sábado, 24 de janeiro de 2015

Uma esquerda radical sem radicalidade?



Em poucas horas começará a eleição grega, o Syriza - Partido da Esquerda Radical - é o forte candidato à vitória. O debate político mundial está virado para a Grécia. No Brasil, PSTU e PSOL já declaram apoio ao Syriza, o PCB declara apoiar o KKE (Partido Comunista Grego); a Troika (FMI, Banco Mundial e União Europeia) faz chantagem ameaçando suspender os empréstimos aos gregos até que a eleição passe, grande parte da esquerda europeia vê no Syriza uma chance de romper com a hegemonia das políticas de austeridade. Em momento de debate tão forte, de tantas expectativas, a realidade é encoberta por medos, esperanças e ilusões. É necessário analisar se a "Esquerda Radical" é tão radical assim mesmo. 

Antes de tudo, é importante falar um pouco da estrutura interna do Syriza: é um partido não centralizado, com várias correntes internas, alguns mais radicais (comunistas até) outras bem social-democratas. Quase uma incubadora de grupos diferentes com várias divergências entre si (parecido com o PSOL e PT que se organizam enquanto tendências internas). O Syriza tem forte presença da ideologia anticomunista em várias de suas correntes. Não são poucos os que repetem os absurdos da Guerra Fria sobre milhões de mortos, totalitarismo, impossibilidade do socialismo, fim da história etc. 

Mas o importante é observarmos o que o Partido defende. Seu líder, o carismático Alexis Tsipras, lançou um texto dia 22 desse mês [1], praticamente sua declaração pré-eleição, onde pode-se ler "Mas o povo grego, como os europeus, não terão o que temer. Porque o Syriza não deseja derrubar o euro, mas salvá-lo. E será impossível que seus estados-membros salvem o euro enquanto a dívida pública estiver fora do controle". O jornalista Achille Lollo destaca as várias declarações do líder do Syriza para acalmar o mercado (ou seja: a burguesia mundial):

“O governo liderado pelo Syriza respeitará todas as obrigações que a Grécia assumiu, enquanto membro efetivo da Eurozona, visando alcançar o equilíbrio orçamentário e procurando atingir os objetivos fixados no âmbito da União Europeia”

E: 

"o futuro governo chefiado pelo Syriza vai manter todos os compromissos que a Grécia assumiu anteriormente com a União Europeia em matéria orçamentária e para eliminar o déficit. Ao mesmo tempo, pretendemos introduzir na Grécia um novo contrato social para fechar o ciclo da austeridade e, consequentemente, alcançar a estabilidade política e a segurança econômica” [2]

O jovem Tsipras também já avisou que um governo do Syriza não tem interesse em sair da OTAN. Em resumo: a "Esquerda Radical" não pretende decretar a moratória da dívida pública (175% do PIB em 2014), mas apenas fazer uma auditória e não pagar as partes ilícitas e respeitar todos os contratos. Não sair da União Europeia (UE) tem um significado muito claro: a UE mantém mecanismos de controle macroeconômicos que impedem um país de dirigir soberanamente sua economia. A UE controla centralmente o câmbio, a política de juros, o nível de endividamento público, a política de exportação/importação, circulação da "mão de obra" e indiretamente a política agrária e industrial. Em resumo: dentro da UE, que segue uma política de austeridade, é impossível sair do ciclo de austeridade, mas, apenas atenuar seus efeitos e reduzir seu nível. 

Se o Syriza não quer sair da UE, não pretende decretar a moratória da dívida (ou seja, não pagar a dívida pública) e pretende respeitar os contratos, por que FMI, UE, Alemanha, Banco Mundial e todos os monopólios de mídia pintam o partido com um radicalidade que ele não tem? A resposta é simples: praticamente todos os governos da UE seguem rigidamente as políticas de austeridade que visam acabar de vez com qualquer resquício do Estado de bem-estar social e subdesenvolver a Europa; ter como governo um partido que questiona esses ditames, ainda que em linhas fracas, poderia ser uma ameaça muito grande à burguesia europeia. Depois da crise dos partidos comunistas, os partidos social-democratas foram cada vez mais à direita. Entrava um governo conservador que ataca o povo de diversas maneiras, o povo votava no social-democrata querendo mudanças e o social-democrata fazia o mesmo ou pior que os conservadores e liberais. Esse esquema criou uma desesperança com a política, com o futuro, e a ideia do "não existe alternativa" entrou fundo na consciência do europeu. Um simples governo reformista, que questione minimamente, pode romper com esse esquema "perfeito". 


Mas esse medo da direita justifica a esquerda mundial apoiar o Syriza? O Partido Comunista Grego, o KKE, acha que não. Para os comunistas - que tem muito mais inserção na classe trabalhadora que o Syriza - não sair da UE significa não ter capacidade de tocar uma política econômica soberana, livre do poder dos monopólios e não resolver os problemas essenciais do povo. O KKE recusa entrar em coalizão com o Syriza no governo porque analisa que por não sair da UE a "Esquerda Radical" não vai conseguir cumprir suas principais promessas e isso vai desmoralizá-lo frente ao povo e se os comunistas estiverem nesse governo, os únicos a defender a saída da UE serão os fascistas do Aurora Dourada - esses sem argumentos racionais, com base no racismo e preconceitos xenofóbicos. O KKE propõe o não pagamento da dívida, a estatização dos meios de produção, a criação de cooperativas agrícolas, a planificação da economia e a criação de um plano nacional de desenvolvimento orientado pelo socialismo. 

Portanto, já temos claro: a "Esquerda Radical" de radical não tem nada, sabemos os motivos do medo da burguesia e seus representantes e por que forças de esquerda vêem o Syriza com tanta esperança. Contudo, ilusões não podem ser perdoadas com base na esperança. O líder do Syriza percebe tanto que seu programa é inviável (combater a austeridade permanecendo na UE) que fala constantemente de um movimento europeu pela auditoria da dívida, movimento que na prática não existe e nem se coloca no horizonte de existir.

[1] - http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2FGrecia-as-portas-de-uma-mudanca-historica%2F6%2F32702
[2] - http://correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10446%3Asubmanchete230115&catid=72%3Aimagens-rolantes

5 comentários:

  1. Tendo a ter acordo com sua leitura sobre as eleições gregas. Acho que o Syriza é mais um desses partidos da ordem disfarçados de esquerda. No entanto eu não achei o apoio do partidos brasileiros citados. Era bom ter uma fonte.

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  2. A nota de apoio do PCB ao KKE: http://www.pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=8122:solidariedade-do-pcb-ao-kke&catid=25:notas-politicas-do-pcb

    Nota de apoio da LIT-Qi, correnta internacional do qual faz parte o PSTU, apoiando o Syriza: http://www.litci.org/pt/index.php?option=com_content&view=article&id=4213&Itemid=61

    Nota do PSOL apoiando o Syriza: http://www.psol50.org.br/site/noticias/3119/psol-vai-a-grecia-em-apoio-ao-syriza-favorito-na-disputa-do-dia-25

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  3. Desculpe não ter postado no texto,Cléo. Achei que não seria necessário. Que era informação bem disseminada.

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  4. Claríssimo, só não enxerga quem não quer. Parabéns!

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  5. Muito bom camarada, análise bem sintética e concreta...

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