segunda-feira, 6 de julho de 2015

Carlos Moore, o homem que não conhece os Panteras Negras e ama Barack Obama


A obra de Carlos Moore é bastante polêmica. Uma das principais referências teóricas do movimento negro brasileiro, figura aparentemente de esquerda, mas que vem sendo citado com muita frequência por reacionários (como seguidores de Olavo de Carvalho) devido à sua fobia ao marxismo. Moore é inimigo declarado do marxismo. Critica não só Marx e Engels por um suposto racismo, como condena todo o marxismo e todo o movimento comunista como racista. Ao mesmo tempo, mostra uma atitude extremamente amistosa, quase de adoração, por Barack Obama.
                
Vários autores [1] (incluso o escritor dessas linhas [2]) já escreveram criticando a obra de Carlos Moore e refutando suas análises do marxismo. Não pretendo elaborar uma crítica de qualquer obra significativa do Moore. Tenho em mente um objetivo bem mais simples. Moore concedeu uma entrevista à Revista de História [3], onde “resume” sua concepção de racismo na história humana, a visão da relação entre marxismo e racismo e expõe sua orientação política. Esse último ponto que quero tratar. A entrevista na Revista de História coloca luz sobre o caráter reacionário do pensamento político de Carlos Moore. Mas antes de irmos ao que interessa, é mister traçar uma contextualização histórica.
              
  O século XX foi marcado por um intenso confronto político de proporções mundiais entre as forças burguesas e as forças proletárias, materializadas no movimento comunista. Embora tenhamos ganhado várias batalhas importantes (como a vitória no Vietnã e sobre os nazifascista), acabamos perdendo a guerra. O vencedor tem entre os seus despojos o direito de escrever a história, impor sua visão como hegemônica.
              
A versão hegemônica da história do século XX é que o movimento comunista não representou qualquer avanço emancipatório, reduzido há uma longa história criminal de atrocidades. A maior disputa é saber quem atribui um número mais fantástico de mortes ao comunismo. Mas não é só isso (como diriam os comerciais de TV). A versão hegemônica também criou a lenda de que o movimento comunista representou um reino de terror absoluto para as minorias (mulheres, pessoas negras, LGBTs, minorias nacionais etc.) [4]. Enfim, no reino idílico da democracia liberal e do livre mercado, o comunismo foi um erro do pensamento humano que provocou os maiores genocídios de todos e no fim mostrou, como bem diz a Dama de Ferro, que “não há alternativas”.
                 
Nessa situação legiões de intelectuais e organizações abandonaram o marxismo. Os que permaneceram, em grandes linhas, adotaram duas posturas: ou aceitaram a ideologia dominante e procuraram ocupá-la pela “esquerda” ou recusam a ideologia dominante, mas sem conseguir articular uma resposta com base social efetiva e ficaram isolados. A primeira postura foi à dominante e no Brasil o principal símbolo, entre as organizações, é o PT, e entre os intelectuais, a obra de Carlos Nelson Coutinho e na sua “democracia como valor universal”.
                
Depois dos anos 2000 a segunda postura vem transformando-se e conseguindo articular uma contra-hegemonia à ideologia dominante com base de massas efetiva. Prova disso é o renascimento em alguns lugares de Partidos Comunistas com peso de massa (penso especialmente no KKE da Grécia, PCV da Venezuela e PCM do México) e o sucesso de intelectuais como Domenico Losurdo (um dos italianos mais traduzidos no mundo). Contudo, a ocupação pela “esquerda” da ideologia dominante ainda tem a primazia. Para mostrar que não é totalitário, que é democrático, o socialista/comunista tem que deixar claro que repudia totalmente a história criminal do movimento comunista, as experiências de transição socialista, o marxismo, Marx e Engels, Che, Fidel, Prestes, Rosa, Lenin, Stalin, Lumumba, etc. Ele deve afirmar em bom som sua autofobia: a recusa absoluta de sua história [5].
               
As linhas acima são importantes porque só a partir dessa contextualização podemos entender como alguém claramente conservador consegue ser aceito como um sujeito de esquerda. As críticas de Moore são encaradas por muitos camaradas como as necessárias autocríticas que temos que fazer; seu ódio ao marxismo é visto como a leitura de alguém “não dogmático”. Mas passamos à entrevista.                             [Carlos Moore na foto ao lado]
                 
Moore compreende o racismo como o resultado do encontro de grupos fenotipicamente diferentes ocorrido 5 mil anos atrás: “Quando eles entraram em contato, há 5 mil anos. Foi aí que o fenótipo emergiu como linha divisória, separando os leucodermes dos melanodermes. Por causa de todas essas interações o racismo vai surgir. Não simplesmente porque os grupos se viram, mas porque esse grupo que invadiu era minoritário demograficamente, e conquistou zonas onde a maioria era de pele negra.” É lógico que não podemos esperar rigor científico apurado numa entrevista, mas a ideia geral explicitada mostra o conservadorismo teórico de Moore. Conservadorismo num sentido muito claro. Se o racismo é resultado principalmente do encontro de grupos com fenótipos diferenciados, e essa diferenciação fenotípica sempre existirá, a práxis política no combate ao racismo é descartada de forma bem sutil. Não posso demonstrar nesse texto, mas adianto que todo culturalismo é politicamente conservador, embora pareça numa leitura superficial teoricamente progressista (exemplo: as teorias do “homem cordial”, patrimonialismo, herança colonial etc.) [6]
                   
Quase na metade da entrevista surge a pergunta fatídica sobre a relação entre marxismo e racismo. Moore diz que Marx e Engels aplaudiram o imperialismo na África e Ásia e consideravam que a escravidão “ajudou os negros a saírem da barbárie e do primitivismo”. Não preciso deter-me muito em refutar isso. Recomendo, para quem não conhece, uma leitura atenta do capítulo “A Chamada Acumulação Primitiva” [7], do livro I Do Capital, obra máxima de Marx (com colaboração de Engels) e do marxismo para conhecer a verdadeira posição de Marx sobre a escravidão, o colonialismo, o racismo etc. No decorrer na entrevista, Moore mente descaradamente ao afirmar que “Marx e Engels diziam que se o socialismo ganhasse na Europa, as colônias continuariam a ser colônias, uma colonização socialista”. Evidentemente ele nunca citará de onde tirou isso (a afirmação é totalmente falsa).
              
A entrevistadora, talvez surpresa com o anti-marxismo do Moore, pergunta sobre os movimentos de libertação na África e a participação fundamental do movimento comunista. A resposta do entrevistado é surpreendente: “Todos esses movimentos, que mobilizaram os povos para ganhar o poder, quando ganharam, começaram a implementar políticas racistas. Todos, começando por Angola, onde os mulatos, os de pele clara, dominam. Em Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde... Houve uma visão racista, que está dentro do marxismo” (grifos nossos). Aqui podemos começar a perceber de forma clara o conservadorismo político do Moore. Senão vejamos.
                 
 O colonialismo foi o maior promotor na história humana do racismo e do apartheid. Toda derrota do colonialismo significa um enfraquecimento do racismo e um avanço na luta pela emancipação social da população negra. Moore nega qualquer elemento positivo nas lutas do povo africano contra o colonialismo com uma suposta criticidade aos limites do processo (“limites” exagerados). Esse “criticidade”, na verdade, é uma forma de negar os elementos emancipatórios presentes nessas lutas e conquistas (e uma forma de atacar o comunismo). O conservadorismo político do autor – e talvez suas posições pró-imperialistas – pode ficar óbvio com um exemplo. Imagine eu não considerar um avanço o fim da escravidão porque a população negra não teve todos os direitos políticos e civis que os demais brancos no pós-abolição? É isso que o Moore faz; no fundo, cabe até perguntar: será que ele acha que a situação estava melhor quando os países eram dominados de forma mais brutal e direta pelas potencias européias e EUA?
                
Por fim, chegamos à parte principal da entrevista. Já sabemos que Moore mente e falsifica a história de Marx e Engels (e do marxismo) para considerá-los os mais racistas do universo, também sabemos que ele trata com desdém os milhões de pessoas que derem sua vida para destruir o colonialismo na África. Mas o que Moore considera positivo? A biografia e a personalidade de Barack Obama:

“Por isso a história do Obama foi um choque cultural no imaginário racista mundial. Porque se trata de um negro bem-sucedido, que não utilizou seus antecedentes de intimidade com uma sociedade branca. Sua mãe era branca e casou com um africano. Mas sempre foi uma mulher muito consciente, com uma visão muito profunda sobre o racismo. Contrariamente à maioria das mulheres brancas que se casam com negros e têm uma visão racista, e cujos filhos não são levados a assumir a negritude. Ao contrário, cada vez mais se incorporam à sociedade branca. E como negros se tornam alienados, sem uma visão clara daquilo que está acontecendo com eles próprios. Obama feriu isso de forma profunda. Chegou e ganhou, entrou e lutou pela Presidência, com uma mulher inequivocamente negra ao lado dele. Com um discurso “não me chame de qualquer outra coisa senão negro, eu sou negro, fui sempre negro e sempre o serei”. Não permitiu que o confundissem.” (grifos nossos)
                 
Num olhar desatento podemos dizer que esse trecho não está de todo errado. Afinal, é muito comum nos movimentos de esquerda a defesa “representatividade” como um meio de combate às opressões. Contudo, algo mais é revelado nesse trecho. Moore mostra uma pseudo-criticidade extrema sobre o marxismo e os movimentos de libertação na África a ponto de desconsiderar qualquer elemento positivo neles, mas, quando fala de Obama essa “criticidade” desparece. Ele poderia comentar como o governo de Obama não fez nada de concreto para combater o racismo, como manteve intacto o sistema penal que hiper-encarcera a população negra e latina dos EUA (mais de 2, 4 milhões de presos) e toda violência policial presente nos guetos. Nada disso é questionado. Mas sempre pode piorar.
                 
Moore afirma categoricamente “Não vi movimento marxista em lugar nenhum no mundo inteiro, desde a época de Marx para cá, que não tivesse problema com a negritude. Dizem que ela é um subproduto da luta de classe. A partir desse momento você já tem uma visão racista” (grifos nossos). A afirmação de que os comunistas defendem que racismo é apenas um subproduto da luta de classe é falsa. Historicamente, o movimento comunista, desde os anos 30, majoritariamente superou essa visão (é lógico que algumas organizações e intelectuais continuam mantendo-a, mas são minorias) [8]. Contudo, a mais problemática afirmação é sobre nenhum movimento marxista que não ter tido problemas com a negritude. Poderíamos citar os movimentos liderados por Almicar Cabral, Samora Machel, Thomas Sankara, Juan de Almeida Bosque (líder negro da revolução cubana), Name Nkrumah etc. Mas tenho uma ideia melhor. Prefiro citar o Partido dos Panteras Negras.
               
Carlos Moore morou anos nos EUA. Como teórico deve ter acompanhado com atenção todos os movimentos de luta contra o racismo nesse país. Curiosamente, nenhuma das obras mais famosas de Moore é sobre o racismo nos EUA ou sobre os Panteras Negras. Quando ele diz que não conhece qualquer movimento marxista que não tenha tido problemas com a negritude, ele claramente “esquece” dos Panteras. Mas como um negro que morou anos nos EUA pode esquecer o Partido dos Panteras Negras? Como diz o filósofo João Quartim de Moraes “a memória é seletiva: não há omissões nem esquecimentos inocentes”. A ausência de atenção na entrevista (e na obra) de Moore sobre o racismo nos EUA (principal país capitalista do mundo e pólo irradiador das ideologias legitimantes do capitalista mundial), os Panteras, Malcolm X e outros é preenchida pelo ódio ao marxismo, à revolução cubana, a os movimentos de libertação na África e por aí vai.
              
Notem, o “nosso” teórico não diz de forma clara, mas a seletividade de sua memória é uma expressão evidente do seu conservadorismo político. A apologia à Obama contrasta com seu esquecido dos Panteras Negras, movimento político que a CIA considerou a maior ameaça ao capitalismo que os EUA teve internamente no século XX. Moore durante a entrevista cita Angela Davis, uma das principais líderes dos Panteras, mas não a organização. Acho que não precisamos insistir mais nisso. Moore é teoricamente conservador (com seu culturalismo que não engendra uma práxis política coletiva) e politicamente reacionário. E você, ainda acredita nele?

 [1] – http://blogconvergencia.org/?p=2655
[3] -http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/carlos-moore
[4] – Tratei da questão nesse texto: http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/03/a-criacao-de-uma-mitologia-historica-o.html
[5] – Autofobia é uma categoria criada por Domenico Losurdo e trabalhada no livro “Fuga da História? A revolução russa e chinesa vistas de hoje”. Obra fundamental na luta comunista.
[6] – Em um texto futuro pretendo desenvolver essa questão.
[7] – http://pt.scribd.com/doc/11265198/MARX-Karl-a-Chamada-Acumulacao-Primitiva#scribd

[8] – Sobre a questão: http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo249artigo139artigo212artigo5.pdf

Um comentário:

  1. MARXISMO(COMUNISMO,FASCISMO E NAZISMO)É RACISTA E HOMOFÓBICO

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