domingo, 6 de março de 2016

Rosa Luxemburgo: a atualidade da “Águia da Revolução”

Rosa Luxemburgo.
Lenin disse certa vez que Rosa Luxemburgo era uma “águia”. Rosa nasceu dia 05 de março e trilhou uma das trajetórias mais belas e corajosas da história do movimento operário. Sua obra teórica e prática não forjou uma grande corrente de peso no movimento operário – como o maoísmo ou o marxismo-leninismo – e a maioria dos intelectuais que reivindicam sua obra acabam transformando-a numa democrata vulgar, na revolucionária que defendia a liberdade (no sentido liberal) acima de tudo, e estimulando a criação de uma falsa dicotomia do tipo “Rosa vs Lenin”. Acontece com Rosa o mesmo fenômeno acorrido com Antônio Gramsci: de marxista revolucionária seus “interpretes” a transformam num símbolo do conformismo pseudo-inconformado que espera das trombetas da democracia burguesa a chegada mágica do socialismo.  

Falar da atualidade da obra de Rosa é um tema difícil. Ao contrário do que alguns pensam, Rosa tinha uma gigantesca erudição e escreveu sobre uma variedade enorme de temas: história do capitalismo, teoria do imperialismo, estudos sobre o Estado e o direito, as transformações da função do Estado na era do imperialismo, sobre a relação entre modos de produção primitivos e o capitalismo, sobre a religião, a questão das nacionalidades etc. Rosa, por exemplo, tem uma contribuição fantástica (diria uma das melhores) para a teoria marxista do direito, infelizmente até hoje pouco explorada. De qualquer forma, mesmo não sendo um grande conhecedor da obra de Rosa, me arriscaria dizer que sua maior e mais atual contribuição é pensar a ação política revolucionária no seu problema fundamental: a relação entre estratégia e tática.

Longe de pretender resumir em poucas linhas a grande contribuição de Rosa, cumpre destacar dois aspectos. Rosa não concebeu a possibilidade de uma separação mecânica entre estratégia e tática. A tática está subordinada à estratégia e as ações diárias da luta política devem ser coerentes com a estratégia. Ou seja, não é teórica e politicamente correto ceder em princípio, realizar acordos com a burguesia, abrir mão de elementos indispensáveis (como a autonomia financeira frente à burguesia) em nome de “conquistas” imediatas. Transformar a estratégia – a conquista do poder político e a construção do socialismo – em algo distante, que não está presente no cotidiano, é um dos elementos fundamentais de todo oportunismo e reformismo. As indicações de Rosa de como unir de forma orgânica a estratégica e a tática, de como na ação política cotidiana não separar o presente do futuro a ser conquistados, são atuais em todo o mundo, mas, em especial no Brasil onde ainda estamos presos nas armadilhas do “mesmo pior”.

Outra contribuição fundamental de Rosa na sua concepção da relação entre estratégia e tática é a visão do papel pedagógico da luta política – inclusive das derrotas. Para Rosa Luxemburgo quando o proletariado age politicamente enquanto classe, com autonomia ideológica e organizativa, mesmo que perca algumas batalhas, cada derrota serve como um processo de amadurecimento político e organizativo. Quando, por exemplo, os trabalhadores não conseguem aprovar no Parlamento uma nova legislação de seguridade social do seu interesse essa derrota tem uma dimensão positiva: pode ser um elemento educador na percepção do caráter de classe do Estado burguês. Na cultura política atual da maioria da esquerda brasileira a lógica é diferente. O raciocínio é mais ou menos assim: vamos apresentar um plano educacional avançado construir junto aos sindicatos e associação de pais de alunos, mas sabemos que ele não será aprovado, aí ao invés de lutar até o fim pela aprovação, de buscar com todas as forças o confronto direto, a busca é pela composição de cúpula com deputados “progressistas” que vão buscar aprovar o projeto, mas desfigurando-o, retirando seus elementos mais avançados.

A luta política real, travada até o fim, é dispensada, se acredita mais no poder do Parlamento do que na mobilização popular sobre a desculpa de evitar qualquer derrota operamos concessões atrás de concessões não percebendo como essas concessões enfraquecem a longo prazo a organização, rebaixam o nível de consciência, e no limite provocam uma ruptura entre tática e estratégia – um exemplo disso é que na intenção de evitar um “mal maior”, muitos camaradas de esquerda fizeram campanha para o PT no segundo turno de 2014, mas poucos pararam para refletir qual o papel de sua ação tática de estimular mais ilusões com o PT teve no distanciamento estratégico da busca pelo socialismo.

Enfim, em tempos de falência do Programa Democrático-Popular e de profunda confusão política no seio da maioria das organizações de esquerda, levando a casos absurdos como nutrir ilusões com o Syriza, é mais que necessário resgatar a obra teórica e prática de Rosa Luxemburgo. Uma mulher que dedicou sua vida à revolução, que enriqueceu como poucos o marxismo revolucionário e que morreu como um exemplo máximo de dignidade e firmeza.



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