quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre comparações totalmente descabidas

Nicolás Del Canõ
Nicolás del Caño, candidato na última eleição argentina pelo Frente de Esquerda disse, em entrevista à Folha de SP [1], que "nossa missão é não deixar que fiquemos nesse binarismo entre governos de esquerda pós-neoliberalismo –como o PT, o kirchnerismo ou o chavismo– e a direita".
Considero essa comparação descabida:

1 - Por mais que ambas as experiências - a petista e a "chavista" - possuam semelhanças por fazerem parte do ciclo democrático-popular de lutas da classe trabalhadora latino-americana (a estratégia democrático-popular foi formulada inicialmente em Cuba e reapropriada na Venezuela, em 1998, e no Brasil, em 1987), não é possível comparar da forma que é feita por Nicolás Del Caño. A diferença fundamental está na correlação de forças: na Venezuela há a organização popular a partir de cada bairro (Consejos Comunales), há um movimento de fábricas ocupadas forte e há experiências (ainda que bastante limitadas) de reforma agrária no campo. Além, é claro, da nacionalização do Petróleo. Nada disso existiu na experiência petista e nem sequer passou perto de existir.

2 - Embora se, por um lado, haja a reprodução do velho programa democrático-nacional em ambas as experiências (no Brasil com o neo desenvolvimentismo do primeiro mandato de Dilma, e na Venezuela com a ascensão da "boli burguesia" no cenário político nacional), na Venezuela há uma diferença fundamental: o socialismo foi colocado na ordem do dia. Nas ruas, praças, bares, escolas etc as pessoas debatem o que é e o que deve ser o socialismo, coisa que nunca aconteceu na experiência petista (no máximo colocou-se na ordem do dia o combate ao neoliberalismo, mas não na mesma proporção e nem na mesma longevidade). Além disso, os conselhos de bairro venezuelanos reivindicam o que eles chamam de "Estado Comunal", o que mostra que lá a classe trabalhadora reivindica um "sistema alternativo", coisa que, segundo o historiador inglês E. P. Thompson (em seu estudo sobre a classe operária inglesa), é o traço característico da consciência de classe.

3 - Lá, as classes dominantes seguem cindidas enquanto aqui formou-se uma frente única burguesa antidesenvolvimentista. Também não há lá nada análogo à aliança PT-PMDB que vemos aqui. É possível dizer que, se a social-democracia petista foi derrotada com a ascensão de Joaquim Levy ao Ministério da Fazenda, a experiência venezuelana ainda não se definiu, e pode ser derrotada antes mesmo de definir-se.

4 - Eu concordo com o que se segue a essa afirmação ("há espaço para construção de novas alianças de esquerda") somente enquanto imperativo: no Brasil e na Argentina, a esquerda (ou melhor, o movimento de massas) precisa se reorganizar e forjar uma nova proposta política (e, de preferência, CONTRA o Estado). No entanto, os irrisórios 3% dos votos que a Frente de Esquerda recebeu na Argentina não são nada animadoras e não indicam de forma alguma que "outra esquerda é possível". Não é daí que surgirá "o exemplo" para uma reorganização da classe trabalhadora nem muito menos a classe trabalhadora venezuelana deve abandonar agora a experiência do "chavismo" em prol de uma proposta política que não consegue angariar nem 10% dos votos.
O pulso ainda pulsa, mas as respostas não são tão simples quanto crê Nicolás del Caño.


João Melato - estudante de História, torcedor do Palmeiras e militante comunista. 

[1] -http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/12/1715059-candidato-derrotado-critica-scioli-e-macri-e-defende-renovar-esquerda.shtml

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