sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Das contradições às marchas: quem é o inimigo?

                A classe burguesa pode se manifestar e garantir seus interesses de muitas formas. Através da ideologia, por exemplo, constantemente (im)posta na mídia, no discurso raso ou nas propagandas. Outro modo também de vê-la buscando a garantia dos seus interesses é através de ações objetivas, se utilizando do aparato do Estado como um mero administrador de seus interesses.  

Eduardo Cunha e Dilma

                    Nesse sentido, não há como enxergar Eduardo Cunha e Dilma Roussef de outra forma senão como representantes dos interesses burgueses. Duas faces de uma mesma moeda. Enquanto Eduardo Cunha busca através da Câmara dos Deputados garantir o interesse de empresas (como por exemplo, as empresas de saúde privada) e protagonizar o retrocesso conservador, Dilma Roussef busca garantir o lucro dos bancos (através do ajuste fiscal, cortando verbas principalmente da educação pública), os interesses dos latifundiários (o governo Dilma foi uma vergonha em termos de demarcação de terras) e de outras frações da classe dominante.  



                O Partido dos Trabalhadores optou pelo projeto democrático-popular. Optou por concessão de direitos em nome da governabilidade e pela disputa prioritária do espaço eleitoral, e viu essa disputa virar um fim em si mesma. Optou por um projeto de governo burguês, e não há como esconder que hoje o retrocesso conservador acontece por essa opção de projeto político. À medida que foram feitas várias concessões de direitos e garantia de interesses da burguesia, o governo petista criou um terreno propício para figuras como Eduardo Cunha assumirem a presidência da Câmara dos Deputados.  Optaram por um projeto burguês e entraram em uma contradição tão grande que vemos a base do PT militar ao lado do MST ao mesmo tempo que a presidente tem como Ministra da Agriculta a Kátia Abreu, representante dos interesses dos latifundiários, a mesma que recebeu também o prêmio de “miss motosserra”.



                   Visto isso, é um equívoco entrar no discurso personalista de “Fora Cunha” ou “Fora Dilma”. Não faz sentido enaltecer e participar de marchas governistas com pautas como “Fora Cunha” enquanto o próprio governo de Dilma Roussef busca negociar a sua permanência na presidência da Câmara. Ademais, a saída de qualquer um dos dois não muda o caráter e essência do Estado: burguês. O papel que cumpre Eduardo Cunha e Dilma Roussef pode ser cumprido por qualquer outro, e é no mínimo fazer o jogo da burguesia afirmar o contrário. Esconder o verdadeiro protagonista do retrocesso que vivemos hoje através de pautas como “Fora Cunha” ou “Fora Dilma” é não só um personalismo da pior qualidade, como também retira das costas da burguesia a sua responsabilidade pela construção desse retrocesso. 



             Outro exemplo claro da contradição desse projeto de governo com os discursos de grupos governistas, é vê-los organizando marchas como a “Marcha do Empoderamento Crespo”. O governo petista, o mesmo que tem um governador que chama os policiais militares que protagonizaram a chacina do Cabula de “artilheiros”, o mesmo que promove a maior militarização da vida social desde a ditadura (vide a criação da Força Nacional de Segurança), o mesmo que promoveu a ocupação das periferias do Rio de Janeiro pelas Forças Armadas, organiza a “Marcha do Orgulho Crespo” com participação de deputados e vereadores que se mantiveram em silêncio quando do massacre no Cabula, se mantiveram coniventes com o massacre da juventude negra.


Policial da UPP intimidando crianças no Rio de Janeiro

                    Que empoderamento é esse que sugere os governistas? Que empoderamento é esse que esquece a ocupação violenta das periferias do Rio de Janeiro pelas Forças Armadas? Que empoderamento é esse que esquece o genocídio que promove a Força Nacional de Segurança Pública frente às comunidades quilombolas de todo o Brasil? Que empoderamento é esse que esquece que a Polícia Militar da Bahia promove diariamente o genocídio do povo negro nas periferias de Salvador, com aprovação do governador Rui Costa? Que empoderamento é esse que eles sugerem enquanto o governo corta verba de universidades públicas (a nível federal e estadual) e prefere investir no ensino privado (para garantir os lucros da Kroton/Anhanguera), prejudicando milhões de pretos e pobres que não podem ter acesso ao ensino pago? 



                       Por fim, é preciso entender que a luta contra o Estado burguês não pode passar por aqueles que se beneficiam dele, tão pouco por aqueles que insistem em esconder o nome dele e dos representantes de seus interesses enquanto levantam as suas bandeiras (seja pelo povo preto ou pelas mulheres).  Só o fim do Estado burguês pode significar de fato um avanço para o povo preto, para as mulheres, e por fim, para a classe trabalhadora no geral. As contradições governistas são elementos motores para o avanço conservador, e por isso, os governistas não são nossos aliados. Nossa luta deve ser pautada contra aquela que é a verdadeira protagonista de todos os ataques contra a classe trabalhadora, desde o ajuste fiscal, ao genocídio do povo negro: a classe burguesa. Só a luta muda a vida. 

Alex Agra é militante da União da Juventude Comunista (UJC) e estudante de Ciências Sociais da UFBA.

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