domingo, 6 de setembro de 2015

Afinal, o que é a “crise migratória”?



Milhões de pessoas no mundo estão chocadas com a foto de Aylan Kurdi, uma criança de três anos, morto num naufrágio de refugiados que saiam da Síria. A foto do menino morto é um exemplo – dentre milhões – de pessoas que todos os anos perdem a vida tentando escapar da miséria, fome e guerras. A chamada “crise migratória” é na verdade o produto de um mundo que vive uma nova fase da ofensiva neocolonial-imperialista. Desde o século 16 o mundo foi divido entre áreas, países, continentes e povos “civilizados” e “não-civilizados” (ou subumanos). O primeiro grande ciclo colonial destrói milhões de vidas dos povos originários do que veio a ser chamado de América e inaugura a modernidade. O segundo grande ciclo colonial, chamado de neocolonial, aparece no século XIX, já sob o comando o capitalismo, e integra de forma genocida e brutal a África e a Ásia a dinâmica do mercado mundial. Em todos esses ciclos a tônica foi à destruição criativa de povos e modos de vida e a consolidação de um sistema mundial baseado num pequeno pólo do mundo que concentra a riqueza, desenvolvimento tecnológico e avanços civilizatórios em detrimento da miséria, fome e extermínio da maioria da humanidade (que sempre esteve na África, Ásia e América).

Na história moderna vários vetores de resistência surgiram. O maior e mais belo deles é representado pela Revolução Russa. A Revolução de Outubro foi mais que uma revolução contra o domínio do capital. Foi um processo revolucionário de proporções mundiais e de longo alcance histórico que combateu a dominância colonial, o racismo e a desumanização de maioria da humanidade. Durante o século XX tivemos várias vitórias (revolução chinesa, coreana, cubana, iraniana, guerras de libertação na África, etc.) e até os anos 70 do século passado parecia que estávamos ganhando. A contrarrevolução mundial iniciada nos anos 70 e vitoriosa nos anos 80 tem seu ápice na derrubada do campo socialista e na profunda crise do movimento comunista. A partir disso temos um longo processo de refortalecimento de tudo de ruim que a humanidade pôde produzir até hoje. Aumento da desigualdade de riquezas entre países do “Norte” e do “Sul” e da pobreza e miséria em praticamente todos os países do mundo, fortalecimento de formas ultra-repressivas de dominação, do racismo, xenofobia, fascismo, reabilitação de ideologias que desumanizam segmentos populacionais explorados e ampliação de formas colonias-imperialistas de dominação (desde invasões militares diretas até receituários do FMI que retiram a soberania de um país sobre sua política econômica). 

A chamada “crise migratória” é a manifestação desse quadro mundial. Quando Georg Bush chega à presidência dos EUA, adota uma política externa que afirma explicitamente a orientação do país de controlar diretamente as principais fontes de matéria-prima do mundo, em especial o petróleo. Os EUA Invadem o Iraque, Afeganistão, Líbia (inclusive com apoio de segmentos de esquerda) e Síria, e desenvolve operações militares em centenas de países do Oriente Médio e África. Nada disso parece chocar o mundo e não vemos um movimento mundial [articulado] de resposta. Na Europa as organizações políticas xenofóbicas e fascistas não param de ganhar força e a política migratória do continente trata os imigrantes como seres excluídos de qualquer direito, como não-cidadãos e não-humanos (em praticamente todos os países da União Europeia o número de imigrantes presos subiu em média 30% nos últimos trinta anos). 

O longo e doloroso processo histórico de reversão das desigualdades (econômicas, políticas, militares, tecnológicas etc.) iniciada com a Revolução Russa e o movimento comunista foi estancado e sofre severa reversão. Infelizmente, teremos ainda muitos Aylan Kurdi mortos por afogamento, fome, tiros e bombas de drones conduzidos de alguma sala dos EUA. Das promessas neoliberais de um mundo globalizado sem fronteiras e com prosperidade e desenvolvimento econômico para todos não sobra nada. Em 1989 um famoso muro caiu para o lado errado, milhares de outros muros foram construídos. Precisamos é de um novo Outubro para destruir todos os muros e garantir que os Aylan Kurdi que existem pelo mundo sejam vistos apenas sorrindo!

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