sábado, 2 de janeiro de 2016

Como mentir com estatísticas em quatro exemplos



A) Falsear o critério estatístico - Uma das formas mais comuns de mentir com estatísticas é criar um critério estatístico errado na hora de analisar um fenômeno. Vamos pegar, por exemplo, as estatísticas que medem a miséria e a pobreza. Pega-se um determinado nível de renda (100 dólares é o mais comum) e se estabelece como critério que abaixo desse nível de renda “x” a pessoa é miserável e acima (pode ser acima em apenas 0,1%) não é mais miserável, mas “apenas” pobre – e acima de 200 dólares per capto (isto é, por pessoa) não é mais pobre e assim sucessivamente. A falsidade é que esse critério estatístico considera que a partir de um nível renda "x" a pessoa não é mais miserável ou pobre porque o mercado é capaz de suprir todas as suas necessidades fundamentais. Ou seja, esse critério usa um axioma “mercado + renda adequada = necessidades básicas satisfeitas” – acho que não preciso dizer o quanto isso é falso. 

B) Criar uma falsa relação de causalidade - É comum liberais apresentarem índices de liberdade econômica e depois afirmar: os países mais livres são os mais desenvolvidos, logo, desregular a economia em benefício da liberdade de ação do capital é o caminho para o desenvolvimento. Sem entrar no mérito de o quanto é problemática essa estatística, chama atenção como a relação de causalidade entre “liberdade econômica” e “desenvolvimento” é totalmente falsa. Apenas um exemplo serve para ilustrar isso. A economia de um país não é algo que pode ser analisado em si mesmo. Existe um sistema capitalista mundial organizado de forma hierarquia onde cada país está inserido de uma forma diferenciada e a economia nacional só é passível de um entendimento racional compreendendo sua dinâmica no mercado mundial. Excluir a existência do mercado mundial e como ele é constitutivo de todas as economias nacionais e considerar que países em posições bem diferentes na divisão internacional do trabalho podem ter o mesmo “desenvolvimento” tendo o mesmo “índice de liberdade econômica” é falsear a relação de causalidade através de estatísticas. 

C) Esconder todos os fatores de um problema - É comum mentir como estatísticas apresentando um ou mais dados para comprovar uma tese e omitir os outros dados que compõe o problema. Por exemplo, um governista diz que a educação pública se fortaleceu nos governos do PT. Cita o número de universidades construídas e campos ampliados, o aumento das verbas, o maior número de alunos na graduação e pós-graduação etc. e acha que isso prova sua tese. O que ele omite é que o fortalecimento da educação pública em um determinado período histórico deve levar em conta não só os dados de crescimento do setor público, mas também do setor privado e analisar a penetração do setor privado no público (algo histórico no Brasil). Levando em conta esses dados vemos que a educação privada teve o maior fortalecimento de sua história nos governos do PT, que o número de alunos (graduação e pós) em instituições privadas aumentou mais rápido que em instituições públicas, que a construção de unidade privadas cresceu mais que as públicas, etc. Em resumo: constataríamos que a educação pública teve uma expansão nos últimos anos, mas essa expansão deu-se num quadro de enfraquecimento geral da educação pública.

D) Falsear a temporalidade - Outra forma comum de mentir com estatísticas é ignorar que os fenômenos sociais apresentam temporalidades diferenciadas na expressão de mudanças quantitativas e qualitativas. Isto é, algumas mudanças são perceptíveis no curto prazo, outras no médio e no longo e algumas só no longo prazo. Ignorar a temporalidade própria do fenômeno e apresentar estatísticas de um arco temporal qualquer é uma ótima forma de mentir com estatísticas. Criminólogos conservadores na Espanha tentaram provar que a criminalidade não tem qualquer relação com as formas de desigualdade socioeconômica e apresentam as estatísticas do crime na Espanha entre 2000 e 2005 e entre 2008 e 2012 (auge da crise capitalista e do aumento da miséria, pobreza, desigualdade social, desemprego, etc.). A variação estatística era quase nula. Conclusão dos conservadores: o aumento da miséria e da pobreza não apresentou qualquer variação nas taxas de criminalidade. O problema é que a criminologia crítica compreender que as diferentes formas de desigualdades sociais e simbólicas condicionam conflitividades sociais explosivas que se expressam [também] em índices de criminalidade, mas a temporalidade na relação entre aumento das desigualdades e maior criminalidade é sempre de média e longa duração (e nunca mecânicas) e não é uma relação que pode ser medida no arco temporal de um, dois ou três anos de variação. 

Conclusão: cuidado com estatísticas e nunca as tome como um argumento irrefutável.

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