quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O trotskismo e o movimento comunista no século XX: acerto teórico e derrota política?



       O PSTU publicou um texto muito interessante intitulado “Ser trotskista no século XXI” [1]. O texto me chamou atenção por repetir uma série de lugares-comuns da maioria dos grupos trotskistas: legitimar sua existência com base em um contraste positivo com o stalinismo e afirmar, não sem certa arrogância, que sempre estiveram certos sobre o destino que teria a URSS, os países do Leste Europeu e os “Estados operários burocratizados”. Nesse texto vamos questionar o principal ponto-cego dos trotskistas, a saber, não enfrentar a pergunta que deveria ser fundamental para eles: por que mesmo estando certos teoricamente – como eles acham que estavam e estão – as organizações trotskistas nunca conseguiram ser majoritárias no movimento comunista mundial?

              Podemos dizer, sem necessidade de muito rigor histórico, que o movimento trotskista começa a ganhar corpo e forma nos anos trinta. Dos anos trinta até o fim da URSS temos mais de cinqüenta anos. Vimos a Segunda Guerra Mundial, os processos de descolonização da África e Ásia, A Revolução Cubana, Chinesa, os vários levantes do Terceiro Mundo, as resistências às ditaduras na América Latina e no Sul da Europa, o neoliberalismo, a crise do movimento comunista e a vitória no século XX do capitalismo. Em todos esses episódios, nessas várias lutas proletárias e populares, em nenhuma o trotskismo teve papel de destaque, papel de liderança.

                Althusser em sua polêmica com John Lewis, analisa como as denúncias do XX Congresso do PCUS produziram uma popularidade renovada das organizações trotskistas:

O que explica, diga-se de passagem, não poucos fenômenos de aparência paradoxal como, por exemplo, 50 depois da Revolução de Outubro e 20 anos depois da Revolução Chinesa, o fortalecimento de Organizações que subsistem há 40 anos sem terem obtido nenhuma vitória histórica (pois, ao contrário dos “esquerdismos” atuais, elas são organizações e têm uma teoria): as organizações trotskistas (Althusser, 1978, p. 56) [2]

O francês coloca uma questão pertinente. As organizações trotskistas constituem-se, formam sua identidade, em oposição ao que chamam de stalinismo – muitas vezes fazendo uma caricatura desse conceito. Sua razão de ser esta em ser oposto ao stalinismo, em afirmar que sempre souberam, desde no mínimo da publicação de A Revolução Traída de Trotsky, o destino da URSS. Isso fica claro nesses trechos do texto do PSTU:

O gigantismo de Trotski em comparação com todos os outros pensadores e práticos marxistas é definido pelo fato de que ele, e somente ele, conseguiu decifrar o enigma central do século passado, o fato primordial que determinou todos os outros eventos a partir de 1917 até os dias de hoje: a burocratização, degeneração e posterior extinção do primeiro Estado operário da história.
E:
Se hoje o imperialismo utiliza o fim da União Soviética como motor de sua campanha contra o socialismo, é preciso reconhecer que, durante quase 50 anos, os trotskistas, orientados por Trotski, alertaram os trabalhadores sobre esse fim inevitável, caso não triunfasse no antigo império dos czares uma revolução política antiburocrática.

            É lógico que em alguns poucos lugares o trotskismo conseguiu certo destaque, como na Argentina e Bolívia. Mas, no geral, sempre foram grupos minoritários, sem muita expressão, que não conseguiram disputar a consciência das massas. Quando a URSS caiu, a impressão dos trotskistas era “que agora vai”. Eles viam o fenômeno como a afirmação histórica de suas teorias, o fim do “stalinismo” como um avanço, mas nada disso se verificou.

           Só em nível de comparação, o maoísmo, vertente do marxismo que se constituiu com a Revolução Chinesa, conseguiu o que trotskismo nunca alcançou: ser um movimento de massas. Fora da China o maoísmo, com maior ou menor sucesso, foi à inspiração teórica para vários movimentos revolucionários. Como O Partido dos Panteras Negras e o Sendero Luminoso no Peru (um dos maiores partidos comunistas da atualidade é o PC da Índia, de orientação maoísta).

             Voltando para o texto do PSTU. A simples pergunta, fundamental para pensar o “ser trotskista no século XXI”, não é enfrentada. Tomasse uma idealização negativa da história soviética e de grande parte do movimento comunista, se afirmam como os puros, os não contaminados pelo germe maligno do burocratismo:

Estas linhas dão uma pequena ideia da força que possuem as ideias de Trotski e do papel que cumpriram no exato momento em que a contrarrevolução dirigida por Stalin avançava sobre as conquistas de Outubro. Ser anti-stalinista depois da queda do Muro de Berlim não é difícil. Ser anti-stalinista durante 60 anos – quando o stalinismo era a maior força política da classe trabalhadora mundial – é outra coisa. Disso, somente os trotskistas foram capazes. Nenhuma outra corrente o fez. Nenhuma. (grifos meus).

            Como já disse, é necessário criar uma caricatura do stalinismo nessa operação. O PSTU afirma isso “a luta contra todo tipo de opressão de gênero, raça, orientação sexual e nacionalidade, bandeiras que o stalinismo jamais levantou de verdade”, quando qualquer pesquisador sério sabe o papel de destaque que a URSS teve no combate ao racismo e contra o colonialismo (maior forma de opressão nacional) [3].

                  Enfim, enquanto o trotskismo não conseguir enfrentar e dar uma resposta para essa questão capital – por que nunca conseguiu no século XX ser dominante ou mesmo massificado no movimento operário? -, deduzir apenas seu “direito de existir” pôr um contraste positivo com o fenômeno “negativo do stalinismo”, ele terá sempre que idealizar sua história – nós sempre estivemos certos, pena que “ninguém nos ouviu” – e demonizar de forma caricatural as outras vertentes do movimento operário. Aliás, antes de concluir, já adianto um possível questionamento. Já escutei alguns trotskistas afirmaram que nunca conseguiram papel de destaque no movimento operário por causa das “perseguições stalinistas”. Historicamente isso é falso. Na América Latina nunca ouve perseguição stalinista, nem na Europa Ocidental, nem na África ou Ásia. Além disso, várias vertentes do movimento operário, discordando das orientações da URSS, como o maoísmo, o foquismo guevarista, o eurocomunismo, etc., conseguiram inserção de massas, forte expressão política. Jogar para o stalinismo a explicação do seu fracasso também não é resposta satisfatória.

Notas.
[1] – http://www.pstu.org.br/node/21198
[2] – Louis Althusser. Posições I. Editora Graal.
[3] –  http://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/52622-ser-negro-na-uni%C3%A3o-sovi%C3%A9tica-e-nos-estados-unidos-uma-compara%C3%A7%C3%A3o-hist%C3%B3rica.html

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