sábado, 3 de janeiro de 2015

Uma análise política do discurso de posse de Dilma.

Reforma Política - Dilma não defendeu o conteúdo da reforma. Não falou em financiamento público de campanha, em voto em lista fechada, em paridade de homens e mulheres no Congresso, etc. A mesma Dilma que defendeu em debate televiso, ao vivo, o financiamento público, não tratou em momento nenhum do conteúdo da reforma. Falou de sua importância, de como ela vai recuperar a confiança dos brasileiros nas instituições, mas sem deixar claro, ou melhor dizendo, reafirmar, o conteúdo dessa reforma. Isso é sintomático.

Ajuste das contas públicas - Dilma deixou claro que um "ajuste das contas públicas" é algo fundamental, incontornável, para seu governo. Disse, apenas, que procurara fazê-lo com o menor impacto possível. Parece que a escolha do neoliberal Joaquim Levy não foi mesmo casual. Dilma, devo deduzir, está convencida em ir na direção [neoliberal] de corte no orçamento da máquina pública (em áreas "social"; é claro). Ao mesmo tempo, a política de desonerações fiscais que fez com que o Estado perdesse (em 2014) de arrecadar 92, 932 bilhões não será revista (tomando como base apenas o discurso).

Aumento das concessões e parceiras público-privadas (PPP) - Dilma elogiou todas as concessões realizadas por seu governo em portos, aeroportos, etc. Como se sabe, as concessões são formas de semi-privatização; uma espécie de privatização com limite de tempo. Ela prometeu uma nova rodada de concessões e fortalecimento das PPP. Ou seja, teremos o aprofundamento da política de privatização da infraestrutura nacional.

Petrobras - Em discurso viril, agressivo, Dilma disse que defenderá a Petrobras dos seus inimigos internos e externos. Não disse bem como, além de investigar e punir firmemente todas as denúncias de corrupção. A questão da reestatização da empresa passou longe de seu discurso.

O não dito - Dilma não falou de regulação econômica da mídia (como na sua primeira entrevista depois de eleita), reforma tributária, fortalecimento da agricultura familiar e reforma agrária, fortalecimento dos serviços públicos (só em termos genéricos, como ampliar o acesso à educação, mas essa ampliação pode ser via pública ou privada), criminalização da homofobia (promessa de campanha) ou qualquer pauta de esquerda que garantiu sua eleição.

Fica claro para qualquer observador que há um deslocamento gradual do discurso de Dilma: primeiro com a ascensão de Marina o discurso vai à esquerda, com o segundo turno o discurso tende mais à esquerda ainda - com Dilma defendendo financiamento público de campanha ao vivo em debate, assumindo o compromisso de criminalizar a homofobia, regulação econômica da mídia e fazendo uma propaganda televisiva anti-bancos -, depois de eleita, no discurso da vitória, o tom da mensagem é moderado e só a reforma política aparece como pauta de esquerda (já falando em reconciliação nacional), as medidas pós-vitória vão cada vez mais à direita e o discurso de posse liquida qualquer viés progressista e de esquerda.

Não parece restar dúvidas, pelo menos nesse momento, que esse ano teremos o início do governo mais conservador desde o primeiro mandato de FHC! A tese do "governo em disputa" é cada vez mais tripudiada pela realidade dos fatos.

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