domingo, 2 de agosto de 2015

A dialética do absurdo: Marx, Mises e Edilson Silva.



                  
O deputado estadual do PSOL-PE, senhor Edilson Silva, é a figura política mais conhecida que o partido tem no estado de Pernambuco. Conhecido por posições pouco comuns no seio da esquerda socialista, o deputado conseguiu “inovar” de novo. Depois de um comentário inusitado sobre o UBER, defendeu a existência de compatibilidades entre Karl Marx e Ludwig von Mises. O curioso de tudo é que segundo Edilson, ele não está trazendo nenhuma novidade: a compatibilidade entre os dois pensadores sempre esteve presente, os comunistas e liberais “dogmáticos” é que não enxergaram.
Antes de entrar na “leitura” que Edilson Silva faz da questão, é necessário fazer alguns poucos comentários em relação a sua posição sobre o UBER [1]. O nobre deputado reproduz a ideologia dominante que mostra todos os supostos “avanços tecnológicos” como algo bom em si e quem fica contra é um atrasado anti-histórico. Sabemos que no capitalismo a dinâmica de desenvolvimento das forças produtivas (novas tecnologias, formas de organizar a produção, etc.) está subordinada ao interesse do capital em majorar seu lucro e ampliar a dominação sobre a classe trabalhadora. A pesquisa tecnológica não é pautada no bem comum e na resolução dos problemas da humanidade. Logo, qualquer “avanço tecnológico” deve ser visto de forma extremamente crítica pelos marxistas, visto seu caráter de classe.

Edilson afirma que as pessoas que “querem impedir o UBER” estão tolhendo “a liberdade de criação e seu uso para facilitar a vida” e cometendo um “ato anti-histórico”. Ainda sentencia que “é quase como querer impedir a chegada da primavera. Ela virá”. Qualquer semelhança com o discurso das construtoras quando querem derrubar áreas históricas e favelas para construir condomínios de luxo não é mera coincidência. Edilson esquece apenas um “detalhe” que deveria ser central para um marxista: o trabalho das pessoas que hoje são taxistas.

Quando fala dos taxistas é só citando os problemas atuais do serviço, afirmando que o UBER vai apenas fazer com que os táxis sejam utilizados pelo seu “valor de uso” e comparando os taxistas ao ludistas ingleses. O nobre deputado reproduz um preconceito ideológico criado pela classe dominante e perpetuado por seus historiadores (os mercenários intelectuais da burguesia) que considera o movimento que ficou conhecido como ludista como resultado de trabalhadores irracionais e bárbaros que não entendiam a dinâmica da economia, e, atacavam as máquinas por considerá-las como a fonte do seu desemprego e miséria.

Cumpre destacar que na realidade os operários do nascente movimento proletário sabiam muito bem o que estavam fazendo. A quebra de máquina evitava que alguns operários furassem a greve, que a produção continuasse contratando novos operários, pressionavam o patrão a negociar (por causa do prejuízo dos consertos) e ainda era uma forma de lutar contra tecnologia que poupava força de trabalho e aumentava o desemprego. Como podemos ver, a tática de quebrar máquina era bem eficiente no enfrentamento diário da luta de classe.

Depois de publicar em sua página no Facebook o comentário sobre o UBER, o deputado sentiu a necessidade de embasar teoricamente sua perspectiva bastante estranha ao pensamento socialista [2]. Dessa tentativa surge um Marx no mínimo estranho e uma dialética do absurdo que consegue desenvolver-se em movimentos contraditórios até beirar a distorção do pensamento marxista. Senão vejamos.

Edilson afirma, logo no início do texto, que Mises não era “um monstro liberal”, mas sim um “intelectual refinado e radical”. Poderíamos falar muito sobre Mises, mas, basta citar dois eventos da vida do economista austríaco: ele foi apoiador inconteste do colonialismo na África e Ásia (maior tragédia do século XIX e XX e contra o qual milhões de comunistas lutaram de forma incansável) e do fascismo. Vejamos o que nosso economista “amante da liberdade” diz do fascismo (grifos nossos):

Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização européia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal. (L. von Mises, Liberalism, 1985[1927], Cap. 1, p. 47) [3]

Depois de elogiar Mises, o nobre deputado defende que não devemos repudiar Adam Smith. A questão, na realidade, é um purismo: o marxismo não descarta nenhum pensador; ele analisa o significado sócio-histórico do pensamento do autor, sua cientificidade (ou seja, em que medida seu pensamento contribui para a compreensão da realidade em seu movimento) e o caráter de classe. O debate sobre recusar ou não um autor feito de forma abstrata é algo que não é sequer posto pelo marxismo. A coisa fica interessante mesmo quando Edilson começa a tratar do suposto encontro entre Marx e Mises percebido (teórica e praticamente) por Lênin. Ao comentar sobre a Nova Política Econômica, a NEP, afirma que ela foi adotada porque “os camponeses não se adaptavam à produção coletiva e voluntária para abastecer as demandas do povo russo”, e que a ampliação dos mecanismos de mercado na Rússia foi o reconhecimento de sua “força avassaladora real na transformação da realidade econômica e social”.

Edilson, com certeza, não conhece a historiografia da URSS. A NEP foi aplicada porque durante a guerra civil os bolcheviques usaram a política do “comunismo de guerra” que, dentre outras coisas, adotava a requisição forçada de alimentos no campo para garantir as linhas de abastecimento contra o “Exército Branco” na Guerra Civil. Junte a isso a dificuldade política que os bolcheviques tinham de conquistar a hegemonia no campo por ser um partido historicamente mais centrado nos centros urbano-industriais da Rússia e ter “se aproximado” das massas camponesas - defendendo de forma convicta a reforma agrária e o fim da guerra - apenas no decorrer da Revolução Russa. Para complicar ainda o quadro, a produção industrial estava em franco declínio e desestruturada como resultado da Primeira Guerra Mundial e Guerra Civil, logo, os camponeses não conseguiam achar no mercado os produtos manufaturados que precisavam e tendiam a reduzir a produção de excedente, restringindo-se a produção de subsistência. A adoção da NEP foi antes de tudo uma percepção política de que as amplas transformações econômicas e sociais no campo russo precisariam de um partido com uma inserção nas massas rurais muito maior e um aparelho de poder bem mais estruturado. A escolha dos mecanismos de mercado para estimular a produção de excedente foi mais um “cálculo político”, de correlação de forças, do que uma admissão de qualquer acerto teórico de Mises.  

Edilson critica o fim da NEP e a coletivização forçada iniciada no final da década de 20. Afirma o psolista “Josef Stalin trocaria a “mão invisível” por uma mão de ferro, pesada, com açoite e espingarda, abrindo campos de trabalho forçado e escrevendo uma das páginas mais trágicas da história daquele século e talvez da humanidade”. Não é nosso objetivo debater a fundo a coletivização forçada da agricultura na URSS. É evidente que foi um episódio trágico, cheio de erros e cenas lamentáveis, mas não foi apenas isso; também foi a medida política que abriu o caminho para o vigoroso desenvolvimento econômico da URSS e a consequente vitória sobre o nazifacismo na Segunda Guerra Mundial. Marcelo Braz sintetiza bem o significado político da coletivização do campo:

A guerra contra os kulaks trouxe drásticas consequências imediatas ao povo russo, que se viu diante do racionamento de alimentos devido ao boicote organizado pelos grandes proprietários de terras que reagiram como estocagem da produção, e mesmo com à destruição de grande parte dela. Em 1928, a retenção do trigo realizada pelos kulaks obrigou o governo soviético a comprar o produto no exterior. Nas regiões dominadas pelos grandes fazendários, a reação envolveu inclusive a perseguição àqueles que apoiavam a iniciativa do governo, com ameaça e assassinatos. A liquidação desta classe significou efetivamente a defesa da Revolução Russa por parte do governo bolchevique (2011. P. 155). [4]

Mas a “leitura” do psolista sobre Lênin não para aqui. Segundo Edilson, Lênin, em O Estado e a Revolução, defende “categoricamente que o futuro do Estado seria desaparecer, definhando à medida em que as forças produtivas e o desenvolvimento tecnológico fossem avançando”. Por motivos óbvios Edilson não cita nenhum trecho ou capítulo do livro onde Lênin defenderia isso. O motivo é simples: temos aqui uma falsificação do pensamento do líder bolchevique. No primeiro capítulo de O Estado e a Revolução, chamado As classes Sociais e o Estado, Lênin defende que o Estado é um órgão de dominação de classe que surge como produto inevitável de qualquer sociedade que entre numa fase de antagonismo irreconciliáveis onde os meios de produção são privados e uma parte da sociedade (a minoria) vive da exploração do trabalho da maioria (no caso do capitalismo, a classe trabalhadora do campo e cidade).

O desenvolvimento tecnológico é parte do avanço das forças produtivas, e, no capitalismo, como já dizemos antes, os “avanços tecnológicos” são parte do processo de reprodução do capital. A tecnologia é uma forma de ampliar o valor e explorar/dominar as classes trabalhadoras. Para Lênin, o “fim do estado”, tratado no capítulo V do seu livro, de título “As condições econômicas do definhamento do Estado”, surge como resultado de um processo revolucionário onde a classe trabalhadora liderando todos os exploradores e oprimidos toma o poder, destrói o aparelho burguês e inicia o processo de transição socialista até conseguirmos chegar ao comunismo, ou seja, uma sociedade com a socialização completa do poder e da riqueza (e consequente fim das classes sociais).

Para concluir, temos que tecer um comentário crítico sobre a visão idílica que Edilson tem da socialdemocracia e do economista J. Keynes. Segundo o nobre deputado “A NEP na Rússia e o keynesianismo na Europa Ocidental tinham uma inspiração em comum: encontrar uma economia e uma sociedade livres, que atendesse ao interesse das maiorias sociais. Nesta inspiração, ambos, Lênin e Keynes [...]”. Primeiro, Keynes nunca quis atender o interesse das “maiorias sociais” (qualquer livro de história econômica bom demonstra isso). Segundo, e mais importante, o estado de bem-estar social e o keynesianismo são frutos direto do colonialismo e neocolonialismo que colocou as economias européias num lugar privilegiado na divisão internacional do trabalho e propiciou por alguns anos a condição de criar um padrão de reprodução do capital que garantiu níveis de consumo e direitos sociais e econômicos poucas vezes visto no capitalismo. Mas o reverso da moeda era a miséria extrema, devastação e dominação imperial na América Latina, África e Ásia.

Podemos concluir da seguinte forma: a tentativa do deputado Edilson Silva de criar um embasamento teórico para sua posição sobre o UBER teve uma morte horrível. Foi falida do começo até o fim com direito a reprodução de mitos da ideologia dominante (como a visão sobre os ludistas). Recomendamos ao nobre companheiro de algumas lutas mais sorte na próxima.


[4] – O trecho citado é o livro “Partido e Revolução – 1848-1989” da Expressão Popular. 

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