para justificar expansões neocoloniais, invasões militares e controle interno do próprio povo estadunidense. O papel dos monopólios de mídia enquanto sustentáculo disso tudo é fundamental.
                 
                 Poucos meses atrás um drone – avião teleguiado – bombardeou uma festa de casamento no Iêmen. A ação assassinou doze pessoas, todas civis [7]. A barbárie foi noticiada, mas quase nenhuma repercussão foi dada e a notícia já foi esquecida. Com a desculpa de atacar uma base da Al Qedda foram mortas brutalmente pessoas totalmente inocentes. Os monopólios de mídia não chamam isso de assassinato, atentado, chacina, etc. Compare a repercussão midiática dos mortos em Paris e dos mortos no Iêmen. A "repercussão" nunca é inocente, fortuita, espontânea. Existem razões políticas, geopolíticas, ideológicas e econômicas muito claras para o diferencial de repercussões dos "acontecimentos". Enfim, o fundamentalismo religioso – assim como o tráfico internacional de drogas – é usado como instrumento político-militar de ação do imperialismo e ainda é mostrado como um inimigo a ser combatido para fundamentar o fortalecimento do poder repressivo do Estado internamente (contra as classes trabalhadoras) e justificar e legitimar ideologicamente as ações militaristas do imperialismo.

Notas

[1] – http://outraspalavras.net/posts/como-os-estados-unidos-criaram-bin-laden/
[2] – http://pt.cubadebate.cu/opinioes/2011/09/02/como-al-qaeda-chegou-ao-poder-em-tripoli/
[3] – http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/eua-infiltram-mercenarios-na-siria-fonteira-paises-vizinhos/671661/
[4] – http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/387792/assad-diz-ter-capturado-mercenarios-estrangeiros
[5] – http://www.orientemidia.org/em-sucessivos-enganos-os-eua-continuam-fornecendo-armas-ao-estado-islamico-isis/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook&utm_campaign=em-sucessivos-enganos-os-eua-continuam-fornecendo-armas-ao-estado-islamico-isis
[6] – http://www.esquerda.net/artigo/mulheres-curdas-resistencia-e-vida/34968
[7] - http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,drone-dos-eua-mata-13-convidados-de-casamento-no-iemen,1107772

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