segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"Extremismo religioso", "fascismo islâmico"?



Mais um atentado supostamente realizado por grupos terroristas "fundamentalistas" aconteceu na França (digo supostamente porque, por exemplo, tempos atrás, pensávamos que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa...). O "Estado islâmico" assumiu a autoria dos atentados. A propaganda ideológica mundial terá quatro raios de ação centrais: a) usar um discurso do medo para fortalecer o poder repressivo do Estado [burguês] e reduzir as escassas "liberdades democráticas"; b) criar uma narrativa da "civilização ocidental" que é ameaçada pelos bárbaros árabes e islâmicos; c) estimular uma visão de que só com "intervenções humanitárias" das potências imperialistas é possível acabar com o "terror" (tenho certeza que isso será usado para justificar mais intervenções militares na Síria); d) colocar a culpa do atentado no "fascismo islâmico" e no "extremismo religioso", reforçando a demonização do islamismo. 

A narrativa do fundamentalismo religioso como culpado pelo terrorismo é abraçada até por sujeitos de esquerda. Ela é de um reducionismo atroz. Vamos pegar o exemplo do Estado Islâmico. Na região do Norte da África e Oriente médio tínhamos um sistema de estados mais ou menos estruturado. As potências imperialistas, em especial, mas não só, os EUA, começam um amplo programa de recrutamento, treinamento, apoio logístico com armas, dinheiro, informações, etc. Em países como Líbia, Síria, Irã, Líbano, etc. esses mercenários treinados pelo imperialismo em combinação com ações secretas da CIA e ações militares abertas da OTAN praticam uma desestabilização geral do sistema interestatal da região (combinado com a já existente desestrutura causada pela invasão no Iraque e Afeganistão). A destruição da ordem anterior cria vácuos de poder que são ocupados parcialmente por esses grupos - digo parcialmente pois, na Líbia, por exemplo, a maioria dos poços de petróleo e gás natural são controlados por monopólios transnacionais defendidos por milícias privadas. 

A própria França vítima dos atentados teve seu Estado-nacional patrocinando - com treinamento, armas, apoio logístico, etc. - os mercenários na Síria e na Líbia. A França é uma das potências neocoloniais que contribuíram para destruir o governo do coronel Kadafi e ficar com os espólios da guerra. Ou seja, existe uma rede internacional de recrutamento, treinamento, apoio material de todo tipo, suporte diplomático, geopolítico e militar (a OTAN destruiu a força aérea Líbia para facilitar o trabalho dos mercenários) aos grupos paramilitares que são usados como instrumentos de operações de dominação neocolonialista pelos Estados capitalistas mais poderosos do mundo. Todo esse processo é REVESTIDO de uma APARÊNCIA de fanatismo religioso. Tomando essa base os monopólios de mídia, universidades, cinema, etc. criaram uma inversão da realidade - como toda ideologia - e colocam a aparência do fenômeno como se fosse sua essência. Fanatismo religioso nunca garantiu armamento de ponta e suprimentos abundantes de dinheiro para ninguém, por exemplo. Enfim, não existe "fascismo islâmico" e a essência do processo histórico é o imperialismo diversificando suas forças de ação político-militar dado às dificuldades políticas de uso direto das Forças Armadas - dificuldades essas que esse tipo de atentado reduz.

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