terça-feira, 3 de novembro de 2015

Resposta ao deputado Jean Wyllys


                Por:Alex Dancini - militante, professor e residente na Venezuela desde abril.

           Jean Wylys, o deputado do PSOL que tem se destacado em seu enfrentamento aos fascistas do Congresso, escreveu um texto com a finalidade de analisar a atual situação política da Venezuela. Para isso, utilizou-se de um vídeo de 57 segundos. No vídeo, Maduro diz que, independentemente dos resultados de 6 de dezembro, ele continuará governando com o povo, em seu governo cívico-militar. Para quem entende o mínimo do processo bolivariano na Venezuela sabe que o governo cívico-militar foi uma estratégia de Chávez, um militar, que optou por articular o poder militar com o poder civil. Com todos os limites que essa tática possa apresentar, é impensável que hoje, na Venezuela, a massa pobre seja atacada pelo exército, como ocorreu no Caracazo de 1989. Naquela oportunidade, ao mesmo tempo em que o presidente Carlos Andrés Perez implementava os ajustes requerido pelo FMI e Banco Mundial, elevando os preços a níveis a que a população pobre não podia pagar nem seu transporte para o trabalho, os trabalhadores, os mais pobres, deram-se conta de que não haveria como comprar comida e começaram os saques aos supermercados. A exército "desceu" para a ruas e subiu os "cerros" (bairros aonde vivem a população mais pobre de Caracas), matando 6 mil pessoas, a maioria, até hoje, sem o reconhecimento do corpo, porque o governo as enterrava numa vala comum alá Colômbia.

O Caracazo dividiu politicamente a Venezuela. Chávez, até então um nacionalista, surgiu como principal liderança de um país comandado por meia dúzia de famílias, acomunadas com as petroleiras estadunidenses, cuja atitude principal era vender a soberania de um país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo. A história de Chávez, todos conhecem. 


O que parece que o deputado Wylys não sabe é que o chavismo tem implementado reformas sociais e políticas profundas na Venezuela. O grau de poder da burguesia venezuelana é muito parecido com o que tem as burguesias dos demais países latinos-americanos. Imagine uma reforma educacional que erradicasse o analfabetismo; uma reforma agrária que batesse de frente com os latifundiários; uma reforma universitária que mais que triplicou a participação da juventude em Universidades PÚBLICAS; o financiamento de cerca de 60% da renda nacional petroleira em programas sociais. A história da Venezuela jamais será a mesma depois de Chávez e da Revolução Bolivariana. Esta afirmação pode parecer fanatismo, mas, para mim, que tenho conversado com as gentes dos "cerros", trata-se, apenas, de uma constatação. 

A corrupção é uma chaga aberta no processo revolucionário bolivariano e, talvez, seja um dos principais obstáculos para radicalizar algumas medidas políticas e econômicas. O governo chavista é composto por revolucionários, por liberais, por social-democratas e, por certo, por conservadores, ainda que seja uma pequena minoria. Por isso, a revolução bolivariana, no âmbito estatal, chegou ao seu limite. Ou as massas tomam o Estado dessas castas corruptas e reformistas ou a revolução se acaba. 

O que Wyks não percebe é que todos os seus argumentos têm uma fonte duvidosa. Wylys parece que nasceu ontem ou, em outros termos, deve ter tido uma formação cultural completamente isenta da tradição latino-americana.

O deputado analisa o momento atual venezuelano sem citar, em nenhum momento, a constante intervenção imperialista estadunidense. Wylys considera que isso é um recurso retórico de Maduro. Ora Wylys, faltou-lhe um pouco de história. Faltou-lhe também conhecer o golpe de estado de 2002, que por pouco não retirou Chávez do poder. Uma busca descomprometida no Youtube sobre o assunto pode lhe proporcionar alguns conhecimentos, documentados, da ingerência ianque nesse fato. Portanto, não se trata de retórica, mas de história. 

Wylys defende os estudantes que participaram das Guarimbas, em fevereiro de 2014. Quem eram esses estudantes? Filhos da classe média alta e da burguesia, que se reuniam nos jardins nobres de Caracas e iniciavam seus ataques a prédios públicos e a pessoas inocentes. O saldo dessa barbárie foi de 46 pessoas mortas. Havia pobres em meio aos manifestantes das guarimbas? Não. Mas, Wylys é a favor dos direitos humanos. O deputado defende Leopoldo Lopez, político da direita, que atuou nas guarimbas, chamando as pessoas a destruírem e a matar. Financiou delinquentes para que agissem destrutivamente nas guarimbas. No fim de tudo, o governo descobriu que a própria direita tinha um plano para matar seu compa, Leopoldo Lopez. Ao mostrar a gravação para a família do guarimbeiro, a família foi unânime em concordar com sua prisão, uma vez que o governo prometeu lhe dar a proteção devida. Ou seja, dá para perceber o nível do grupo que Wylys defende. A intenção era matar um dos seus para culpabilizar o governo e desatar o caos, abrindo espaço para a intervenção externa, vulgo, estadunidense. Mas, Wylys está preocupado com os direitos humanos. 

Wylys ataca a inflação venezuelana e as longas filas para se comprar produtos básicos. Deputado, a população está muito descontente com tudo o que está se passando com relação à economia do país. No entanto, transformar esse descontentamento em voto para aqueles que, mesmo antes das eleições, já realizaram reuniões com o FMI, para traçar projetos de financiamento para o país, é algo completamente diferente. As reformas que a Revolução Bolivariana promoveu na Venezuela e a conscientização de boa parte das massas sobre os processos históricos-políticos do país, permite-me dizer que as filas causam um tremendo descontento, mas, ao mesmo tempo, as pessoas sabem que com inflação ou sem inflação, elas terão dinheiro para comprar seus alimentos. Não passarão fome, como era comum para grande parte da população pobre na quarta república. Na época de Chávez, o preço do barril de petróleo ultrapassou os 100 dólares. Hoje, está em torno de 38 dólares. Mesmo assim, deputado, a revolução bolivariana segue com seus programas sociais. Enquanto o Brasil aumenta a idade para a aposentadoria, o governo venezuelano aumenta o número de pessoas idosas assistidas pela previdência social. 

O mais impressionante é que nos comentários que se seguiram ao texto de Wylys, algumas pessoas faziam chacotas, comparando Maduro ao líder da Coreia do Norte. A atitude do deputado foi "brincar" com as respostas. Uma atitude nefasta para quem é membro de um partido que se diz socialista. No fundo, Wylys faz uma análise liberal de um processo muito mais complexo do que pensar um país segundo os conceitos de Smith e Ricardo.

4 comentários:

  1. Bom texto, Alex. Sou estudiosa do processo político venezuelano desde 2007 e reitero suas palavras. Todavia, faltou a informação sobre o que exatamente o deputado Jean Wylys disse, fosse através de um link para sua página ou de um print dos comentários sobre a Venezuela (e não sobre a Coreia do Norte).
    Mas, no limite, as informações que você deu sobre a Venezuela são verdadeiras e bem colocadas!
    Abraço!

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  2. Sim, Wylllys endossa críticas à direita, mas também faz críticas à esquerda, "esquecidas" por você: esses governos populistas como o de Maduro e Correia cultivam relações com a Teologia da Libertação e por isso têm restrições a bandeiras como o aborto, pois temem perder os setores da igreja que os apoiam.
    Igualmente, parece-me que a violência policial do estado contra protestos também é fato.
    Abs do Lúcio Jr.

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  3. Esse Jean Wyllys é um liberal pequeno burguês mesmo...

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  4. Esse Jean Wyllys é um liberal pequeno burguês mesmo...

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