sexta-feira, 8 de maio de 2015

70 anos da derrota do nazifascismo: o papel esquecido da União Soviética e os sentidos da Segunda Guerra.




70 anos atrás a humanidade era liberta de uma das maiores ameaças de sua história: uma radicalização planetária da política racista e imperialista vigente na África e na Ásia. O nazismo era um projeto imperialista que desejava radicalizar a divisão do mundo entre humanos e subumanos (as raças inferiores) e fazer dos segundos os escravos econômicos eternos dos primeiros (como França, Inglaterra, Bélgica, EUA e Holanda já faziam no “Terceiro Mundo”). A grande novidade do nazismo é que essa política agora seria aplicada na própria Europa e que os brancos também seriam tomados como “raças inferiores”. Tudo isso, é claro, organicamente apoiado pelo grande capital alemão e estadunidense, afinal, o nazismo teve outra missão fundamental: conter a expansão do comunismo na Alemanha e na Europa.

Se o nazismo simbolizava a radicalização de uma longa tradição Ocidental-imperialista racista e colonialista, a União Soviética representa o contrário. A Revolução Russa teve um caráter anti-colonial e anti-racismo e o desenvolvimento da transição socialista na URSS, malgrado todos seus limites, trouxe um elemento fundamental: o apoio sistêmico e indispensável no combate ao colonialismo, racismo e apartheid no mundo e o desenvolvimento de relações étnico-raciais não opressivas na própria URSS. A União Soviética foi o primeiro país do mundo a criminalizar o racismo, criar um sistema político com direitos universais (independente de raça, gênero, nacionalidade, nível de renda etc.), garantir uma política democrática para as minorias nacionais, promover uma ampla política cultural e educacional de combate ao racismo (que perpassava desde a produção da arte até o sistema educacional) e estimular de várias formas possíveis a libertação dos povos coloniais. Sintetizando a política soviética de igualdade étnico-racial:

A União Soviética foi o primeiro império mundial fundado sobre a affirmative action. O novo governo revolucionário da Rússia foi o primeiro entre os velhos Estados europeus multiétnicos a enfrentar a onda crescente do nacionalismo a responder promovendo sistematicamente a consciência nacional das minorias étnicas e estabelecendo para elas muitas das formas institucionais características do Estado-nação. A estratégia bolchevique foi assumir a liderança daquele processo de descolonização que se apresentava como inevitável e levá-lo a cabo de modo tal que preservasse a integridade territorial do velho império russo. Para tal fim o Estado soviético criou não só uma dúzia de repúblicas de amplas dimensões, mas também dezenas de milhares de territórios nacionais espalhados por toda a extensão da União Soviética. Novas elites nacionais eram educadas e promovidas a posição de lideranças no governo, nas escolas, nas empresas industrias desses territórios recém-formados. Em muitos casos isso tornou necessário a criação de uma língua escrita lá onde antes não existia. O Estado soviético financiava a produção em massa nas línguas não russas de livros, jornais, diários, filmes, óperas, museus, orquestras de música popular e outros produtos culturais. Nada comparável existiria antes (Martin apud Losurdo, 2008, p. 171).

Quando a Alemanha Nazista invadiu a URSS, o mundo não tinha dúvidas do que significava esse confronto: era a batalha entre o império do capital monopolista racista e colonialista contra a pátria da Revolução de Outubro que defendia a emancipação dos povos coloniais e o fim do domínio despótico do capital sobre o mundo.

Nos discursos oficiais ao Exército Vermelho, Stalin deixa bem claro o sentido da Grande Guerra Patriótica:

Seria ridículo identificar a camarilha hitlerista com o povo alemão, com o Estado Alemão. As experiências da história demonstram que os Hitler vão e vêm, mas que o povo alemão, o Estado Alemão permanece. A força do Exército Vermelho reside no fato de que ele não nutre nem pode nutrir nenhum ódio contra os outros povos e, portanto, nem sequer contra o povo alemão; ele é educado no espírito da igualdade de todos os povos e de todas as raças, no espírito do respeito e dos direitos dos outros povos (Stalin apud Losurdo, 2008, p. 40).

Depois do fim da Segunda Guerra, outra grande guerra teve início: a Guerra Fria. Essa provocou uma sistêmica política de esquecimento do que foi e do que representou a Segunda Guerra e a derrota do nazifascismo – como afirmei em outro texto: o nazismo é um dos fenômenos históricos mais estudados e desconhecidos da atualidade. A ideologia dominante conseguiu equiparar pólos antagônicos e através do ápice do cretinismo sociológico, a categoria de totalitarismo, passou a equiparar os sistemas políticos, econômicos e ideológicos da União Soviética, Alemanha Nazista e Itália Fascista [1].

Até quem, do ponto de vista militar, derrotou o nazifascismo, a ideologia dominante procura esconder. Principalmente através da gigante indústria cinematográfica estadunidense, a ideologia dominante procura mostrar os EUA como o principal responsável pela derrota da camarilha hitleriana. Uma pesquisa feita na França ao final da Segunda Guerra mostra que 57% dos franceses consideravam a URSS a principal responsável pela derrota do nazifascismo. Em 2015, a mesma pesquisa é feita, e só 23% das pessoas consideram a URSS como a principal responsável pela vitória na Segunda Guerra, ao passo que 54% das pessoas atribuem esse papel aos EUA [2]. O mítico dia D, que não passou de uma operação de penetração das forças capitalistas na frente ocidental para impedir o avanço dos soviéticos, é mostrado como a batalha que decidiu a Segunda Guerra numa tentativa grotesca de esconder o que foi a batalha de Stalingrado.

Para concluir, podemos dizer que nesses 70 anos da vitória sobre o nazifascismo, a tarefa fundamental dos comunistas é combater a ideologia dominante. Resgatar o sentido histórico do que foi a Segunda Guerra Mundial e preservar a memória de nossas épicas lutas de emancipação no século XX [3]. Combater a ideologia dominante que mostra a história do comunismo como uma série interminável de crimes de lesa-humanidade produzindo concomitantemente uma história idealizada e idílica do capitalismo liberal é tarefa fundamental. Os comunistas não devem ter vergonha de sua história. Devem gritar em alto e bom som que em Stalingrado a roda da história parou, e através do sangue de milhões de marxistas-leninistas, ela voltou a girar dando as costas para a barbárie absoluta.


Notas

[1] – Uma crítica demolidora da categoria de totalitarismo: http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo100critica17-A-losurdo.pdf
[3] – Um texto importante sobre a URSS e a Segunda Guerra: http://diplo.org.br/2005-05,a1112

Livro citado


Domenico Losurdo. Stalin: uma história crítica de uma lenda negra. Editora Revan.  2010.

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