sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Do referendo à renúncia: a estratégia dos gerentes da austeridade neocolonial


Tsipras e Obama. 
Alexis Tsipras decidiu renunciar e convocar novas eleições para setembro. Não é preciso forçar muito a memória para lembrar que poucos meses atrás existia uma histérica e acrítica campanha de adoração ao Syriza e Tsipras percorrendo o mundo. Slavoj Zizek, David Harvey e Giorgio Agamben estão entre os péssimos analistas políticos que nutriram todas as ilusões do mundo com o Syriza. No Brasil os blogs da Boitempo, Convergência e Junho (esses últimos dois trotskistas) e o Opera Mundi publicaram regularmente textos de vários intelectuais que embarcaram na onda das ilusões (para não falar das organizações políticas, como PSOL e PT, que tentaram se fortalecer usando o “capital político” do Syriza).

No meio dessa onda de ilusões, compreender corretamente a conjuntura política e o que está em jogo não é fácil. O principal objetivo desse texto é traçar uma linha interpretativa da ação de Tsipras dentro do quadro geral de gestão da austeridade neocolonial contra a Grécia. Tendo uma visão clarificada desse ponto, podemos perceber melhor quais as melhores estratégias e táticas de ação para a esquerda revolucionária grega. Contudo, já Adiantamos que discordamos bastante das interpretações apologéticas que veem na renúncia de Tsipras uma traição ao referendo grego. Senão vejamos.

O Syriza – mesmo suas tendências consideradas de esquerda – ganhou a eleição com uma falsa promessa: combater a austeridade e manter-se dentro da União Europeia. Seguindo o roteiro clássico de toda esquerda gerente da ordem dominante, quanto mais próximo chegava de ganhar o governo mais rebaixava o programa político-econômico. Ao ganhar a maioria parlamentar e constituir um governo junto com o partido de direita ANEL, o Syriza iniciou seu processo de gestão “humanizada” da austeridade. Foram meses de traição à base eleitoral do partido, inércia total da esquerda dentro do Syriza (que se limitou a discursos mais ou menos raivosos dentro do parlamento) e amplo trabalho ideológico de convencimento da maioria do povo trabalhador de que a austeridade “humanizada” era a única alternativa viável (praticamente só o Partido Comunista Grego - KKE, e em menor medida os anarquistas, fizeram uma oposição de verdade as medidas de direita do Syriza).

Quando convocou o referendo grego, a estratégia de Tsipras era bastante evidente: conseguir revestir a gestão de austeridade com legitimidade social anulando na prática o resultado da última eleição (que significou uma grande negativa, ainda que confusa, à austeridade). Infelizmente, por incompetência ou oportunismo, a maioria dos “analistas” (partidos e intelectuais) fingiu não perceber as intenções de Tsipras e parte substancial da cúpula do Syriza. Ao convocar o referendo a mensagem que Tsipras passou foi: você quer negociar uma austeridade mais “humana” e continuar na estrutura neocolonial da UE? O “OXI” ganhou e o primeiro passo para construir uma renovada legitimidade social em cima da austeridade estava dado.

Depois do referendo Tsipras apressou-se em assinar um novo “acordo” com a Alemanha e a tecnocracia da UE (representante orgânica do grande capital) para continuar a sangria neocolonial da Grécia. Ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, intensificou como nunca no seu governo as medidas de repressão aos comunistas e anarquistas e firmou uma aliança estratégica com os monopólios de mídia (nacionais e europeus) que começaram a servir como correia de transmissão das decisões e discursos do governo conformando um poderoso aparelho ideológico pró-austeridade neocolonial.

Essa manobra de Tsipras e da cúpula do Syriza causou um forte desanimo nos trabalhadores, aposentados e juventude não organizada em algum agrupamento político. Ao mesmo tempo, Tsipras ganhou popularidade com os segmentos médios conservadores e centristas, com os ricos e começou a atrair em torno de si uma bancada informal de partidos de direita e centro para melhor gerir a austeridade no parlamento.

Enquanto a combatividade nas ruas voltou a aumentar nos últimos dias tendo como principal catalisador os comunistas do KKE através da PAME, a popularidade de Tsipras está em incríveis 60%. O líder da “Esquerda Radical” sentiu-se suficientemente confiante para acelerar o nível de brutalidade da austeridade e articulou a privatização de 14 aeroportos gregos a monopólios alemães. Ao mesmo tempo, a Grécia participou de vários exercícios militares conjuntos com Israel e EUA, e continua como grande consumidor de armas do complexo militar-industrial dos EUA e peça fundamental da OTAN.

Dentro do Syriza setores ditos à esquerda de Tsipras e seu grupo tentam uma rebelião. Depois do referendo e da assinatura de mais um “acordo” neocolonial, os ministros “rebeldes” foram expurgados do governo. No parlamento a proximidade com os partidos de direita e centro da majoritária dos deputados do Syriza não para de crescer. A juventude do partido e as tendências de “esquerda” procuram convocar um novo Congresso para discutir a estratégia do partido e tentar derrubar Tsipras do poder (que é presidente do partido). Nessa luta pelo poder dentro do Syriza, o ex-ministro da economia, Yanis Varoufakis, fiel gerente da austeridade “humanizada” junto com Tsipras, procura agora mostrar-se crítico e aparecer [também] como alternativa à esquerda.

A renúncia de Tsipras e a convocação de novas eleições para novembro estão inseridas nesse quadro e têm dois grandes objetivos. O primeiro é fortalecer a legitimidade da austeridade enterrando de vez o significado político da eleição que deu a vitória ao Syriza e procurando esfacelar o poder de mobilização da esquerda revolucionária (com destaque para os comunistas do KKE). O discurso em rede nacional onde anunciou a renúncia, Alexis disse que “Sinto a obrigação ética e política de deixar as minhas ações ao vosso julgamento: o que foi certo, o que foi errado e o que não foi feito”, repetiu que “o acordo com os credores foi o melhor que se podia alcançar e que algum governo alcançou até agora” e prometeu para o próximo mandato “liderar o processo de renegociação da dívida grega, prosseguir as políticas da reforma do Estado e de combate à corrupção e ao poder da oligarquia, para além de prometer minimizar os efeitos da austeridade das políticas do memorando sobre os mais pobres.” [1]

Notem que Tsipras quer que a população aprove suas medidas de governo até agora – leia-se: continuidade da austeridade -, defende que o “acordo com os credores” foi o melhor possível (leia-se de novo: continuar a austeridade neocolonial foi bom) e pretende concorrer ao governo agora com um programa abertamente pró-austeridade combinado com tons mais ou menos demagógicos que não atingem o que é central (como combate à corrupção).

O segundo grande objetivo é controlar o seu partido. Ao que tudo indica Tsipras e seu grupo irão manobrar para acontecer primeiro a eleição e depois o congresso do partido. Se tudo sair como espera o ex-premiê o congresso do Syriza ocorrera depois de o programa de gestão “humanizada” da austeridade sair vencedor nas eleições e os deputados de “esquerda” do Syriza perderem espaço. Nesse contexto, controlar a máquina burocrática do partido, que já não é democrática, não será difícil.

O ex-ministro de Energias, Panagiotis Lafazanis, tenta construir um novo agrupamento político com deputados de “esquerda” do Syriza. A chamada “Unidade Popular”, porém, indica não passar de mais do mesmo. Pretende ser uma frente para agrupar todos os descontentes com a austeridade (sem fazer distinção do caráter de classe do projeto e das soluções alternativas), mesmo os que não são de esquerda, como já é o Syriza, mas defendendo a volta à moeda nacional e a nacionalização de setores estratégicos da economia, porém sem atacar o domínio dos monopólios e dando pouca ênfase às questões primordiais como moratória da dívida e rompimento com a OTAN etc. [2] O que fica claro é que é uma ruptura tática, mas não estratégica com o que defende a cúpula do Syriza (existe uma contradição em querer qualquer um contra a austeridade, mesmo sem ser de esquerda e sem ter proposta de esquerda, mas defender medidas de esquerda contra a austeridade. A mesma contradição do Syriza.)

Antes da conclusão é importante destacar um ponto fundamental nesse tabuleiro político. O FMI (seguindo a linha dos EUA) continua pressionando a Alemanha e a tecnocracia da UE para aceitar uma reestruturação da “dívida pública” grega [3]. Como a Grécia tem um papel fundamental na OTAN como braço de sustentação do imperialismo, a linha de ação dos EUA é garantir uma base mínina de consenso social ao Tsipras dando-o maior margem de manobra para gerir a austeridade “humanizada”. A Alemanha, ao que parece, irá concordar com os EUA e apoiará o grupo de Tsipras na próxima eleição. Teremos então uma aliança entre o imperialismo estadunidense e alemão, os monopólios de mídia (gregos e europeus) e o grande capital europeu em torno de Tsipras e seu grupo. Caso ele realmente ganhe com ampla maioria – como eu acho provável que aconteça – teremos o primeiro grande passo na consolidação do bonapartismo grego.

[1] – http://www.infogrecia.net/2015/08/tsipras-escolhe-ser-julgado-nas-urnas/
https://bloglavrapalavra.wordpress.com/2015/08/21/apresentando-a-unidade-popular/

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