sábado, 7 de fevereiro de 2015

Imperialismo e guerra ideológica: Hollywood contra a Coréia do Norte.




Qualquer observador minimamente atento percebe que nos últimos três ou quatro anos as notícias sobre a Coréia do Norte (o nome verdadeiro do país é República Democrática Popular da Coréia) aumentaram de forma significativa na mídia nacional e internacional. Não é necessária muita atenção para constatar que a quase totalidade das notícias são negativas. O país é mostrado de forma grotesca, bizarra, exótica, surreal etc. (do mesmo jeito que a propaganda imperialista do século XIX mostrava o continente africano). Hollywood é a arma de difamação muito eficiente, a Coréia tornou-se a vilã número um em seus filmes. É importante entender os motivos disso.

Antes de tudo, é fundamental ter claro que a indústria de Hollywood não é formada por empreendimentos privados, autônomos, só preocupados com o lucro. A indústria cinematográfica dos EUA sempre esteve atrelada aos interesses políticos e geopolíticos do Estado norte-americano. Basta um cotejamento rápido entre determinada conjuntura histórica (enfrentamento com os soviéticos, por exemplo) e as produções cinematográficas para perceber isso. O cinema é uma arma na luta pela hegemonia política e geopolítica. Na reorganização da Europa ao fim da Segunda Guerra o cinema teve papel fundamental na propagação do "estilo de vida americano" (na montagem do fordismo/Estado de Bem-estar social) e, não é preciso nem dizer, na legitimação da várias invasões militares cometidas pelos EUA no século XX e na demonização dos seus inimigos (os inimigos normalmente são países socialistas, governos progressistas, partidos de esquerda, etc.).

Depois da derrubada da U.R.S.S esperava-se que a Coréia do Norte (e Cuba) não resistiria. A crise econômica foi grave, o país ficou isolado, perdeu seu mais importante parceiro comercial, sofreu com uma crise de fome (só 16% do território da Coréia é agricultável) e os ataques do imperialismo foram violentamente intensificados. Para a tristeza dos reacionários, a Coréia manteve-se de pé. A crise econômica, no essencial, foi superada e o país recuperou sua força de outra hora. A partir daí, Hollywood começa a atacar sistematicamente o país - enquanto instrumento da estratégia geopolítica dos EUA (difamação mundial, sanções econômicas, pressões diplomáticas, ameaças militares, etc.).

007 - Um novo dia para morrer, de 2002, foi o primeiro grande filme dessa operação. Nela o agente secreto é prisioneiro dos norte-coreanos, sofre tortura, ameaças, etc. Depois o outro grande filme é Salt, de 2010, com Agelina Jolie, onde ela é tortura por norte-coreanos acusada de ser espiã dos EUA (esse foco em tortura acontece por causa das denúncias da existência de supostos "presos políticos" no país). G.I. Joe: Retaliação mostra o presidente dos EUA falando que bombardearia a Coréia 15 vezes; o filme A Invasão à Casa Branca mostra um cidadão da Coréia do Norte invadindo a sede presidencial, fazendo o presidente refém e ameaçando detonar uma bomba nuclear; Amanhecer Violento mostra o Exército norte-coreano invadindo os EUA e um grupo de jovens guerrilheiros yankees libertando o seu país (a ideia clara é afirma que a Coréia não é um país com uma postura defensiva, mas sim ofensiva); e por último temos o famoso A Entrevista. Todos sabemos a celeuma que esse filme gerou.


Os filmes que descrevi acima são apenas os mais famosos, de maior orçamento. Mas levando em conta os filmes de orçamento médio e baixo, o número de produções contra a Coréia é assustador. Contudo, alguém sempre levanta a questão que isso acontece porque o país é ditatorial, autoritário, etc. Fazendo uma suposição, considerando que todas as acusações sobre a Coréia sejam verdadeiras, por que motivos não são abordados outras ditaduras muito piores como a Arábia Saudita (onde a mulher é um ser subumano), Myanmar (mais de dez mil pessoas da oposição exterminadas nos últimos cinco anos) e Colômbia (mais de cinco mil sindicalistas e militantes assassinados nos últimos dez anos - em números oficiais)? E isso para ficar apenas em três exemplos. Mesmo que todas as acusações contra a Coréia fossem verdadeiras - e não são -, o foco na difamação do país tem uma clara funcionalidade política na estratégia ideológica do imperialismo estadunidense.

2 comentários:

  1. Outro filme utilizado para legitimar invasões é o Rambo, no contexto do Vietnã, é muito claro como os filmes tem uma função ideológica muito forte. Tal como filmes do faroeste, aonde os índios é que são os vilões e os cowboys são os mocinhos...

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  2. Quanto ao cinema como ferramenta de propaganda para difamar a Coréia Do Norte, em parte sim, muitas produções americanas tomam pra si esse objetivo. Creio que a Coréia do Norte em parte não é essa coisa toda que a mídia nos faz crer, ainda mais a americana. É controversa essa questão de a Coréia Do Norte praticar ou não abusos contra os direitos humanos, contras as liberdades civis etc, o país é fechado, não dá pra saber de fato o que acontece e o que não acontece,e sem dúvida, a mídia detêm de um papel significativo em mostrar o que é ou que não é. A mídia é foda. E ela consegue muito bem mostrar algo que não é do jeito que realmente é, seja por motivos políticos, econômicos, geopolíticos.



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