quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O apartheid, a praia e a luta de classes.



Depois de uma reportagem da TV Manchete dos anos 90, "descobrimos" que a ação política de segregar pessoas - de acordo com sua classe e "raça" - de determinados espaços sociogeográficos é antiga. Em linguagem simples: os ricos e camada médias desejam expulsar os pobres dos "seus" espaços sociais e isso não é novidade. Toda novela em torno de uma série de ações de sujeitos políticos públicos e da "sociedade civil" contra pessoas - principalmente jovens - negros e pobres frequentarem determinados lugares nas praias do Rio de Janeiro (e antes tinha os rolezinhos) não passa de mais um episódio da famosa luta de classe.
 
Na sociedade capitalista as relações de propriedade são polarizadas: de um lado um grande contingente de pessoas que tem apenas sua força de trabalho para vender e de outro um contingente menor que detém os meios de produção. Essas relações de propriedade engendram relações de produção que formam uma divisão social do trabalho complexa e diversificada. Entre o pólo proletário e o pólo burguês temos uma série de classes e camadas sociais. Essas camadas médias, tratando a questão de forma simplista, e pensando apenas no ambiente urbano, são formadas, em grandes linhas, por dois tipos de relações materiais: a) posse de pequeno ou médio capital (que pode ser no comércio, serviços, indústria etc.) que propicia um nível de renda médio maior que o nível médio dos proletários; b) ocupação de lugar "privilegiado" na divisão social do trabalho (seja no "mercado" ou nos aparelhos do estado) que também propicia nível de renda médio alto. Esse nível de renda médio diferenciado, ligado ao fato de que os bens e serviços são mercantilizados, proporciona estabelecer modos de vida e consumo diferentes da maioria da população.

A manutenção dessas relações de produção capitalistas pressupõe necessariamente formas de dominação política sobre o proletariado, dentre elas, a criação de estigmas inferiorizantes sobre os modos e práticas de vida das classes trabalhadoras e a consequente valorização dos modos de vida e prática das camadas médias e das classes burguesas. Numa relação dialética de retroação o padrão de dominação produz as formas de inferiorização e as próprias relações econômicas reproduzem de forma ampliada essas relações criando nichos de mercado e consumo específicos de acordo com o pertencimento de classe - exemplo clássico: os shoppings para ricos e os shoppings para pobres.  

Na sociedade capitalista – e em qualquer sociedade - existem padrões de reconhecimento social. Como na sociedade burguesa a apropriação da riqueza socialmente produzida é privada e o poder político é monopólio das classes burguesas criasse um padrão societário onde o reconhecimento social é ditado por normas e valores pertencentes às concepções de mundo burguesas. Esses padrões de reconhecimento social são materializados em práticas, objetos, formas de falar e agir, lugares, etc. As formas de ter acesso, por exemplo, a objeto que materializam códigos de reconhecimento social é via mercado; ou seja, compra monetária. Aqui a coisa é simples: ter nível de renda suficiente ou não para consumir de acordo com o padrão de reconhecimento social dominante. Determinadas praias - assim como clubes, restaurantes, bares, etc. - são símbolos de reconhecimento social acessado através de um terminado nível de renda e capital cultural. Isso significada que não basta ter dinheiro, é necessário ter "cultura" para estar ali. As camadas médias e classes burguesas, é claro, procuram manter seu lugar de "privilégios" e dominação, e uma das maneiras de fazê-lo, principalmente no cotidiano, é lutar de forma incessante para preservar os "lugares de exclusividade", os símbolos de distinção social, os códigos materiais de reconhecimento social.

Lutar contra a presença dos "pobres" e "sem cultura" nos "seus" espaços de lazer e divertimento é uma forma de luta de classe.  As camadas médias e as classes burguesas garantem que as classes trabalhadoras ("pobres") ficarão nos "seus lugares”. Certo pensamento economicista acha que a luta de classe acontece apenas nos espaços de produção e circulação de mais-valia, como numa fábrica. A luta de classe se espraia por toda totalidade social e assume formas diferenciadas em contextos sociais diferenciados. Logo, o racismo, o autoritarismo estatal, os discursos de ódio, as tentativas de linchamento, a política estatal segregadora, etc. são elementos de uma luta de classe [desigual] onde as camadas médias e as classes burguesas procuram manter seu apartheid social.


"Mas o Brasil é uma África do Sul" - Sandra de Sá.

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