quinta-feira, 26 de março de 2015

A criação de uma mitologia histórica: o movimento comunista e a questão das minorias



 Era uma vez, no final dos anos 60, várias camadas médias da Europa Ocidental e EUA, principalmente jovens universitários, que estavam angustiados com a crescente perspectiva de proletarização, desemprego e redução do seu padrão de vida. Esses jovens, influenciados por uma crítica cultural baseado nas idéias de Herbert Marcuse, passaram a questionar as hierarquias, a moral sexual, a família e principalmente a lógica de consumo vigente. Dessa base social e ideológica nasceram os chamados Novos Movimentos Sociais e a New Left (Nova Esquerda). A New Left recusava a centralidade de pautas tidas como economicistas – maiores salários, empregos, melhores serviços públicos, etc. – e o protagonismo do proletariado enquanto sujeito político da transformação revolucionária. Descentrada, a Nova Esquerda diz representar vários sujeitos: negros, LGBTs, mulheres, imigrantes, a natureza etc. A ecologia virou a causa da moda. Como tudo que é novo, a Nova Esquerda precisava legitimar sua existência atacando o “velho”. O discurso central desse ataque era bem simples: a velha esquerda (o movimento comunista) não deu a devida atenção para a causa das minorias, sempre menosprezou mulheres, negros e homossexuais e é autoritária, burocrática etc. 

Nos anos 80 tínhamos uma interessante convergência de pensamento: a extrema-direita anti-comunista e a Nova Esquerda nutriam praticamente as mesmas críticas ao movimento comunista e às experiências socialistas. Totalitarismo, gulag, burocratização, falta de liberdade de expressão eram palavras fáceis na boca de ambos. Com a derrubada da URSS, a crise do movimento comunista e o brutal refluxo do movimento operário, essa tendência da Nova Esquerda reinou dominante. Enquanto vários partidos comunistas deixavam de existir, os Partidos Verdes cresciam de forma vigorosa. Se nos anos 50 praticamente ninguém discordaria da afirmação de que o movimento comunista foi fundamental na universalização dos direitos políticos das mulheres e na conquista da igualdade formal, no combate ao racismo e ao colonialismo, nos anos 90 (e atualmente) a maioria das pessoas acha essa afirmação um absurdo. 

Contudo, essa mitologia política tem uma pequena base de verdade. O movimento comunista ignorou as demandas LGBTs e vários Estados socialistas foram repressivos com LGBTs. A lenda criada pela Nova Esquerda tem apenas esse fundo de verdade, mas a partir daí ela cria toda uma mitologia estendo-a para todas as minorias. O fato é que esse apagamento da memória histórica, essa falsificação grosseria operada pela esquerda dominante, precisa ser combatida urgentemente. O domínio do pensamento pós-moderno nas universidades incorporou esse discurso e tornou-o quase que dogma sagrado. Nas universidades quem pesquisa gênero ou racismo, via de regra, tem que jurar seu ódio visceral ao marxismo para ser bem aceito pela banca de “pensadores” pós-modernos. 

No início desse século vemos uma tímida e ainda lenta recuperação do movimento comunista. Com a falência programática da Nova Esquerda – a maioria dos partidos verdes adotaram um programa econômico neoliberal, por exemplo – e a aceleração brutal da degradação das condições de vida da classe trabalhadora no mundo, vários partidos comunistas voltam a ser fortalecer ou reaparecerem. Combater essa mitologia política, mostrar o papel histórico fundamental do movimento comunista na luta das mulheres, negros, minorias nacionais, etc. é fundamental nesse processo. É por isso que a obra de Domenico Losurdo (marxista italiano) é tão indispensável, fantástica e atual. Losurdo faz melhor resgate da memória histórica do movimento comunista no século XX e dota qualquer comunista de subsídios históricos e teóricos para destruir essa mitologia política conservadora sobre a relação dos comunistas que as minorias no século XX. 

Site em português do Losurdo: http://domenicolosurdoinfobrasil.blogspot.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI SUA OPINIÃO!
responderei.