terça-feira, 20 de outubro de 2015

Zygmunt Bauman não conhece o Brasil

O sociólogo polonês Z. Bauman, famoso por seus livros sobre "modernidade líquida", disse, em sua passagem pelo Brasil, que vivemos um "milagre inacabado", e que os governos do mundo precisam aprender conosco como tirar "22 milhões de pessoas da pobreza", pois estamos reduzindo a desigualdade [social] e no "caminho certo". Bauman, assim como vários "intelectuais" contemporâneos, confunde redução da miséria e pobreza absolutas com redução da desigualdade. Senão vejamos. 
Reduzir a desigualdade significa diminuir a diferença de riquezas entre as diferentes classes da sociedade capitalista, em especial entre as classes trabalhadoras e as classes burguesas, ou seja, significa, por exemplo, que se antes os 10% mais risco de apropriavam de 50% da riqueza e os 10% mais pobre se apropriavam de 5%, os 10% mais ricos passam a se apropriar de 40% e os 10% mais pobres de 15%. Isso só é possível com alterações substantivas nas relações de propriedade (como reforma agrária radical, nacionalização de setores estratégicos e destinação da riqueza produzida para políticas sociais universalizantes, etc.). O que aconteceu no Brasil foi uma redução da miséria e pobreza absolutas com base na ampliação de políticas sociais focalizadas, aumento do salário mínimo acima da inflação (ganhos reais de 50% em todo ciclo petista) e ampliação do crédito (que dilatou o consumo entre as classes trabalhadoras). Essas medidas - ao lado de outras como ampliação do emprego formal - possibilitaram uma redução da pobreza e miséria absolutas, mas, de forma alguma, o seu fim ou a redução das desigualdades. O Brasil hoje é mais concentrador de riqueza e renda que no início do ciclo petista (é claro que para um pobre faz muita diferença viver com 300 ou 800 reais, mas isso não muda a distribuição da riqueza).

Essas políticas foram baseadas numa incomum conjuntura histórica: aumento substancial do preço dos produtos primários que historicamente exportamos (café, carne, minério, soja, etc.) combinado a um ciclo de crédito abundante no mercado internacional. Esse necessário favorável combinado com as políticas acima citadas e a promoção de um tímido ciclo de expansão interna da indústria (como a decisão de reestruturar a indústria naval) possibilitaram essa redução da pobreza e miséria absolutas. Esse cenário já foi radicalmente transformado. Os preços dos produtos primários já não estão mais em um ciclo de alta devido à redução da demanda chinesa (que reduz seu ritmo de crescimento) e a conjuntura internacional do mercado de crédito também foi radicalmente modificada; junte a isso o fato de que os fatores de expansão do mercado interno estão esgotados: a) alto endividamento das famílias; c) retração dos programas sociais focalizados; c) aumento do desemprego, redução dos salários "indiretos" através de ataques a direitos (como o seguro-desemprego) e tendência de redução dos salários reais (justamente devido ao aumento do desemprego que joga os salários para baixo).

O suposto “milagre inacabado” nunca existiu e já acabou! Bauman ao que parece não compreende bem a dinâmica da economia capitalista e não é crítico o suficiente das tendências economicistas expressas nesses dados de superação da pobreza e miséria. Explicando. A metodologia desses dados é unidimensional, isto é, considera apenas o critério de renda e ignora totalmente todos os outros determinantes que compõe a realidade social; ou seja, a partir de uma renda “x” (vamos dizer: 100 dólares) traçasse a linha de pobreza. Acima de “x” (acima de 100 dólares) eu não sou pobre, abaixo de “x” (ou seja, abaixo de 100 dólares) eu sou pobre. Essa “linha da pobreza” desconsidera acesso a serviços públicos, quantidade e qualidade calórica [alimentação], nível de instrução e acesso à cultura, tipo de moradia, tipo, ritmo e condições de trabalho, etc. Em resumo: ela desconsidera tudo a não ser a renda. O faz por partir de uma concepção economicista e liberal: considera que com um nível adequado de renda o mercado é capaz de suprir todas as necessidades materiais e culturais existentes.

Bauman aparentemente não sabe é que o ciclo petista fortaleceu todos os determinantes fundamentais que conformam a histórica brutal concentração de riqueza e renda no país: concentração agrária, monopolização da economia, desnacionalização da economia, dependência econômica (ou seja, domínio do imperialismo sobre nossa economia), estrutura tributária regressiva, destinação prioritária do orçamento público para geração de lucros do capital (com destaque para dívida pública e desonerações fiscais), etc. Justamente por seguir essa linda política, de garantir o lucro dos monopólios e controlar os “pobres” com políticas sociais mínimas, é que os Governos do PT, em especial o programa Bolsa-Família, são tão elogiados por FMI, Banco Mundial e vários estadistas. Reduzir o investimento em seguridade social, saúde, educação, transporte, habitação, reforma agrária e compensar com políticas focalizadoras que consomem uma parte insignificante do orçamento público parece sempre ser uma boa ideia às classes dominantes! Estranho, o correto seria: sintomático, é um intelectual considerado como “crítico” reforçar esse discurso que parece progressista, mas no fundo não passa de uma variante da ideologia neoliberal: o social-liberalismo.


Entrevista completa de Bauman onde ele fala do “milagre inacabado” do Brasil: http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/10/ninguem-alem-do-brasil-repetiu-milagre-de-tirar-22-milhoes-da-pobreza-diz-bauman/

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