quarta-feira, 22 de julho de 2015

Syriza como operador político da austeridade: rumo ao bonapartismo?



O presidente do Syriza e primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, anunciou uma reforma ministerial no seu governo. A reforma teve como finalidade excluir os “ministros rebeldes” que votaram no parlamento contra o pacote de austeridade imposto pela Troika. O Comitê Central do Syriza, em sua maioria, pressiona para convocar uma reunião da direção do partido para questionar os rumos do governo, mas Tsipras, como presidente, se recusa a realizar a reunião. Nos últimos dias o governo também tem colocado de forma brutal a polícia nas ruas contra manifestantes anarquistas, comunistas, socialistas, etc. A escalada de repressão tende a aumentar. Ao mesmo tempo, mesmo com os gigantes cortes nas políticas sociais do estado, os gastos orçamentários com o aparelho militar e de repressão do estado grego estão garantidos. O novo pacote de austeridade não tocou nessa seara.
              
A agora explícita política pró-monopólios da direção do Syriza ganha ares de terror no depoimento de um camarada membro desse partido que está nas ruas lutando contra a austeridade. Mesmo sendo crítico a Tsipras, ele afirma “não se vê a polícia antimotim e este governo quer o bem das pessoas”. Disse isso dirigindo-se a um protesto contra os pacotes anti-austeridade, contudo, “5 minutos depois o ar começa a ficar irrespirável, ouvem-se estrondos, fugimos, dispersamos, entre crianças e pelo menos uma pessoa em cadeira de rodas, pelas ruas em direcção à parte baixa de Sintagma. Georgos tinha razão, em seis meses nunca a polícia antimotim tinha estado nas manifestações - hoje porém esse sonho morreu também” [1]. É notório que até poucos dias atrás o Syriza era quase que uma unanimidade numa esquerda presa a um câncer institucionalista e avessa a uma análise marxista séria. O KKE recusou-se a compor governo com o Syriza, entre outros motivos, por compreender que o programa do partido que promete acabar com a austeridade dentro da UE não passava de uma falácia. Os adjetivos nada elogiosos para o KKE foram de sectário, dogmático, esquerdista, stalinista, etc. Aldo Cordeiro, intelectual brasileiro que está na Grécia cobrindo os acontecimentos para o Blog Convergência (ligado ao PSTU), era um dos que criticavam sob esse prisma os comunistas gregos. Seu último texto, porém, traz esse trecho:

 “A incoerência nas ações do governo Syriza indica, de certa forma, a inocência de seu projeto político. Tsipras parece de fato ter acreditado no seu próprio sonho, que era possível acabar com a austeridade sem romper com o Euro. Utopia reacionária, a fé do primeiro ministro na reforma das instituições da União Europeia expressa, em tempos de integração internacional, os limites do eurocomunismo “pós-nacional” [2].
             
Stathis Kouvelakis [3], também há pouco tempo um apoiador “crítico” do Syriza, talvez ainda atônito com os desdobramentos do governo, escreveu um texto, traduzido para o Blog Junho, onde classifica a atitude de Tsipras como antipolítica por perceber que o primeiro-ministro e a direção do Syriza manobram de uma forma para apresentar suas medidas de gestão da austeridade não como uma decisão política coerente, mas como o resultado titânico dos fatos que se impõe sem “deixar alternativas” – Tsipras ainda é mostrado como um líder corajoso que não foge dos “difíceis desafios”, por membros da “esquerda” brasileira [4]. O Aldo Cordeiro, em entrevista ao jornal do Brasil, trouxe uma informação importantíssima para compreender a conjuntura grega: os monopólios de mídia da Grécia transformaram-se em porta-vozes de fato do governo [5]. Não existe mais aquele resquício de hostilidade, ao contrário, governo e monopólios de mídia funcionam em sintonia para conformar um grande aparelho ideológico de disseminação da política destruidora da austeridade.

A eleição do Syriza significou um rechaço de forma difusa e pouca esclarecida da maioria da população trabalhadora, das camadas médias, juventude e aposentados à austeridade.  Era evidente que os partidos tradicionais não conseguiam mais legitimidade para continuar a política do imperialismo alemão e da burguesia grega. O Syriza como expressão de esquerda transformasse (ou sempre foi?) em novo operador político da austeridade. A condução política do Syriza o aproximou dos partidos tradicionais - que votaram em bloco a favor do novo pacote de austeridade – e afasta das bases sociais que elegeu o partido. A perda de base social conduz a uma aproximação das expressões políticas da burguesia e uma intensificação da repressão ao movimento popular e operário.
           
Paradoxalmente, porém, nos setores menos organizados da classe trabalhadora, nas camadas médias menos empobrecidas e nas camadas médias ricas a popularidade de Tsipras cresce. Ele manobra para marginalizar o partido e cada vez mais personalizar o governo em sua figura. Na classe trabalhadora organizada pelo KKE e na juventude aderente do Syriza, uma solução radical a política da austeridade (como sair da EU e atacar o poder dos monopólios na economia) é bastante popular, nos demais segmentos da população não. Obama, sabendo o papel fundamental que a Grécia tem na OTAN, pressiona a Alemanha para usar uma estratégia cada vez mais de cooptação com o Syriza: dotar a “esquerda radical” de melhores condições para operar a austeridade.

No imediato pós-referendo escrevemos um texto chamado “A Grécia pós-referendo: entre a conciliação e o enfrentamento” [6] onde avaliamos como através da mediação dos EUA a Alemanha poderia usar outra estratégia com a Grécia e pactuar com o Syriza a continuidade da austeridade agora revestida de alguma “legitimidade social”. O desenrolar da conjuntura não só deu razão ao nosso texto como coloca uma nova possibilidade concreta: a integração maior do Syriza com as expressões políticas tradicionais da burguesia através de novas eleições e a formação de um novo gabinete ministerial, o fortalecimento de um personalismo encima da figura carismática de Tsipras como “salvador da pátria” e uma ampliação da política de repressão e controle contra a classe trabalhadora e juventude, configurando um governo de força, autoritário, que colocasse encima dos conflitos de “interesse” em prol do “bem-estar geral”; em suma, o bonapartismo.


[1] – http://www.criticadaeconomia.com.br/resumo/168
[2] –http://blogconvergencia.org/?p=4942
[3] - http://blogjunho.com.br/a-antipolitica-de-alexis-tsipiras/
[4] –http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Discurso-de-Tsipras-ensina-uma-velha-licao/6/34003
[5] –http://www.jb.com.br/economia/noticias/2015/07/17/alexis-tsipras-tira-ala-radical-do-syriza-do-governo/
[6] –http://www.diarioliberdade.org/opiniom/opiniom-propia/56705-a-gr%C3%A9cia-p%C3%B3s-referendo-entre-a-concilia%C3%A7%C3%A3o-e-o-enfrentamento.html


Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI SUA OPINIÃO!
responderei.