sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A “velha” e a “nova” esquerda: crônicas da ignorância histórica

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Ser anticomunista não é privilégio apenas da direita. Pelo contrário. O anticomunismo de esquerda tem raízes históricas muito fortes e sempre foi bastante atuante – pense na socialdemocracia, em especial a alemã, em sua oposição à Revolução Russa e ao Poder Soviético. Com a internet tornou-se comum seres imbecilizados, sem qualquer conhecimento mínimo da história do movimento operário, usaram uma série de mentiras, simplificações e meias verdades para atacar a o movimento comunista – o que eles chamam de “velha esquerda”.

Dentre todas as mentiras e falsificações, os mais populares me parecem ser a do marxismo eurocêntrico e do marxismo que nunca debateu e não consegue debater a questão das opressões – evidentemente que essa impressão dos temas mais populares é bem superficial, pois não é produto de uma pesquisa científica sobre o tema. Essa semana me deparei com o texto de um sujeito chamado João Pucinelli [1], onde todas as grandes mentiras e distorções sobre o movimento comunista apareciam em estado mais puro e bizarro. Aproveitando esse texto, vou realizar um desejo antigo, e debater com esse anticomunismo de “esquerda” e sua ignorância histórica que gera como frutos uma prole de espantalhos argumentativos.

Vamos respondendo parágrafo por parágrafo o texto do João. Ele começa afirmando que “”Que a "velha esquerda" é eurocentrada e colonialista a gente já sabe de cor e salteado. Culto ao Marx, fetiche por cada virgula de qualquer acontecimento histórico na Europa, reprodução do modelo operário padrão””. O caráter eurocentrado e colonialista da “velha esquerda”, isto é, os comunistas, estaria no seu “culto” a Marx. Karl Marx era um homem europeu do século XIX. Militante do movimento operário, dirigente da I Internacional e grande teórico revolucionário, Marx dedicou grande parte da sua vida a um único objeto de estudo: compreender a dinâmica de funcionamento do modo de produção capitalista.

Na época de Marx a produção capitalista era restrita a pequenas parcelas do mundo, contudo, África, Ásia e América Latina estavam submetidas – de formas diferentes – ao sistema colonial-capitalista e a tendência evidente, mesmo naquela época, seria a universalização do capitalismo. Em O Capital: crítica da economia política, o livro fundamental de Marx, nosso autor diz que pretende estudar o modo de produção capitalista em suas leis internas de funcionamento e não o capitalismo num país específico, isto é, numa formação social concreta – como França, por exemplo. Marx diz explicitamente que quando cita a Inglaterra não significa que seu estudo é sobre o país, mas sim que a referência é uma forma de ilustrar a dinâmica do capitalismo numa situação concreta. O que isso significa? O materialismo histórico-dialético criado por Marx e Engels nos legou uma teoria que permite compreender e criar as bases de superação do modo de produção capitalista! Existe hoje capitalismo em todos os continentes do mundo: África, Ásia, Oceania, América etc.

Isso significa que basta eu abrir O Capital e compreender a dinâmica social do continente africano? De forma nenhuma. Existe no marxismo uma coisa chamada dialética entre o particular e o universal. O que significa isso? A divisão da sociedade entre detentores dos meios de produção e portadores apenas da sua força de trabalho, sendo os últimos os explorados, os que têm sua mais-valia expropriada, é universal, é uma relação social própria do capitalismo em qualquer lugar do mundo, mas, ao mesmo tempo, a forma concreta de manifestação desse universal responde as particularidades de cada local: a forma-política, o tipo e o nível de desenvolvimento das formas produtivas, a cultura política e organizativa da classe trabalhadora e da classe dominante, as formas interventivas do Estado na reprodução das relações de produção, a divisão campo-cidade, a composição de gênero e étnico-racial da classe trabalhadora etc. são particularidades próprias de cada formação social (cada “país”) e nessas particularidades que a universidade – exploração do capital sobre a classe trabalhadora – se expressa. No Brasil e na Inglaterra a relação de exploração é a mesma e ao mesmo tempo é diferente devido às particularidades de cada formação social.

Compreendendo isso é que os melhores marxistas da África, Ásia e América Latina nunca fizeram uma transposição mecânica das análises de Marx, Engels ou Lênin para suas realidades locais, ao contrário, procuraram compreender como o universal (dinâmica capitalista) se expressa concretamente na particularidade de cada país e continente. É por isso que Mao Tse-Tung, Malcolm X, Huey Newton, Chu Enlai, Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini, Mariátegui, Florestan Fernandes, Ana Montenegro, Zuleide Faria de Melo, Kim Il-sung, Thomas Sankara, Esteve Biko, Angela Davis etc. em suas atuações políticas e/ou teóricas conseguiram ter uma análise justa das contradições sociais que impõe o desafio da ação política revolucionária. Dizer que o marxismo é eurocêntrico desconsiderando os milhões de mulheres e homens dos países periféricos que tiveram e têm o marxismo como principal referencial teórico e prático de libertação é uma grande simplificação que descamba para a mentira e a falsificação.

Mas nosso autor, o João, também diz que o marxismo é colonialista. Bem, uma teoria crítica não pode ser colonialista. Colonialismo é um complexo político-econômico que envolve a dominação de vastos territórios por Estados imperialistas com intuito de garantir o lucro dos grandes monopólios e do capital financeiro e melhor posicionar-se na concorrência interimperialista. Uma teoria crítica e revolucionária, como o marxismo, não pode ser “colonialista”, mas, no máximo, servir de base ideológica de justificativa para o colonialismo.

Na história do marxismo a II Internacional, em suas tendências majoritárias, infelizmente apoiaram o colonialismo dos Estados europeus embebidas no mito da exportação da civilização. Mas não deixa de ser sintomático que todos os partidos da II Internacional que apoiaram o colonialismo abandonaram poucos anos depois o marxismo revolucionário, a dialética e o materialismo histórico e aderiram a um positivismo mecanicista de base epistemológica kantiana. A III Internacional, ou Internacional Comunista, que surge como uma resposta a falência da II Internacional, toma o combate ao colonialismo como uma prioridade absoluta do movimento operário e a partir daí, durante todo século XX, o movimento operário de orientação comunista tornasse o principal sujeito político de oposição ao colonialismo-imperialista. Um pequeno exemplo da contribuição comunista na luta anticolonial pode ser lida abaixo:

A União Soviética e os partidos aliados a ela desempenharam um papel crucial na formação política e ideológica dos quadros do movimento [de libertação africana], tendo sido crucial em Moscou no ano de 1930, a escola de Stálin, intuindo preparar quadros marxistas. As repercussões da crise econômica que sacudiam o mundo possuíam uma natureza favorável à tarefa do movimento anticolonial (...). Após ter traçado os mecanismos e as vias para colaboração com os movimentos anticolonialistas, o mundo socialista engajou-se em um programa de apoio ativo à descolonização da África, sob a forma de uma assistência material e diplomática, oferecida em conformidade com o princípio do marxismo-leninismo, segundo o qual, o mundo socialista deveria ajudar àqueles que aspirassem à descolonização (...). A URSS assinou acordos com cerca de quarenta países africanos. Uma das mais interessantes dimensões desta cooperação dizia respeito ao ensino e à pesquisa: formação de quadros africanos na URSS, envio de professores e pesquisadores soviéticos às universidade e centros de pesquisa africanos. Aproximadamente 30.000 africanos formaram-se no sistema soviético de ensino superior [2]

Na continuação de sua verborragia de mentiras, João diz que “pensadores do sul do mundo, invisibilizando modos de vida e cultura indígenas e africanas, subalternizando práticas, narrativas e trajetórias dos povos originários”. Bem, Che Guevara, Fidel Castro e Mariátegui – para ficar apenas em três exemplos – são “pensadores do Sul” e só um completo desonesto para afirmar que a cultura política comunista os “invisibilizou”. O camarada José Carlos Mariátegui, por exemplo, é famoso por ter sido um dos primeiros marxistas, ainda nos anos 20 do século passado, a pensar a contribuição das práticas culturais e produtivas coletivistas dos povos originários na construção do socialismo nas Américas.

Nosso autor continua seu texto demonstrando que ignorância histórica não tem limites. Afirma que a “nova esquerda” – o MST, a esquerda católica, o movimento feminista, o movimento negro etc. – trouxeram para a luta política “”as cantigas, as cirandas e os sambas de roda”” e que a “velha esquerda” passou a taxar essas práticas de anti-revolucionárias. Bem, é uma GRANDE MENTIRA conceber o movimento feminista e negro como dissociado da luta comunista. Sem me estender nesse ponto, gostaria apenas de pontuar que foi a União Soviética que as mulheres conseguiram, primeira vez no mundo, igualdade jurídica, direito a voto, direito ao divorcio e ao aborto, ascensão a cargos de direção política e inserção não subordinada no mercado de trabalho contando com férias, licença-maternidade, salário igual ao dos homens etc. [3]

Sobre a relação orgânica entre luta comunista e luta contra o racismo, basta citar um longo trecho sobre o combate ao apartheid no Sul dos EUA – por décadas um dos maiores símbolos do racismo no mundo:

"Nada tinha me preparado totalmente para o que eu encontrei no Alabama. Os testemunhos e memórias nos arquivos, a até mesmo a própria paisagem constituía a prova viva de que uma cultura política distinta da esquerda euro-americana, mas sim uma enraizada nas tradições afro-cristãos e na cultura negra de raíz dominou o Partido Comunista do Alabama. Era a evidência surpreendente esmagadora que me fez deixar um monte das minhas suposições sobre a cultura do movimento marxista-leninista para trás ... Eu não estava preparado para pessoas como Lemon Johnson, um ex-membro da Share Croppers Union (União do "Campesinato" Compartilhada) liderada por comunistas. Em Dezembro de 1986, visitei Johnson em sua casa na zona rural do condado de Montgomery ... Ele me contou histórias sobre a greve de 1935 dos catadores de algodão, da promessa de Stalin para enviar tropas para Mobile para ajudar os negros caso as coisas saíssem do controle, e também sobre a noite que um grupo bem armado de mulheres partiram para vingar seus camaradas que tinham sido espancados ou mortos durante a greve. Quando perguntei para o Sr. Johnson como o sindicato conseguiu ganhar algumas de suas exigências, sem a menor hesitação, ele enfiou a mão na gaveta de sua mesa de cabeceira e tirou uma cópia claramente muito desgastada por uso do ‘Que Fazer?’ de Lenin e uma caixa de balas de espingarda, sentou firmemente na cama ao meu lado, e disse: “É isso aqui, a Teoria e a Prática, foi assim que nós fizemos, com Teoria e Prática.” [4]

Pensar o “movimento feminista e negro” como algo abstrato, como um ente que nunca teve relação com o movimento comunista, como podemos ver, é uma grande besteira. A “nova esquerda”, esses meninos criados em prédio que acham que estão inventando a roda, juram que são os primeiros a inserir a cultura como instrumento de luta política. Ledo engano. Falando apenas do Brasil – para não deixar o texto longo – o Partido Comunista Brasileiro (PCB) tem uma longa e bela história de atuação cultural. O PCB teve em suas fileiras poetas, literatos, sambistas, dançarinos, teatrólogos, mestres de cultura popular etc. Já organizou desde grandes campeonatos de futebol passando por desfiles de escolas samba no carnaval até festivais de cultura afrobrasileira e de terreiro. Aqui também é necessária uma grande citação para refutar as mentiras de sempre:

Jorge Amado, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Edison Carneiro, Cândido Portinari, Dorival Caymmi, Procópio Ferreira, Nélson Pereira dos Santos, Oscar Niemeyer, o maestro Francisco Mignone, o jornalista Pedro Mota Lima, o cronista Alvaro Moreyra, o pianista Arnaldo Estrela e o cientista Mário Schemberg faziam parte do respeitável grupo de intelectuais filiados ao PCB.
Os intelectuais e os artistas do PCB colocavam em prática a política cultural do partido, baseada no realismo socialista, modelo estético stalinista que chegou ao Brasil na segunda metade dos anos 40. A produção de uma arte "genuinamente" proletária era um dos principais instrumentos de educação política das massas. Cabia aos intelectuais do partido alfabetizar os "camaradas" iletrados e ministrar "aulas de conhecimentos gerais", além de esclarecer pontos fundamentais da teoria marxista-leninista. Teatro, cinema, cartazes, exposições, conferências, poemas: todos os recursos materiais e humanos disponíveis eram utilizados a serviço da causa comunista.
Dispondo de uma estrutura bastante razoável, a imprensa comunista nos anos 1945-1947 cresceu vertiginosamente. O partido contava com diversos jornais e revistas, além de duas editoras, o que deu um grande impulso ao trabalho de divulgação do comunismo no Brasil. Voltado para as massas, o diário comunista Tribuna Popular, de circulação nacional, chegou a tiragens de 50 mil exemplares. Veiculava notícias das agências comunistas internacionais, publicava matérias sobre o movimento operário e a luta camponesa, mas também dava substancial espaço para o entretenimento, visto como um importante instrumento de educação política das massas. Falava-se de cinema, teatro, esportes (com destaque para o futebol), música, notas sociais, fofocas sobre políticos e personalidades em evidência. Os anunciantes, em muitos casos, buscavam uma associação entre os produtos e a linha política do partido, como no caso do "Sabão Russo - contra erupções, espinhas e panos" ou dos perfumes Cavaleiro da Esperança. Na compra dos perfumes por atacado, o consumidor era contemplado com folhinhas com retrato de toda a bancada comunista na Constituinte de 46.
O samba, reconhecido nos anos 40 como uma das maiores formas de expressão artística popular, fruto de um complexo processo que Hermano Vianna chamou de "mistério do samba", também foi privilegiado pelos comunistas. É amplo o espaço dedicado ao mundo do samba na Tribuna Popular. As colunas "O Povo se Diverte" e "O Samba na Cidade" eram publicadas com regularidade. Notas sobre a agenda e os preparativos dos bailes carnavalescos, cartas de leitores sobre o carnaval, homenagens feitas pelas agremiações carnavalescas à Tribuna Popular, divulgação dos assuntos de interesse da União Geral das Escolas de Samba (UGES) faziam do jornal comunista um espaço de participação e representação do mundo do samba. Um forte vínculo ideológico estabelecia-se entre a UGES e o Partido Comunista [5]

A certa altura do texto, depois de criar espantalhos que já foram refutados com as citações acima, João diz que a “revolução” dele será “com os Orixás”. Nosso “amigo” não deve saber, mas a primeira vez que o Estado brasileiro reconheceu juridicamente o direito de culto das religiões de matriz afrobrasileira foi na Constituinte de 1946, com projeto apresentado pelo deputado Jorge Amado do... PCB. O comunista Jorge Amado tinha fortes ligações com o povo de terreiro da Bahia (assim como todo PCB no estado) e o negro, igualmente baiano e comunista do PCB, Carlos Marighella, em belo discurso de defesa do projeto, disse:

Nós, comunistas, sabemos respeitar as religiões; somos pela liberdade completa de consciência e não desejamos, de forma alguma, que essa liberdade seja utilizada pelos dominadores, pelos fascistas, pelos reacionários, pelos senhores feudais para acorrentar o nosso povo, miseravelmente, como o têm feito [6]

Sabemos que as religiões de matriz africana não tem liberdade de culto de fato no Brasil, mas ao menos a “liberdade jurídica”, por mais limitada que seja, veio com participação fundamental da luta comunista.

Podemos caminhar para a conclusão. O que João “considera” como atributos da “nova esquerda” não passa de práticas políticas tradicionais e que de formas variadas se mantém no movimento comunista. O PCB, por exemplo, longe de achar o samba contrarrevolucionário considera primordial a ação política no âmbito da cultura e constrói em vários estados, dentre outras iniciativas, o bloco Comuna que Pariu [7] – a “nova esquerda” não inventou o uso da cultura como instrumento da luta política, no máximo vulgarizou esse uso. A “velha esquerda” só existe nas brumas da ignorância de nosso “amigo” que acha que está inventando a roda, criando o novo, mas que deveria antes de tudo pegar bom livro de história e parar de passar vergonha na internet.



[2] – (História Geral da África - Harris e Zeghidour, 2000. p. 968, 970 e 972).
[3] –http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=676&id_coluna=10
[4] – Robin Kelley, no prefácio do 25º aniversário de Hammer and Hoe: Alabama Communists During the Great Depression 
[5] – http://www.academiadosamba.com.br/memoriasamba/artigos/artigo


[7] – http://blogdaboitempo.com.br/2016/02/11/o-bloco-comuna-que-pariu-como-fenomeno-cultural-e-politico/

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