quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Leon Trotski defenderia a Coréia do Norte?




O objetivo desse texto é demonstrar que a partir da teoria do Estado operário burocratizado, criada por Leon Trotski para pensar a conjuntura e a sociedade soviética na transição socialista do início dos anos 20, é coerente defender a Coréia do Norte – o nome verdadeiro é República Democrática Popular da Coréia – dos ataques do imperialismo e destacar as conquistas produzidas pela expropriação da burguesia. Os trotskistas que simplesmente ignoram o país asiático ou chamam de “capitalismo de estado” ou “monarquia stalinista” além de demonstrarem total incapacidade de apreensão da realidade estão fugindo do legado teórico e político de Trotski.


Antes de prosseguirmos, faz-se necessário avisar o leitor ou leitora de duas limitações do texto. A primeira refere-se a seu próprio objetivo. O autor dessas linhas não considera uma operação teórica legitima usar o conceito forjado para a realidade soviética em todo e qualquer país em transição socialista no século XX. Trotski elaborou-o tomando por base uma formação social e conjuntura geopolítica específicas. Usar o conceito de Estado operário burocratizado para Cuba, por exemplo, é uma deturpação da obra do primeiro líder do Exército Vermelho. Mas a tradição trotskista, no Brasil e no mundo, passou a adotar sem muito rigor teórico esse conceito para “analisar” tudo ao ponto de transformá-lo até em um xingamento. Vamos seguir a metodologia consagrada pela tradição trotskista sem entrar nos seus problemas concretos.


A segunda grande limitação refere-se ao conceito de Estado operário burocratizado e à formação social da Coréia Popular. Não nos aprofundaremos no debate sobre as várias visões do conceito de Trotski – muito menos suas falhas e limitações – e tão pouco sobre a formação social da Coréia Popular. O texto ficaria demasiado grande e nosso objetivo é torná-lo o mais acessível possível. 

O conceito de Estado Operário burocratizado.


Leon Trotski foi um dos grandes líderes da Revolução de Outubro. O Partido Bolchevique, dirigente da revolução, tinha em seu seio enorme diversidade de quadros teóricos e políticos, sem coesão nas questões táticas e estratégicas da construção do socialismo (embora a concepção de socialismo fosse bem parecida). Com os efeitos da Guerra Civil sobre a estrutura do partido – reduzindo os debates democráticos, a renovação dos quadros, a ascensão de jovens a postos de comando, etc. – e a morte de Lênin, inicia-se uma forte disputa pela poder que, em última instância, significava qual projeto político conduziria a construção do socialismo.


Simplificando, Trotski foi o principal nome de um grupo conhecido como “Oposição de Esquerda”, e Stálin e Bukharin (que depois romperá com Stálin) os líderes da maioria. O grupo de Trotski é derrotado, ele perde seus cargos na Internacional Comunista, no Partido e depois é exilado da União Soviética. Como teórico, Trotski produz uma vasta obra para defender seu projeto político em contraste com o de Stálin e Bukharin (e centra suas baterias em Stálin quando Bukharin passa à oposição).


Trotski defende que a derrota da revolução mundial – principalmente na Alemanha -, o baixo desenvolvimento das forças produtivas na Rússia, o isolamento do país e a necessidade de normas de repartição burguesas para desenvolver as forças produtivas criaram as condições para que uma parte do aparato do partido se colocasse no comando do poder político impedindo que a classe operária e os camponeses guiassem o poder. Os novos executores do poder passaram a ser chamados de burocracia. A burocracia oprime politicamente o proletariado, mas não tem intenções de restaurar as relações de produção capitalistas porque a economia planificada, o monopólio do comércio exterior e a propriedade pública dos meios de produção são a base do seu domínio e do caráter operário do Estado.

Para Trotski, mesmo o proletariado deixando de exercer o poder político, que está nas mãos da burocracia, o Estado continua operário por causa das relações de produção vigentes. Leon afirma que o caráter de um estado “define-se pelo tipo de propriedade que ele defende”. Chega ao extremo de desconsiderar a forma política na análise do Estado:

“(...) Em conseqüência, a natureza de classe do Estado define-se, não por suas formas políticas, mas sim por seu conteúdo social, quer dizer pelo caráter das formas de propriedade e das relações de produção que o Estado em questão protege e defende.” (citações sem paginação são tiradas de textos da internet)


No seu clássico “A Revolução Traída”, escreve que “A nacionalização do solo, dos meios de produção, dos transportes e de troca e também o monopólio do comércio exterior formam as bases da sociedade soviética. E esta aquisição da revolução proletária define aos nossos olhos a U.R.S.S como um estado operário” (1980, p. 120). Portando, o Estado continua operário por sua base econômica – suas relações de produção. Contudo, é degenerado por causa do domínio político da burocracia. A principal expressão desse domínio político são as normas de repartição do produto social: a burocracia é privilegiada frente ao proletariado, usufruindo de bens de consumo e serviços melhores.


O domínio da burocracia gera um impasse histórico: ela não restaura as relações de produção capitalistas, mas ao mesmo tempo impede que se complete a transição socialista. Isso é importante: para Trotski um Estado operário burocratizado não é socialista, mas um regime de transição. A concretização do socialismo depende da revolução política que derrubará a burocracia do poder e completará a transição que, no geral, Trotski identifica como o exponencial crescimento das forças produtivas ao ponto que as normas de repartição do produto social conseguissem satisfazer todas as necessidades materiais e espirituais [culturais] dos trabalhadores e trabalhadoras.

Sintetizando sua tese, diz Trotski sobre a formação social soviética:

A U.R.S.S é uma sociedade intermediária entre o capitalismo e o socialismo, no qual: a) as forças produtivas são ainda insuficientes para conferir à propriedade de Estado um caráter socialista; b) a propensão para acumulação primitiva, nascida da necessidade, manifesta-se através de todos os poros da economia planificada; c) as normas de repartição, de natureza burguesa, se encontram na base de diferenciação social; d) o desenvolvimento econômico, melhorando lentamente a condição dos trabalhadores, contribui para a rápida formação de uma camada de privilegiados; e) a burocracia, explorando os antagonismos sociais, tornou-se uma casta incontrolável, estranha ao socialismo; f) a revolução social, traída pelo partido governante, vive ainda nas relações de propriedade e na consciência dos trabalhadores; g) a evolução das contradições acumuladas pode conduzir ao socialismo ou fazer recusar a sociedade para o capitalismo; h) a contra-revolução em marcha para o capitalismo deverá quebrar a resistência dos operários; i) os operários, dirigindo-se para o socialismo, deverão derrubar a burocracia (1980, p. 176).


Quando criou a Quarta Internacional, Trotski enfrentou resistências de seus colaboradores que defendiam que a URSS não seria mais um Estado operário e passaram a usar o termo “capitalismo de estado”, e apresentar a burocracia como uma nova classe dominante (ideia bastante em voga na atualidade). Trotski é taxativo ao destacar que essas teorias “não resistem visivelmente à crítica”, pois a “burocracia não tem títulos nem ações” e não tem “direitos particulares em matéria de propriedade”; afinal “o funcionário não pode transmitir aos seus herdeiros o seu direito à exploração do Estado” (1980, p.173) – A Revolução Traída tem uma seção dedicada apenas a refutar a categoria de capitalismo de estado na análise da URSS.

O sentido político de sua teorização é bem claro: disputar os rumos da condução política na União Soviética e no Movimento Comunista, e não começar um novo movimento comunista. Por isso ataca impiedosamente seus colaboradores que defendem que a URSS não é mais um Estado operário:

Uma forma de pensar "puramente" normativa, idealista e ultimatista quer construir o mundo à sua imagem e desfazer-se simplesmente dos fenômenos de que não gosta. Só os sectários, quer dizer, a gente que é revolucionária só na sua própria imaginação, se deixam guiar por puras normas ideais. Dizem: não gostamos destes sindicatos, não os defendemos. E cada vez prometem voltar a começar a história a partir do zero. Edificação, isso sim, um Estado operário quando o bom deus lhes ponha entre as mãos um partido ideal e sindicatos ideais. Esperando este feliz momento, fazem todos os trejeitos que podem frente à realidade. Um vigoroso trejeito é a mais alta expressão do "revolucionário" sectário.


E afirma que a revolução política no Estado operário burocratizado torna mais “fácil” construir o socialismo que a revolução social no regime capitalista:

Se o proletariado expulsa a tempo a burocracia soviética, encentrará, no dia seguinte ao da sua vitória, os meios de produção nacionalizados e os elementos essenciais da economia planificada. Isto significa que não terá que voltar a começar do zero. Enorme vantagem!

Com a aproximação da guerra, o debate sobre papel da Quarta Internacional na defesa ou não da União Soviética se acirrava. Vários elementos vacilavam na defesa da União Soviética, mas Trotski não apenas defendia o caráter operário do Estado, como também que seus seguidores defendessem incansavelmente o Estado soviético no caso de uma guerra imperialista:

Nessa medida, Stálin defende a propriedade nacionalizada contra o imperialismo e contra as camadas demasiado impacientes e ávidas da burocracia. No entanto ele realiza esta defesa por métodos que preparam o desmoronamento geral da sociedade soviética. É por isso que é preciso derrubar a camarilha stalinista. Mas é o proletariado revolucionário que deve derrubá-la. Não pode confiar esta tarefa aos imperialistas. O proletariado defende a URSS contra o imperialismo, apesar de Stalin. [...]

Afinal, mesmo com o domínio da burocracia, a classe operária ainda é classe dirigente (ainda que o caráter dirigente seja deformado pelas condições objetivas internas e externas)

Como nossa consciência política poderia deixar de se indignar — dizem os ultra-esquerdistas — quando nos querem obrigar a crer que na URSS, sob o regime de Stalin, o proletariado é a classe dirigente? Sob uma forma tão abstrata, semelhante afirmação é, efetivamente, suscetível de provocar indignação. Mas o problema é que as categorias abstratas, necessárias no processo de análise, não são totalmente convenientes para síntese que exige o maior caráter concreto possível. O proletariado soviético constitui a classe dirigente em um país atrasado, onde os bens materiais de primeira necessidade são produzidos em quantidade insuficiente. O proletariado da URSS domina em um país que não representa mais do que um doze avos da humanidade; o imperialismo domina os outros onze doze avos. A dominação do proletariado, já deformada pelo atraso e pobreza do país, está ainda duas ou três vezes mais deformada pela pressão do imperialismo mundial.

Para terminarmos, é mister destacar que a burocracia, ao ter mantido a propriedade pública dos meios de produção, o monopólio do comércio exterior e a planificação da economia, atuou historicamente para mostrar na prática a superioridade do socialismo frente ao capitalismo mesmo sendo um elemento que impede a concretização da transição socialista (a contradição é de Trotski e não minha). Diz Leon:

O mundo burguês começou por fingir que não via êxitos econômicos do regime dos sovietes, que são a prova experimental da viabilidade dos métodos socialistas. Perante a marcha, sem precedentes na História, do desenvolvimento industrial, os sábios economistas a serviço do capital ainda tentam muitas vezes manter profundo silêncio, ou então se limitam a relembrar “a excessiva exploração” dos camponeses. Perdem assim uma excelente ocasião de nos explicar por que razão a exploração desenfreada dos camponeses, na China, no Japão e na Índia, nunca provocou um desenvolvimento industrial acelerado, nem mesmo em grau diminuto, comparado ao da U.R.S.S (1980, p. 05).


Ante o exposto, podemos concluir que: a) a burocracia garante seu domínio na esfera política (superestrutura) e no controle das normas de repartição do produto social, contudo, seu domínio não retira o caráter operário do Estado por causa das relações de produção que constituem a base desse Estado; b) a burocracia impede a concretização da transição socialista ao mesmo tempo em que impede a restauração da propriedade privada dos meios de produção; c) o proletariado vitorioso com a revolução política em um Estado operário burocratizado terá mais “facilidades” na construção do socialismo; d) é imprescindível defender o Estado operário burocratizado frente aos ataques do imperialismo; se este derrotar a burocracia isso significará uma derrota do proletariado nacional e mundial.


As relações de produção na formação social da Coréia Popular.


Nessa seção vamos expor de forma breve uma caracterização da formação social coreana. O foco, é claro, serão as relações de produção. A República Democrática Popular da Coréia surgiu como produto de uma revolução anticolonial e socialista no bojo da resistência ao imperialismo japonês durante a segunda guerra mundial. A Coréia tinha histórico milenar de nação soberana, mas ao final do século XIX devido às diferenças de poder econômico e militar o Japão conseguiu dominar o país e torná-lo sua colônia. Os japoneses aplicaram todos os brutais métodos da prática colonial: estupros coletivos, assassinatos de milhões de pessoas, destruição a economia e sua transformação para adequá-la às necessidades do colonizador, proibição da cultura nacional coreana, práticas de escravidão, campos de trabalho forçados, expropriação de recursos naturais, etc. O processo de libertação coreano é bem sintetizado nesse trecho:

A península coreana, por seu status colonial, sua situação geopolítica e pelo súbito colapso dos japoneses, viria a constituir uma região altamente sensível no desencadeamento da Guerra Fria, diretamente vinculada ao jogo das grandes potências. Ocorreu a confluência da clivagem sociopolítica interna com a partilha geográfica do território entre os Estados Unidos e a União Soviética, na altura do Paralelo 38°. A resistência antijaponesa havia estabelecido comitês populares imediatamente após a rendição do Japão, mas ao sul da linha demarcatória os EUA mantiveram as unidades pró-japonesas em funções de polícia, dissolvendo os comitês, que seguiram existindo apenas na porção setentrional. Os norte-americanos apoiavam um grupo de políticos conservadores colaboracionistas, agrupados sob o Partido Democrático Coreano, e os nacionalistas exilados, liderados por Syngman Rhee, que retornou dos EUA, tendo vivido exilado 37 dos seus 60 anos. Syngman Rhee e Kim Il Sung logo se tornaram as figuras políticas dominantes nas duas zonas. O primeiro havia vivido nos EUA por quase duas décadas, e tinha convicções antijaponesas e anticomunistas. O segundo era o herói da resistência armada na Manchúria, tinha convicções nacionalistas e comunistas, além da confiança dos soviéticos. Ainda que ambos contassem com o apoio de uma superpotência, não eram personalidades maleáveis, por vezes forçando “sua superpotência” a levar em conta sua vontade. Ao contrário de Rhee, porém, que fora escolhido a dedo pelos EUA, Kim Il Sung emergiu como principal liderança comunista dos guerrilheiros manchurianos, os quais se converteriam no núcleo da hierarquia norte-coreana, demonstrando-lhe extrema lealdade até o fim de suas vidas [1]


Com Kim Il Sung liderando o processo revolucionário, os coreanos lutavam para completar seu processo de descolonização, mas o imperialismo estadunidense estava disposto a parar o avanço do comunismo a todo custo e iniciou a guerra contra a Coréia. Esse ponto é importante. A chama “Guerra da Coréia” não foi um confronto entre Coréia do Norte e Coréia do Sul, mas entre os comunistas e nacionalistas coreanos contra os Estados Unidos, tentando impedir que o imperialismo controlasse a região.


A guerra devastou o país (que já estava devastado por causa da Segunda Guerra) e tirou 3 milhões de vidas coreanas. Contudo, os EUA não conseguiram seu objetivo e os comunistas lograram manter uma parte do território da península coreana livre do imperialismo, marcado pelo paralelo 38°, criando a República Democrática Popular da Coréia.

A criação da Coréia Popular não foi uma obra da União Soviética e o novo país socialista nunca foi um “satélite” soviético. Como bem coloca Cumings:

A Coreia do Norte não foi simplesmente um satélite soviético nos anos 1940, mas evoluiu de um regime de coalizão, estruturado nos amplamente difundidos comitês populares, durante 1945-1946, para um regime de relativo domínio soviético durante 1947-1948, mas desenvolvendo logo importantes laços com a China em 1949, o que permitiu à RPDC manobrar, desde então, entre os dois gigantes comunistas. (Visentini apud Cumings, 1997, p.249)


A partir das suas condições concretas – e não de delírios eurocêntricos dos “marxistas puros” – a Coréia Popular começou sua construção socialista tendo como base sua cultura milenar e instituições da época imperial:

Nesse sentido, a RPDC constitui um caso original dentre os regimes marxista-leninistas do pós-guerra. Em última instância, houve uma profunda reestruturação das práticas políticas coreanas tradicionais da época pré-colonial, resgatando desde o papel extraordinário do líder até sua ideologia de autossuficiência e sua política exterior de isolacionismo. Portanto, carece de fundamento histórico de que se tratava de uma réplica asiática do “stalinismo” (mesma fonte da nota 1).


A construção socialista na Coréia guarda traços semelhantes com a União Soviética. A forma de produção é a planificação centralizada. As unidades produtivas estão unidas por um plano econômico formulado pelo poder político central com base em formas sistemáticas de consulta às diversas bases (sindicatos, movimentos sociais, associações científicas, comitês de bairro, etc.). Cada unidade produtiva articulada dentro dos limites do plano econômico sua produtividade, política de investimentos, melhora na produção, aquisição de insumos, etc. Os números atuais afirmam que cerca de 70% da economia da Coréia Popular é planificada, ou seja, é conduzida de forma direta pelo poder estatal através de empresas públicas. Em todos os ramos estratégicos da economia – infraestrutura, transporte, produção de máquinas e equipamentos, tecnologia militar, construção civil, medicina e biotecnologia, etc. – temos a dominância do setor público dos meios de produção [2].


Cerca de 30% da economia é constituída de mercado privado. Mas é fundamental pontuar algumas coisas sobre esse mercado privado. A agricultura na Coréia é formada por grandes fazendas coletivas – planificadas – e por pequenos lotes de agricultura familiar individual ou em cooperativas [3].  Esses lotes de agricultura familiar estão entre o componente da “economia privada”, mas é sempre importante destacar que estão submergidas ao plano econômico sob forma de planificação indicativa. O Estado cria programas específicos de aquisição da produção, linha de crédito especial, controla o nível dos preços no mercado para manter a remuneração alta e garantir o nível de vida dos agricultores (impedindo grandes disparidades entre campo e cidade em nível de renda) e ainda auxilia com tecnologia agrícola (e os agricultores demonstram ter uma forte consciência política do seu papel estratégico na economia para garantir a soberania alimentar do país) [4].


O “resto” da economia privada é formado por pequenos serviços e comércio. Principalmente a partir dos anos 2000 esse setor passou a prosperar na Coréia através do comércio com a fronteira chinesa. Pequenos comércios e estabelecimentos de serviços (como bares e restaurantes) já são comuns na paisagem coreana [5]. A linha do governo, contudo, é manter esse setor privado dentro dos limites da microeconomia, impedir um processo de acumulação que crie propriedades maiores e regular o setor. Paulo Visentini, em entrevista ao Brasil de Fato, retrata que “mas quando houve algumas medidas econômicas que o governo tentou controlar esses mercados privados houve passeatas, manifestações de rua, as pessoas saíram e a polícia não reprimiu, e o governo recuou dessas medidas” [6]. Ou seja, esse mercado privado vem garantindo um suprimento regular e de melhor qualidade de bens de consumo vindos da China sem afetar o caráter predominantemente público dos meios de produção, mas ao mesmo tempo, existe uma tensão sobre até onde é possível expandir esse setor privado.

A Coréia Popular também tem investimentos estrangeiros em sua economia. Existem zonas industriais em conjunto com a Coréia do Sul nas regiões de fronteira e uma Lei de Investimentos Estrangeiros que permite a entrada de capitais no país, mas sobre uma série de restrições e submissão ao plano econômico e interesses nacionais.  O artigo 3 da Lei de Investimentos Estrangeiros diz que [7]:

Os investidores estrangeiros podem estabelecer e operar empresas nas áreas de eletrônica, automação, construção de máquinas, processamento de alimentos, processamento de vestuário, necessidade diárias, transporte, serviços e outros. Não se estabelecerão empresas que são prejudiciais para a segurança nacional ou desatualizadas a partir do ponto de vista técnico.

O artigo 5 afirma: “Os investidores estrangeiros devem respeitar e observar estritamente as leis e regulamentos da economia nacional da RPDC.” E os artigos 8, 9 e 10, os principais, dizem:

- O órgão de gestão de investimentos deve analisar o requerimento para a criação de uma empresa dentro de 30 dias a partir do recebimento da mesma e aprovar ou rejeitá-la. Um documento de aprovação deve ser emitido em caso de aprovação, ou em caso de rejeição, um aviso de rejeição enviado com a razão exposta.
- Um investidor estrangeiro deverá, no prazo de 30 dias após a obtenção da aprovação , cadastrar a empresa com o comitê da província (ou município diretamente sob a autoridade central) ou o órgão de gerenciamento da zona econômica especial. Registro de impostos e serviço aduaneiro são feitos dentro de 20 dias de inscrição com o comitê popular de província (ou município diretamente sob a autoridade central) ou o órgão de gerenciamento da zona econômica especial.
- Uma empresa inteiramente de propriedade estrangeira pode, mediante a aprovação do órgão de gestão de investimentos, estabelecer sucursais , escritórios de representação ou agências , dentro ou fora do território da RPDC.


Contudo, a presença de capital estrangeiro não é forte na Coréia. Os principais fatores para isso são o excesso de regulação – do ponto de vista do capital, é claro – e o bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem ao país.


Para complementar o quadro econômico é necessário entrar no papel das Forças Armadas na economia. Com a derrubada da União Soviética, a Coréia perde seu principal parceiro econômico. Combinado a uma série de desastres naturais, criou-se a esperança no imperialismo de que o país surgido com a revolução liderada por Kim Il Sung iria sucumbir como o Leste Europeu. A Coréia conseguiu resistir, mas pagou um alto preço. Nos anos 90 a população do país passou fome (apenas 15% do território coreano é agricultável) em consequência da combinação de crise econômica mais intensificação dos ataques imperialistas. A liderança investiu pesado em poder militar – sendo o principal símbolo a ambição da bomba atômica – para garantir a soberania do país.

A orientação estratégica que coloca a proeminência do poder militar na defesa da soberania passou a ser chamada de “Política Songun”. O Songun é:

A Política Songun confere ao Exército Revolucionário o papel de força mais importante durante a construção socialista. Segundo os comunistas norte-coreanos o Exército Revolucionário, dirigido pelo Partido, a serviço da classe trabalhadora, é a força mais dotada de consciência ideológica revolucionária. A importância atribuída ao Exército Revolucionário na construção socialista também engloba a participação decisiva e principal desta força na construção econômica do país. Praticamente todas as construções relacionadas à infra-estrutura, por exemplo, são levadas a cabo pelo Exército Popular Revolucionário, principalmente em atividades mais perigosas, como no caso da construção da hidrelétrica de Huichon [8].

Como confirma Paulo Visentini, na já citada entrevista ao Brasil de Fato, “as forças armadas também têm um papel social, de ajudar na hora de construir uma ponte, na época da colheita e também por isso eles tem muito prestígio”. Sintetizando os dados sobre a economia do país:

A imprensa, naturalmente, não traz informações sobre as conquistas sociais do país, atestadas por fontes insuspeitas como o Banco Mundial e o Factbook da agência de inteligência dos EUA, a CIA: 60% da população vive em cidades; 97% da água consumida é tratada; a expectativa de vida é, hoje, 69 anos (era 67 anos em 2001); o acesso ao saneamento chega a 80% dos domicílios, o anafalbetismo é de 1%. A saúde, a educação, os esportes e outros serviços sociais são gratuitos, há moradias para todos. O país tem centrais nucleares, termo e hidroelétricas, produz automóveis, tratores, aço, máquinas diversas, cimento, tecidos, fertilizantes e um grande número de outros produtos industriais. Além do domínio do ciclo do urânio, a Coréia do Norte logrou pôr um satélite em órbita com um foguete construído no próprio país [8].

Ou seja, estamos diante de uma economia planificada, com predominância da propriedade pública dos meios de produção, monopólio do comércio exterior nas mãos do Estado e com altíssimo nível de industrialização e desenvolvimento das forças produtivas e grande bem-estar social. Aliás, vale apena insistir um pouco mais nesse último ponto.

Pier Luigi Cecioni, em entrevista a VICE, publicado pelo site Outras Palavras, afirma sobre a educação do país:

Pelo que eu sei, não há um treinamento que comece tão cedo. Do ensino elementar até o colegial, até onde eu sei, as crianças frequentam a escola somente no período da manhã e estudam várias matérias. Do final da escola elementar até o colegial, durante a tarde, os estudantes podem participar voluntariamente de programas e instituições nos quais podem praticar música, arte, esporte, teatro, etc. Minha impressão é que o treinamento começa a ser muito exigente na universidade: os norte-coreanos são estudantes universitários muito aplicados e sérios. No entanto, não tenho um conhecimento aprofundado sobre o sistema escolar da Coreia do Norte [9].
Paulo Visentini, falando da saúde e educação no país, afiram que:
É totalmente diferente do que no Brasil. O sistema de saúde é parecido com o cubano, ou seja, tem o médico que atende os quarteirões, vai nas casas, cuida de vacinas e então isso impede que se propague doenças e com isso o impacto nos hospitais é bem menor. Como os salários são mais ou menos padronizados há uma abundância de médicos. Então eles também prestam serviços para outros países, como os cubanos. As vezes gratuitamente e as vezes remunerados. No sentido da educação a Coreia do Norte não é diferente da Coreia do Sul. A educação é altamente valorizada, intensiva e um método de avanço social. É uma questão que as pessoas tem que ter consciência, ela é focada na formação moral e política e isso é muito importante. Em um hospital pediátrico, por exemplo, a gente viu que as crianças internadas recebem os professores para aplicar lições e que ela não repita o ano.
Além de garantir serviços de alta qualidade de saúde e educação para todos e todas, a Coréia do Norte, mesmo com todos os problemas econômicos, não tem miséria. O país ainda tem pobreza, mas todos têm casa e não existe nada parecido com favelas e população em situação de rua, crianças sem educação ou atendimento médico, lixo na rua, esgoto a céu aberto, etc. Isso significa – é bem importante destacar isso – que a riqueza socialmente produtiva tem uma destinação predominante para o consumo da maioria da população trabalhadora.


Assim sendo, a base econômica da Coréia Popular a classifica como Estado Operário segundo a apreciação de Trotski. Mas os trotskistas chamariam de um Estado operário burocratizado. Para Trotski, apenas uma revolução política que derrubasse a burocracia garantiria a continuidade do processo de transição socialista no país (estou apenas expondo o argumento de acordo com a lógica de Trotski), mas se o imperialismo tentar restaurar as relações de produção capitalista é necessário que os operários de todo mundo – suas expressões políticas, ou seja, seus partidos – lutem pela soberania do país e pela defesa da economia planificada, propriedade publica dos meios de produção e monopólio do comércio exterior. Ou seja, Leon seria crítico ao grupo dirigente na Coréia Popular, mas defenderia a soberania do país frente ao imperialismo e reafirmaria o caráter operário do Estado. Mas o que fazem as organizações trotskistas no Brasil?


O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados, o PSTU, nunca realizou uma campanha em defesa da soberania do país nem mantém em seu site uma nota política contra os ataques do imperialismo. Chama a Coréia de “caricatura stalinista do socialismo” ou “regime totalitário” [10]. O Partido da Causa Operária, PCO, ao contrário do PSTU, é bem coerente com a teoria de Trotski. Defende a Coréia dos ataques do imperialismo, denuncia a política agressiva dos EUA que mantém quase 30 mil soldados na Coréia do Sul prontos a invadir o país socialista, defende o direito de o país ter armas atômicas e evita caracterizações como “totalitarismo” ou “ditadura stalinista” embora não produza muitas análises sobre o caráter do Estado e da formação social [11].


O Movimento de Esquerda Socialista, o MES, tendência forte dentro do PSOL, em seu site, simplesmente não fala da Coréia do Norte. Não temos nenhuma notícia, nota política, análise ou editorial. É como se o país não existisse. A Esquerda Marxista, EM, tem uma posição próxima do PSTU. Comete o absurdo de classificar a política externa coreana como agressiva e militarista! Chama o Estado de totalitário e dinástico e conseguiu, ao meu ver, produzir a pior frase de todos os textos que consultei “As ameaças do líder norte-coreano, ao invés de ser uma tentativa de resistência a uma investida do imperialismo, são na verdade provocações contrarrevolucionárias que visam desviar e amainar o imenso descontentamento interno do povo norte-coreano frente a uma ameaça externa que a própria burocracia ajuda a engendrar” [12]. A EM diz que devemos defender o país dos ataques do imperialismo, resta saber como defender o país repetindo todos os “argumentos” usados pelos monopólios de mídia mundial.


Podemos dizer, em síntese, que das organizações trotskistas consultadas apenas o PCO mantém uma posição coerente com o legado teórico e político de Trotski frente à Coréia do Norte. O MES simplesmente não toca no assunto e o PSTU e a EM mostraram-se inclinados a servir de linha auxiliar ideológica do imperialismo na demonização da nação coreana, negando-se a qualquer estudo sério sobre o país. Ou seja, os trotskistas precisam ler mais Trotski.



Referência da primeira parte do texto.

Leon Trotski. A Revolução traída. Global Editora, 1980.
Leon Trotski. Um Estado não operário e não burguês. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1937/11/25.htm

Notas.
[1] –http://blog.editoraunesp.com.br/2015/06/no-prelo.html
[2] –https://actualidad.rt.com/search/?q=+Corea+del+norte+econom%C3%ADa&df=&dt=
https://actualidad.rt.com/economia/170954-secretos-corea-norte-mercado-inmobiliario
[3] –http://solidariedadecoreiapopular.blogspot.com.br/2015/07/coreia-popular-inaugura-novas-instalacoes-cooperativa-agricola.html
[4] http://actualidad.rt.com/actualidad/164716-exclusivo-rt-corea-norte-economia-sanciones –
 [5] – http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/05/150512_coreia_norte_economia_pai
[6] – http://www.brasildefato.com.br/node/32481
[7] – http://realismopolitico.com/2014/02/26/lei-da-coreia-do-norte-sobre-empresas-estrangeiras/
[8] – http://www.novacultura.info/#!Coreia-Popular-O-que-%C3%A9-a-Pol%C3%ADtica-Songun/c216e/5570ea5c0cf2e4994fb033d1
[9] – http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/realismo-socialista-contemporaneo-na-coreia-do-norte/
[11] - http://www.pco.org.br/internacional/com-a-perda-do-chefe-da-nacao-a-coreia-do-norte-devera-abrir-as-portas-para-o-capital-estrangeiro/eaaz,e.html

[12] -http://www.marxismo.org.br/content/coreia-do-norte-manobras-belicistas-de-um-regime-agonizante

Um comentário:

  1. O que ofende os trostsquistas é que os dirigentes coreanos são totalmente a favor de Stálin.

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