sábado, 23 de maio de 2015

Um bancário brasileiro na Tchecoslováquia: relato de viagem


O texto que reproduzo abaixo é um relato histórico do bancário de Pernambuco Asdrubral A. de Assis que representando o sindicato dos bancários de Pernambuco, em 1962, viajou à Tchecoslováquia e produziu um amplo relatório histórico de sua viagem que abarca aspectos do cotidiano, ideologia nacional, organização dos sindicatos, relações de produção, vida cultural, etc. O relato da viagem foi publicado no Jornal dos Bancários, órgão sindical de imprensa à época. Optamos por publicar o documento sendo fiel a linguagem da época, com todas as peculiaridades do português (o realizador desse blog teve acesso ao documento pelo fato de está trabalhando no arquivo do Sindicato dos Bancários de Pernambuco)


IMPRESSÕES DE PRAGA - ASDRUBAL A. DE ASSIS

Deixei Moscou coberta de novo com os caminhões da municipalidade se revezando no trabalho de manter as ruas desobstruídas. Depois de experimentar os rigores do inverno moscovita, Praga, embora bastante fria, com uma temperatura abixo de zero, pareceu-me um paraíso. A cidade estava sêca, sem neve acumulada nas ruas, embora com vestígios nos gramados, ou melhor; no que antes tinha sido gramados.

Fui hóspede das organizações sindicais tchecas (ROH), que possuem um hotel para sindicalistas visitantes numa rua central de Praga. As refeições se fazia em restaurantes da cidade, pois o do hotel da ROH estava sendo submetido a reformas. Achei Praga encantadora. Cidade de um milhão de habitantes, com belos edifícios e magníficas lojas, teatros, monumentos e castelos medievais. Servida por bondes e ônibus, pois seu número de habitantes não justificava a construção de umMetropolitano.

Andei muito a pé no centro de praga; mais mesmo do que em Moscou, em virtude das condições de tempo mais favoráveis. Observei as ruas cheias de gente, as lojas repletas de compradores e muito bom gôsto nos artigos expostos nas vitrines. Entrei em lojas de bijuterias (ramo em que a indústria
 tcheca não tem competidores) , de artigos para ceia de Natal e Ano Novo, de chocolates e bombons, e num belíssimo supermercado no estilo dos que conheci nos EE.UU. em tôdas
partes, gente fazendo compras. Nas ruas, transuentes sobraçando pinheirinhos como os ramos baixados, como armação de guarda-chava, e enrolados com cardão, para  a tradicional decoração de fim ano.

Em Praga eu já não tinha compromissos de espécie alguma, de modo que os contactos com bancários e sindicalistas foram arranjados a pedido meu. Consequentemente, pude utilizar a maior parte do tempo em passeios pela cidade e arredores. Entratanto, como manifestasse desejo de conhecer um
banco, fui levado ao Stanil Banka Ceskoslevenska, estabelecimento com a qual o Bando do Brasil mantém estreita relações comerciais. Percorri todo o prédio, inclusive o restaurante do funcionalismo e até mesmo a cozinha. Demorei-me no setôr de câmbio, cumprimentando os colegas bancários, alguns dosquais assinam a correspondência para o exterior e cujos autógrafos nos são familiares.

Justamente com dois cubanos visitei ainda uma fábrica de chocolates próximas à cidade. A maioria do operariado é do sexo feminismo. A indústria ocupa vários pavimentos de um edifício e 80% do cacau consumido provém do Brasil. Em tôdas as seções, muitas organização e eficiência no serviço. Os trabalhadores de semblante alegre e ótima aparência física. Numa seção de embalagem, com predominância de mocinhas, nosso grupo foi saudado com sorrisos e algazarra própria de
colegiais quando na escola aparecem visitas. Nas várias seções os operários nos assediavam com livros de impressões para deixarmos consignadas nossa opinião e nossas críticas. A visita, que se iniciara no escritório do diretor, em volta de uma mesa com chocolates, café, cigarros e água mineral, seguidos de uma sabatina com o diretor e seux auxiliares diretos, inclusive os chefes de comissões sindicais da fábrica. Nessa ocasião formulámos perguntar relativas às condições de vida dos trabalhadores, relações com a emprêsa, organização sindical nos locais de trabalhos, etc.

Quanto aos divertimentos, Praga é uma cidade incomparavelmente mais alegre do que Moscou, oferecendo espetáculos mais ao nosso gôsto e com mulheres elegantes, exibindo belos penteados. No Alhamabra vi a revista BUKOLA incluindo número de coristas, se bem que não tão ousadas como os
dos países capitalistas. Boa orquestra, boa música, bons artistas, e ambiente agradável. Comida ótima e vinho excelente qualidade. Entre outras coisas, o programa da noite incluia números de canções francesas, italianas, americanas, russas e, naturalmente, tchecas.

A cidade não apresenta mais sinais de ocupação nazista nem ruínas da guerra. Entretando, como os cubanos que visitaram comigo a fábrica de chocolates Orion desejassem visitar um campo de concentração nazista, fômos num automóvel Tatra, de fabricação tcheca, à vizinha cidade de Teresien, onde se acha uma velha fortaleza do século XVIII, utilizada pelos alemães para encerrar os judeus vindo de várias partes da Europa em trânsito para os campos de extérminio da Polônia. Vimos as masmorras onde centenas de seres humanos se comprimia bem espaço que mal dava para algumas dezenas. Vimos ainda cubículos sem ar, sem luz e sem calefação onde os infelizes eram encerrados antes de seguir para as câmaras de gás. A palavra calefação só tem sentido para quem conhece o inverno europeu, como acontecia naquele instante conosco, que tiritávamos debaixo de pesados sobretudos e gôrros de pele. Embora um espetáculo triste, o campo é mantido para que as gerações atuais não esqueçam a barbárei nazista.

A barreira linguística separa os homens e impede que eles se conheçam melhor. Na Europa, entretanto, é comum se encontrar indivíduos que falam um ou mais idioma estrangeiro. Nem sempre, porém, coincidindo com aquêle que nós falamos... Em Praga o companheiro que esteve comigo mais
amiude e foi de uma amabilidade cativante - Jan Wohryzek - falava tcheco, alemão, húngaro e francês. Não me restava outra alternativa senão optar pelo francês, língua em que passei a me comunicar quase todo o tempo, com exceção de contactos mantidos em inglês com funcionários  do Statni Banka Ceskoslevenska e das conversas com o companheiro Michal Sorokac, do Consêlho dos Sindicatos da Tchecoslováquia. Em francês, ainda, foi que concedi uma entrevista a um jornal sindical tcheco, graças à boa vontade do companheiro Wohryzek, que me serviu de interprete. Espero receber um recorte do jornal, acompanhando de uma tradução para o francês da entrevista.

Minha bagagem não foi aberta nem na URSS nem na Tchecoslováquia. Quando apresentei meu passaporte ao funcionário da Alfândega, no aeroporto de Praga, êle me disse em espanhol: "Um nome histórico!" A observação pareceu-mecuriosa porque é uma particularidade desconhecida de muita
gente que se diz estudiosa... Depois dessa observações e de me desejar felicidades, o guarda alfandegário carimbou minha bagagem - valise e saco de viagem e - me liberou para a Tchecoslováquia. No Rio, ao contrário, aguardavam-me as aguras de abertura de babagem, das perguntas, do revolver de malas e da dessarumação de roupas.

Existe grande interêsse no intercâmbio de sindicalistas. Como contribuição à unidade dos trabalhadores e à melhor compreensão entre os povos. Os tchecos manifestam o desejo de ver um maior número de brasileiros em visita ao seu país e de receberm convites para conhecer o Brasil. Disse-me o companheiro Wohryzek que organizassemos um grupo de vinte bancários e fôssemos passar umas férias na Tchecoslováquia para conhecer todo o país. As despesas lá seriam mínimas, pois seríamos hóspedes dos sindicatos locais e de seus centros de repouso espalhados pelo país. A propósito de visitas à Tchecoslováquia, disse-nos o companheiro Sorokac que visitando o Canadá que ouviu de sindialistas canadenses que na Tchecoslováquia cada cidadão tinha atrás de si um soldado
soviético armado de fuzil e baioneta. Sorokac convidou-os a visitar a Tchecoslováquia. No ano seguinte, ao chegarem os canadenses, disse-lhes: "percorram o país e julguem por vocês mesmo". É excusado dizer que os canadenses visitaram a Tchecoslováquia tôda e não viram baionetas em parte algumaonde estiveram.

Os automóveis tchecos são bem conhecidos no Brasil. Pelomenos o modelo Skoda. O Tatra é um modêlo novo para seis passageiros, com motor atrás, do tipo refrigerado a ar. O motorista que nos levou a Teresien me mostrou a máquina do carro e como eu lhe dissesse que ela se assemelha a do
Volkswagen, respondeu-me que os alemães tiham se apoderado dos planos do Tatra e tinha desenhado o motor do Volkswagen copiando o projto tcheco. Pelo menos foi o que compreendi da explicação dado pelo motorista, numa mistura de alemão, russo e tcheco.


Pelo que pude observar na Tchecoslováquia e pelo que Ouvi de brasileiros que chegaram a Moscou depois de um visita à República Democrática Alemã, onde participaram de Um congresso de gráficos na cidade de Leipzig, as repúblicas democráticas do leste europeu atingiram um elevadograu de desenvolvimento econômico, usufruindo mesmo de luxos a que o povo soviético ainda não se permite. Acontece que a URSS, terminada a guerra, teve que sarar suas feridas com seus próprios meios, ao mesmo tempo que desviara recursos de sua reconstrução para o desenvolvimento dos países do recém criado campo socialista. Além do desvio de recursos para a reconstrução de outros países, em detrimento de sua própria reconstrução, ainda é a URSS que arca com o grosso das despesas de defesa do campo socialista. Assinado um acôrdo de desarmamento universal e completo, êsse orçamento militar seria totalmente aplicado no programa de metas que poderia assim ser cumprido em menos da metade do tempo previsto. Mas, voltando ao assunto, o fato é que a Tchecoslováquia é um país altamente desenvolvido, de elevado padrão de vida que considera já encerrada a etapa da construção do Socialismo e se lança a novas conquistas, consubstanciadas no programa recentemente aprovado pêlo seu govêrno.

Trago recordações muito agradáveis da Tchevolosváquia e da sua gente. Todos me dispensaram a mais calorosa acolhida, mas foi o companheiro Wohryerk que me deixou verdadeiramente cativo de hospitalidade acheca. Com êle fiz uma camaradagem e recebi inúmeras provas de amizade desinteressada. No aeroporto, na noite de minha partida, êle ainda se preocupava com minha viagem do Rio para o Recife, se eu encontraria avião imediatamente como desejava, e não se desculpava por não termos pensado como anntecedência em obter em Praga uma reserva Rio/Recife que me assegurasse a chegada e sua casa para as festas de Natal.

O mundo está pequeno mesmo. As distancias encurtaram e hoje é possível os homens se conhecerem melhor e se estimarem mais. Espero que os encontros de trabalhadores e todo o mundo se amiudem, os laços de fraternidade se estreitem, e pessaos também recepcionar companheiros trabalhadores tchecos e lhe demonstrar a tradicional hospitalidade brasileira. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI SUA OPINIÃO!
responderei.