quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O autogolpe de Dilma

Esses debates sobre golpe e impeachment estão sendo usados por vários setores governistas para mostrar o governo como vítima de um ataque feroz de uma direita neoliberal satânica que quer destruir o "governo popular". O estelionato eleitoral de Dilma, o seu ministério ultraconservador, o corte nos gastos sociais, o aumento do juro, da gasolina, da energia elétrica, a contrarreforma nos direitos trabalhistas, a militarização das favelas, as remoções causadas pelos megaeventos e mais uma série de mazelas ficam na sombra, e um discurso histérico, amedrontado e vitimista passa a dominar e quem não apoia Dilma contra o "golpe" está fazendo o jogo da direita - mesma coisa que no segundo turno das eleições.

No presidencialismo há divisão das funções do poder (erroneamente chamado de divisão dos poderes). Todo mundo sabe que o Executivo não governa sozinho, mas é natural o Executivo encarnar todos os problemas e "soluções" da nação. São mais de 500 deputados e vários senadores escolhidos por votos difusos, sem uma identificação maior com o conjunto da população. Ninguém briga por seu candidato a deputado, mas quase todo mundo briga por seu candidato a presidente. Quando Dilma não dialoga com a nação, não explica os problemas e desafios, não esclarece a relação do Congresso com o Executivo, não vem a público falar o que quer fazer e porquê não tá conseguindo, é lógico que o conjunto da população - majoritariamente orientada pelos monopólios de mídia - vai colocar a culpa de todos os problemas do país nas costas da presidente (Marx, em o 18 Brumário de Luis Bonaparte, já tratava dessa questão no presidencialismo).

O otimismo e a euforia que existia nos governos Lula já acabou; uma forte sensação de inércia e de que as coisas estão piorando é inculcada na cabeça da população (se é verdade ou não, não é questão central) e nessa conjuntura a presidenta prepara uma contrarreforma social de proporções amplas e ataca de forma vil e cretina os movimentos sociais e vários comunistas - não custa lembrar que o Governo Federal apoia as prisões políticas no Rio de Janeiro e Porto Alegre. Oras, nessa conjuntura, perdendo apoio social, cada vez mais fraca institucionalmente e com uma guinada à extrema-direita (principalmente em termos de política econômica e relação com os movimentos sociais), Dilma está se dando um autogolpe. Em resumo: o Governo Federal do PT resolve adotar uma contrarreforma social e uma política econômica de extrema direita neoliberal, se enfraqueces socialmente com isso, institucionalmente os outros partidos burgueses aproveitam para especular com um impeachment do PT, e os governistas ao invés de questionarem essa perda de apoio social por causa da estratégia do governo, passam para uma defesa acrítica do governo contra o "golpismo" (um governo com apoio social dificilmente cai institucionalmente, prova disso foi o Governo Lula continuar em 2005).

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