quarta-feira, 1 de julho de 2015

O fim da última ilusão: o Governo do PT e política externa progressista


Nos últimos anos a caracterização dos governos do PT foi um dos temas mais polêmico da esquerda brasileira. Esquerda, centro-esquerda, centro, democrático-popular, direita, etc. A única coisa que conseguiu ser aceito como mais ou menos consenso foi a suposta política externa progressista dos governos petistas. Poucas organizações, como o PCB e PSTU, ousaram questionar essa alegação. Ano passado, no segundo turno das eleições, quando o PCB decidiu puxar o voto nulo, muitas pessoas e organizações acusaram o partido de trair a América Latina e contribuir para a derrota de Cuba e da Venezuela [1] (alegavam que o PSDB no Governo Federal provocaria a queda desses países frente ao imperialismo). Essa ilusão é a última a ser desfeita na experiência petista. Senão vejamos.
Dilma seguindo sua política econômica extremamente conservadora, pró-monopólios e capital financeiro vai aos Estados Unidos. Anuncia no Wall Street Journal - expressão orgânica do capital-imperialismo - as "oportunidades de investimentos" que as concessões (leia-se: privatizações) vão criar no Brasil. Mas não é só isso. Dilma faz questão de encontrar-se com o dono do jornal, o bilionário Rupert Murdoch, sujeito conhecido por patrocinar todas as ditaduras instaladas na América Latina nos últimos 50 anos (inclusive o golpe contra Hugo Chávez) [2]. Dilma também aproveitou para encontrar 12 representantes dos maiores grupos dos EUA do capital bancário e especulativo (inclusive, o representante do maior fundo de investimentos do mundo) e 21 empresários dos monopólios transnacionais. 

A pauta dessa reunião foi: um amplo pacote de investimentos na economia brasileira por esses grupos monopolistas, acordos de livre-comércio, redução de proteção alfandegária e vantagens fiscais para investirem em nosso país. O que isso significa na prática? Aumentar o poder econômico, político e ideológico dos monopólios transnacionais em nosso país, fortalecer a histórica dependência econômica e tecnológica do capitalismo nacional e privatizar mais nossas riquezas. O Ministro Armando Monteiro, sentindo-se em casa, falou de forma entusiástica de um acordo de livre-comércio lembrando os tempos mais sombrios da ALCA [3]. 

Por fim, Dilma passou uma mensagem para o mundo: seu governo será um pólo reacionário na América Latina. Ela encontrou-se com Henry Kissinger, ex-secretário de governo dos EUA, homem responsável pelo planejamento e execução de praticamente todos os golpes de estado dados na América Latina de 1960 em diante e grande articulador do golpe contra Salvador Allende no Chile. Eles trocaram elogios e Kissinger disse que o Brasil pode ser um "elemento chave" na política dos EUA no "Mundo Ocidental". Para completar a mensagem, a assessoria de Dilma e a de Kissinger afirmaram que eles não conversaram sobre o passado - ou seja, sobre a participação de Kissinger na instalação de ditaduras sangrentas que mataram milhões de pessoas (principalmente comunistas) [4]. 

Nesse momento a América Latina vive uma ofensiva das burguesias internas e do imperialismo contra os governos bolivarianos e de esquerda. À exceção da Bolívia, todos os governos - Equador, Venezuela, Chile, Argentina - vivem um momento de fortalecimento, reorganização e ataque das forças burguesas. Nessa conjuntura procurar o capital-imperialismo dos EUA e encontrar-se com o principal ideólogo do imperialismo estadunidense dos últimos 50 anos, passou uma mensagem clara: o Brasil será um agente da reação, a época da ilusão da política externa progressista acabou. 

E para convencer até os governistas mais fanáticos disso, como o senhor Emir Sader,  o governo brasileiro assinou um acordo de cooperação militar com os EUA que vai garantir influência tecnológica, organizacional e ideológica das forças armadas dos EUA sobre as forças armadas brasileiras. O Brasil firmou um "acordo de cooperação" com o país que notoriamente estava o espionando e que sabemos que continua fazendo-o. Esse acordo é tão entreguista, viola tanto a soberania do país, que não era feito desde 1978. Nem FHC teve coragem de assinar acordo semelhante [5].  Enfim, nesse momento, é absolutamente injustificável nutrir ilusões com a política externa do Governo Federal. A última ilusão acabou. 

#Foto de Dilma com Kissinger

Notas
[1] – http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=7895:um-dialogo-sobre-a-politica-externa-brasileira&catid=134:eleicoes-2014
[2]  - http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-encontra-empresario-rupert-murdoch-na-sede-do-wall-street-journal-16591408
[3]- http://naofo.de/5e7u
[4] – http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/06/1649218-em-ofensiva-por-investimento-dilma-encontra-viloes-da-america-latina.shtml
[5] – http://oglobo.globo.com/economia/brasil-estados-unidos-assinam-acordo-de-cooperacao-militar-3024703

Um comentário:

  1. É fácil abstrair que ela também foi à Rússia, que também temos fortes laços comerciais com a China, que somos parceiros de Cuba. Fácil construir um discurso antiPT ...

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