segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O fetiche do novo e a ausência do básico: reflexões sobre a(s) prática(s) da esquerda atual

No senso comum o termo senso comum tem valor pejorativo. Refere-se a alguém que tem uma opinião simplista, irrefletida, pouco refinada. Nesse texto, porém, trabalhamos com uma noção diferente de senso comum. Compreendemos esse termo como um conjunto de ideias, valores, noções, teorias e conceitos com ampla difusão social e que acabam sendo tomados como verdades auto-evidentes, mas, na realidade, são apreciações que não conseguem superar o reino da aparência e chegar à compreensão da essência dos fenômenos.

Tornou-se um senso comum em vastos segmentos da esquerda brasileira a ideia de que precisamos criar novas práticas, táticas, identidades, símbolos, formas organizativas. O suposto velho não serve mais e praticamente todos os nossos problemas, em especial a pouca capilaridade de massas, devem-se a ausência de renovação. As experiências do Podemos e do Syriza, avaliadas com muito entusiasmo e pouca criticidade, reforçam esse senso comum.

O objetivo desse texto é reconhecer a parcial justeza desse raciocínio, mas, ao mesmo tempo, demonstrar sua falsidade parcial, apontando para um ponto pouco observado no seio das esquerdas e das pessoas que reproduzem o senso comum do novo: a quase completa debilidade da imensa maioria das organizações de esquerda brasileira no momento de realizar o básico da atividade política de acordo com a experiência que temos acumulado através de décadas de luta. Deixando mais simples. Aceito como correto a necessidade de certo nível de renovação na esquerda socialista/comunista, contudo, não debaterei nesse texto que renovação é essa, em que sentido e em quais aspectos; irei destacar como o senso comum da renovação impede a percepção de erros básicos e fundamentais, tornando-os naturalizados, e como eles prejudicam o crescimento quantitativo e qualitativo das organizações de esquerda revolucionária.

Um caso real de ilustração.

Um amigo meu participou por alguns meses de uma juventude partidária (não direi qual, afinal, o objetivo desse texto é reflexão e não polêmicas estéreis) e há mais ou menos quatro messes trocou de organização. Na sua organização antiga nunca tinha participado de um pedágio (prática de pedir dinheiro na rua para algum evento), brigada de jornais (a antiga organização dele não tem um jornal nacional), feito panfletagem sobre qualquer tema na rua, indo numa porta de fábrica ou empresa e as formações eram bastante raras. Nas reuniões da juventude, era comum algumas pessoas fumarem maconha enquanto outras estavam realmente preocupadas com a reunião.

Essa juventude, nos protestos que atuava, nunca levava panfletos, jornais ou procurava intervenções qualitativas no ato (como tentar combater direcionamentos errados). Nas reuniões pré-atos essa juventude mandava vários militantes com o objetivo de disputar os rumos do ato com base no maior número de falas possíveis, porém, raramente essa juventude se propunha a realizar um trabalho de massa pré-ato ou fazia-o de forma independente das outras organizações que estavam compondo o ato.

Notem o curioso: o sujeito do nosso exemplo passou meses numa organização que se pretende falar pela juventude, trabalhadores e oprimidos (negros, LGBT’s, mulheres, etc.) e nunca participou de uma ação de massa. As ações que participou foram os típicos atos ritualizados: manifestações despidas de um trabalho de base sério que são realizadas de forma ultra-reativa (o governo aumentou algo ou cortou algum direito).

O nosso exemplo real de uma organização serve para retratar a dinâmica de várias. Se você é militante há mais de um ano e nunca fez uma brigada de jornais ou uma panfletagem na porta de uma empresa ou fábrica (ou se essa atividade é extremamente rara), se sua militância se resume a disputar eleições de algum aparelho, fazer pequenas formações para recrutar alguém e ir para protestos ritualizados que não agregam massas (na eterna espera de “Junho de 2013, o RETORNO”), você não está fazendo o básico. Senão vejamos.

Na sociedade capitalista existem três formas básicas de conformação e reprodução da dominação. Através da ideologia dominante, da repressão e da dinâmica do cotidiano capitalista. A ideologia dominante materializada em seus aparelhos (família, escola, meios de comunicação, etc.) naturaliza as condições de existência atuais, as torna a-histórica, apresenta falsas soluções para os problemas diários, reforça o individualismo, etc.

Os aparelhos repressivos do Estado (Judiciário, policia, sistema penal, etc.) garantem a reprodução da ordem nos seus aspectos principais. Quaisquer questionamentos importantes as condições atuais, seja individual ou coletivo, serão neutralizados por esses aparelhos. Mas não é apenas repressão em negativo: o não deixar fazer. É repressão como o não deixar fazer e o induzir a fazer: regular os comportamentos e práticas sociais numa direção específica.

Já a própria dinâmica do cotidiano capitalista opera como um instrumento de reprodução da ordem. Jornadas de trabalho extenuantes, cansaço físico e mental, dupla ou tripla jornada (em especial no caso das mulheres), ilusões sobre ascensão social, direcionamento do “tempo livre” que resta para atividades de lazer etc. A dinâmica da sociedade capitalista cria uma situações onde militar politicamente exige um gigantesco esforço físico e mental e coloca em risco várias relações (como familiares) e, às vezes, até a própria vida do militante.

Além desses aspectos gerais da sociedade capitalista, no caso do Brasil, temos problemas há mais. Os anos de neoliberalismo e de adaptação à ordem da até então maior organização de esquerda do Brasil, o PT, criaram uma debilidade no tecido organizativo das classes trabalhadoras. Hoje é bem mais difícil conhecer trabalhadores militantes (na associação de moradores, sindicato etc.) em comparação com os anos 80 e 90.

A conclusão que podemos chegar, através dos aspectos gerais da sociedade capitalista e as particularidades da realidade brasileira, é que temos um longo trabalho de reconstrução da consciência e das práticas proletárias: reconstruir sindicatos, associação de moradores, movimento estudantil, tornar o marxismo a arma teórica de amplas massas, combater as ideologias de conciliação de classe, mostrar que a solução para os problemas diários não é individual e nem através da “ascensão social”. Esse longo trabalho exige um contato diário e continuo com os trabalhadores em seus diversos locais de sociabilidade. Na empresa, no terminal de ônibus, na sua moradia. Em todos esses lugares a esquerda tem que se fazer presente. Criar uma relação de confiança, de reconhecimento mútuo.

Para trazer esses trabalhadores para a política (em especial os que nasceram nos anos 90 e foram criados durante o refluxo da esquerda brasileira e muito provavelmente não tem experiência de militância) é necessário esse longo trabalho. Todas as vezes que vou às ruas participar de uma panfletagem ou brigada de jornais, sou muito bem recebido, quando falo dos problemas do povo trabalhador todos interagem bem; muitos perguntam quando estaremos na rua de novo, mas, curiosamente, no geral, esse mesmo trabalhador(a) que me recebe bem na brigada de jornais não chegam no protesto contra o aumento das passagens. Por quê?

Eu aposto que a falta de um trabalho sério e sistemático no dia-a-dia do povo trabalhador faz com que ele não se reconheça na maioria das organizações de esquerda. A realização de atos ritualizados (como os contra o aumento das passagens) e operados com máquinas burocráticas de sindicatos (que tem muito dinheiro, mas pouca base) cria uma falsa ilusão na esquerda de que o “povo está nas ruas”, porém, o “povo” mesmo não é atingindo por agitação e propaganda de esquerda no cotidiano, não vê as organizações de esquerda lutando junto dele por seus problemas mais elementares, não reconhece o rosto dos militantes que estão na rua supostamente agindo por ele – e o certo deveria ser com eles!

Quando alguma organização percebe isso e realiza o básico em sua militância política (trabalho cotidiano de agitação e propaganda, ações de rua de forma sistemática, trabalho em comunidades respeitando a autonomia e o tecido organizativo do local, etc.) o resultado é crescimento quantitativo e qualitativo.

Muitos militantes percebem a distância entre o seu discurso e a prática de sua militância e isso gera uma angustia. Para explicar essa angustia ou conseguir conviver com ela é que surgem mitos do senso comum como a necessidade de renovar as práticas da esquerda como solução para a maioria dos nossos problemas. O curioso é: a imensa maioria das pessoas não sabem o que é esse “novo”, sabem apenas que ele tem que surgir, assim, cria-se uma explicação imobilista do imobilismo: se ninguém sabe ao certo o que é esse novo, fica difícil criá-lo. Termina acontecendo algo muito comum nos dias atuais: o militante acha que toda a esquerda ou sua organização nunca serão de massas porque estão fazendo tudo errado, de forma velha, aí sai da militância para sempre ou fica militando individualmente e numa posição de superioridade criticando toda a esquerda que não consegue criar o “novo”.


Se esse texto serviu para algo, clamo aos militantes que aderiram ao discurso da necessidade imperiosa do “novo”, que reflitam se na sua militância cotidiana sua organização realiza o básico: o trabalho de massa no cotidiano dos trabalhadores através da agitação e propaganda e na luta por suas pautas particulares (isto é, panfletagens, brigadas de jornais, greves e piquetes, formações que realmente atraiam os trabalhadores, projetos comunitários que criem uma relação de confiança com os trabalhadores de determinada comunidade, etc.). Se a resposta for “não”, o seu problema não é a ausência do “novo”, mas sim do BÁSICO e TRADICIONAL da esquerda brasileira – em especial o que faziam os comunistas antes da ditadura empresarial-militar - e que hoje estamos perdendo. 

2 comentários:

  1. Fundamental essa polêmica com o "novo". Nosso novo é velho como a opressão que ele pretende derrotar, e nenhum outro novo nos serve!

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  2. Tô de olho no senhor, rapazzz! hahahahahahaa

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