quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Relatos de viagem: o contrabando de alimentos venezuelanos à Colômbia.


Resolvi* escrever esse pequeno texto com o objetivo de compartilhar algumas informações sobre a situação política e econômica da fronteira colombo-venezuelana (entre as cidades de Cúcuta e San Antonio del Táchira).
Hoje é o meu vigésimo segundo dia de intercâmbio na Colômbia e juntamente com os outros intercambistas resolvemos fazer compras de frutas e verduras num lugar chamado – Cenabastos (uma espécie de Ceasa no Brasil) - ou seja, um lugar com vários galpões que abrigam barracas de frutas, verduras, açougues e comida ( do tipo arroz, macarrão, bolacha, biscoitos, farinha de milho, etc.), e produtos de higiene pessoal e de limpeza (do tipo sabonete, creme dental, papel higiênico, desinfetante, desodorante, shampoo, etc.). Até aqui tudo bem.
Entretanto, antes de continuarmos é preciso contextualizar:
Cenabastos encontra-se localizada em Cúcuta, cidade colombiana que já foi palco de importantes fatos históricos, e que hoje é “bastante conhecida por seu comércio” e por sua fronteira com a Venezuela, isso mesmo, com a famigerada Venezuela!
O fato é que fronteira colombo-Venezuelana enfrenta uma grande crise, o Presidente Maduro ordenou o fechamento (cierre) da fronteira com a Colômbia e muitos colombianos que vivem na Venezuela sem documentação regularizada/ permissão de residência estão sendo deportados para o lado colombiano da fronteira (há muitos chegando aqui na cidade de Cúcuta), um problema bastante complexo, uma vez que requer do governo Venezuelano o devido respeito aos direitos humanos, fato que vem sendo bastante questionado aqui na Colômbia. A justificativa para o fechamento da fronteira, segundo o governo venezuelano é o que ele denomina de ataques paramilitares por parte da Colômbia e o contrabando de comida. O governo venezuelano acusa ter descoberto – no lado venezuelano da fronteira - toda uma estrutura de contrabando de comida e gasolina, além de vários armamentos e um prostíbulo ilegal.

É do conhecimento de todos e todas que a Venezuela passa por uma crise política e econômica que vem cada vez mais desvalorizando a sua moeda e que é fortemente marcada por uma suposta escassez de comida e de todo tipo de produtos de uso básico (como papel higiênico, creme dental, desodorante, etc.). Crise de desabastecimento essa que é constantemente denunciada e propagada pela grande mídia brasileira como um reflexo dos “desmandos políticos e econômicos do chavismo”. Em contrapartida o governo Venezuelano continua afirmando que a culpa de grande parte ou de toda essa escassez é dos empresários e das milícias de contrabando que insistem em esconder e destruir os alimentos ou desviá-los, seja para acentuar a crise vivida no país e, portanto, desestabilizar ainda mais o governo, seja para lucrar com o contrabando (inclusive há uma matéria recente da BBC que traz o suposto relato de um sujeito que trocou o tráfico de drogas na Venezuela pelo de comida), o que leva a crer que é uma prática muito comum dentro do país

Feitas as devidas ressalvas voltemos, novamente, nossas atenções para Cenabastos, essa espécie de grande feira onde as pessoas vão no fim de semana a procura de alimentos e mercadorias mais baratas, o que é perfeitamente normal, exceto pelo fato de que grande parte dessas comidas e produtos de higiene pessoal/limpeza são oriundos do contrabando, ou seja, há um “mercado negro/informal” que atua intensamente em Cenabastos, mais precisamente na cidade de Cúcuta e que desvia os mais variados tipos de mercadorias. Bom se há alguma dúvida quanto a veracidade desse fato é só jogar no Google as palavras “Cenabastos” e “contrabando”. Inclusive há vários produtos com uma estampa que anuncia “venda exclusiva na Venezuela”, ou seja, há produtos que vem com a prova de que são contrabando, uma vez que comprar esses produtos para revender consiste em crime de contrabando. 

E isso é do conhecimento de todos e todas, a economia local (em Cúcuta) está fortemente estruturada nesse tipo de atividade. Aqui as mercadorias, normalmente, são mais baratas nas “tiendas (mercadinhos)”. É muito comum abrir uma barraquinha na frente de casa, ou na garagem para viver do comércio. O curioso/ou óbvio é que comprar nos grandes mercados (do porte de um /Carrefour/Bompreço/Extra) torna-se quase sempre mais custoso, o que alimenta e movimenta esse mercado informal/alternativo.

Por fim, é preciso deixar claro que a finalidade deste texto não é explicar/justificar a atual crise na Venezuela, tampouco o complexo conflito vivido na fronteira colombo-venezuelana, mas expor uma situação que é real, a Venezuela enfrenta uma crise de desabastecimento e há um mercado negro/informal que se aproveita disso e contribui para o aprofundamento dessa crise. O contrabando de mercadorias é real e acontece em grande proporção a ponto de “movimentar” a economia de uma cidade. Por outro lado há quem acuse o presidente Maduro de estar criando um factoide político (um inimigo/uma agenda comum), com a finalidade de manipular a opinião pública e retirar parte da responsabilidade do governo sobre a atual crise na Venezuela, o que teria respaldo nas eleições parlamentares de Dezembro.

*Gleiby Dutra é estudante de Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Está nesse momento na Colômbia em intercâmbio acadêmico. 

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