domingo, 1 de novembro de 2015

O "sectarismo do KKE" reavaliado



Faixa da PAME chamando para Greve Geral! 
A Grécia saiu de moda. Alguns meses atrás, principalmente nos primeiros três meses de governo do Syriza, o pequeno país helênico era o centro das atenções mundiais e vários setores da esquerda brasileira disputavam os sentidos da interpretação do processo político grego. Os setores que viram no Syriza o paraíso de mil anos – principalmente o campo democrático-popular - simplesmente pararam de falar da questão; erraram, decepcionaram-se, mas não tentam fazer autocrítica (ao menos pública) e avaliar porque se equivocaram em sua análise. Durante o período de "moda grega” era lugar comum chamar o Partido comunista do país, o KKE, de sectário e esquerdista. O KKE, por não aliar-se com o Syriza, impediria a união das forças de esquerda anti-austeridade. Todos os nomes importantes do PSOL que participaram desse debate, por exemplo, faziam questão de criticar o KKE de forma dura e até hostil por seu “sectarismo”.

Diferente da maioria da esquerda brasileira, desapegada a sentimentos de autocrítica e esforçada em apagar seu passado recente, muitos militantes continuaram estudando e acompanhando o processo político na Grécia. Eu sou um deles - afinal, minha organização, a UJC, tem relações orgânicas de solidariedade com os comunistas gregos do KKE. À luz dos últimos fatos me parece que podemos avaliar melhor as criticas de sectarismo dirigidas ao KKE pelos agora ex-defensores do Syriza.

O KKE considerava que o objetivo do Syriza , quando eleito, era gerir uma “austeridade mais humana” para garantir a legitimidade do capitalismo. Ou seja, o partido seria uma ala esquerda do bloco de partidos da ordem burguesa. Mesmo tendo uma interessante base eleitoral e representando, na consciência das massas, uma alternativa ao ajuste neoliberal da Troika, o KKE avaliou que o Syriza trairia essa base de massas mostrando a verdadeira face do seu programa como um gestor do capital. Os comunistas decidiram não compor com o Syriza, mas nunca deixaram de disputar a base social que nutria ilusões com o partido. Aqui começa o ponto interessante. No Brasil, depois de anos de domínio do PT e refluxo das lutas populares, a maioria dos setores da esquerda, ao que parece, acham que disputar uma base significa realizar acordos de cúpula com os dirigentes de outra organização. Mais. Significa entrar no governo para disputar a base, pois, negar-se a entrar no governo seria uma forma de furtar-se a realizar a disputa. Logo, na visão desses “críticos”, o KKE tomava uma postura sectária, isolacionista, ultraesquerdista.

Poucos pararam para realizar uma rápida pesquisa sobre as ações de massa que o partido empreendia para conquistar a base iludida do Syriza. Pois bem, enquanto o Syriza mostrava sua verdadeira face de gerente da austeridade, a esquerda do Syriza entrava em falência por sua total impotência nas ruas e nas hostes do governo e o Antarsya demonstra não ser uma alternativa, o KKE foi um único partido de esquerda que nas últimas eleições não encolheu e consolida-se como principal aglutinador do bloco popular de luta revolucionário anti-austeridade.

A PAME, central sindical dirigida pelo KKE, convocou uma jornada de lutas para o dia 22 de outubro. A jornada teve adesão massiva e serve de preparação para a greve geral de 12 de novembro. A jornada de lutas do dia 22 contou com atos em 52 cidades gregas e aglutinou mais de 600 sindicatos de diversas categorias proletárias (incluindo todos os setores da economia: indústria, comércio, agricultura e serviços). Para realizar a greve geral do dia 12 de novembro, os comunistas, através da PAME, vem procurando articular um programa de ações comuns com vários movimentos e categorias proletárias (inclusive as que não compõem a PAME). A Frente Militante dos Camponeses gregos decidiu intensificar suas lutas e construir a greve geral do dia 12 [1]; A Frente Anti-monopolista dos Pequenos Comerciantes, Artesãos e Auto-empregados da Grécia (P.A.S.E.V.E) também aderiu à greve geral e garantiu que suas lojas serão fechadas no dia 12 [2]; os marinheiros da Marinha mercante grega, um dos setores mais importantes da economia, também vão parar [3].

Notem que interessante. A PAME – dirigida pelo KKE – conseguiu mobilizar desde pequenos agricultores até pequenos comerciantes passando por todos os principais setores do proletariado. Vale apena citar o número de sindicatos e federações que responderam ao apelo do PAME pela greve geral do dia 12:

12 Federações de Sindicatos (pensionistas, gráficos, construção civil, contabilistas, federação de mulheres, artistas, Têxteis, Administração local, Administração central, Administração regional, Indústria Farmacêutica), centenas de sindicatos e secções sindicais (da construção civil cerca de 40, transportes 10, Indústria Farmacêutica 8, Indústria engarrafadora 18, Têxteis 5, Turismo 21, Educação 15, Ensino privado 5, Saúde privada 7, Saúde Pública 17, Metalurgia 12, Marinha Mercante 3, Administração local 34, Administração Regional/Central 14, Industria do Papel 9, Comércio e serviços 54, Telecomunicações 7, Industria Química 3, Energia 2, Correios 2, Artistas, Contabilistas e Bancários com um cada), 80 associações de pensionistas, 104 associações de mulheres, 47 associações de pequenos comerciantes e auto-empregados, 36 associações de estudantes e 14 associações de camponeses [4]

Acho que não é necessário dizer que esse nível de mobilização necessita de um amplo e prévio trabalho de base e uma confiança de todas essas entidades representativas na coerência e no programa político do Partido Comunista Grego e da PAME. O KKE, que poucos dias atrás liderou uma ocupação no ministério do trabalho grego [5], vem conseguindo tudo isso sem fazer alianças com a “Unidade Popular(a moribunda esquerda do Syriza) ou o Antarsya. Os poucos na esquerda brasileira que ainda comentam sobre a Grécia evitam tratar do protagonismo do KKE nas lutas populares. Isso significaria, para eles, ter que admitir graves erros de análise. Como uma organização chamada de sectária por meses consegue ser o polo aglutinador de todas essas entidades e organizações? Para compreender isso nossas organizações e intelectuais ex-Syriza teriam que realizar uma profunda autocrítica sobre sua concepção de aliança e disputa pela base. Sabemos que isso não será feito. O importante é destacar que as acusações de sectário e isolacionista contra o KKE não passam de mero delírio – assim como as esperanças contra o Syriza.

[4] –https://peloantimperialismo.wordpress.com/2015/10/22/enormes-manifestacoes-cidades-de-toda-a-grecia-na-grande-jornada-de-luta-de-22-de-outubro-de-2015/

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