quinta-feira, 21 de abril de 2016

Alternativa? Cadê a alternativa?


Foto "clássica" da greve dos Garis no Rio.
Nosso texto começa com uma história bem conhecida. Em 1914 começa o maior conflito bélico da história da humanidade (até aquele momento). A primeira guerra mundial foi um conflito interimperialista do capitalismo na era dos monopólios pela disputa de territórios e áreas de influência para exportação de capitais e domínio geopolítico. A primeira grande guerra não marca apenas uma gigantesca tragédia humana e civilizatória, é o marco também da maior derrota do proletariado mundial no nascente século XX.

Na passagem do século XIX para o XX, o proletariado obtinha saltos organizativos impressionantes na Europa Ocidental. Os partidos políticos de massa eram uma realidade em praticamente todos os países capitalistas, as leis antissocialistas eram derrubadas, o sufrágio ampliado, os sindicatos cada vez mais organizados e fortes, a força parlamentar crescente etc. O socialismo parecia estar na ordem do dia quando, mesmo não tão de repente assim, o Partido Socialdemocrata Alemão, o maior da II Internacional, vota a favor dos créditos da guerra, apoiando “sua burguesia” no conflito interimperialista e é posteriormente seguido por outros partidos socialistas. Era o fim melancólico da II Internacional. A palavra de ordem “proletários do mundo, uni-vos” parecia uma grande piada de péssimo gosto.

Porém, em meio à tragédia, um pequeno mas corajoso grupo de revolucionários, cujo os principais nomes eram Rosa Luxemburgo e Lênin, disseram não ao “socialchauvinismo” (como ficou conhecida a posição dos partidos socialdemocratas de adesão à guerra). Lênin e Rosa recusaram-se com toda força e convicção revolucionária que tinham a trair o socialismo. Estavam isolados. Não tinham metade da base da socialdemocracia alemã, se propuseram, cada um em seu país, a criar uma nova alternativa revolucionária.

A continuação da história já sabemos. Rosa é fundadora do Partido Comunista alemão e uma das grandes lideranças da Revolução Alemã, a revolução é derrotada e a grande Águia da revolução, como Lênin a chamava, é assassinada pela socialdemocracia; Lênin tornasse o líder da primeira revolução proletária do mundo, o maior líder revolucionário da história e a principal figura na fundação e primeiros anos da III Internacional! Mas não se enganem! Esse texto é sobre a conjuntura brasileira, porém por que começar contando sumariamente essa historia?

Quando Lênin e Rosa Luxemburgo negaram o socialchauvinismo da II Internacional eles não tinham alternativa naquele momento. A “negatividade” de sua escolha política [acertada] só expressaria uma “positividade”, isto é, a construção de algo novo, a médio e longo prazo. Se Rosa e Lênin constatassem que não havia no imediato, no agora, uma alternativa organizativa maior e mais forte que a II Internacional, e por isso capitulassem ao socialchauvinismo, teríamos uma história bem diferente do que temos hoje – provavelmente com um mundo bem pior.

O momento político atual expressa o total esgotamento do programa democrático-popular (PDP) e do seu principal operador político, o PT, porém, isso não significa que o PT e seus satélites – como PCdoB e Consulta Popular – vão deixar de ter peso social e político. O significado é mais profundo: como estratégia de superação da ordem burguesa, o programa democrático-popular faliu teórica e praticamente e seus principais aparelhos, como CUT e o próprio PT, transformaram-se em maior ou menor medida em instrumentos de conservação da ordem burguesa – ainda que tentem “humanizar” o capitalismo.

A necessidade histórica de superar a estratégia democrático-popular e seus operadores políticos na teoria e na prática tornou-se mais que evidente depois da derrotada vergonhosa do PT com a aprovação do processo de impedimento na Câmara. Mas quando falamos da necessidade de forjar o novo, construir uma nova estratégia revolucionária e socialista, muitos governistas apontam a ausência dessa alternativa agora, no imediato, e disso deduzem que temos que ficar a reboque do governismo porque ainda não temos essa alternativa pronta.

A primeira coisa a ser dita sobre essa postura política é entrar no seu significado teórico. Rosa Luxemburgo afirmou que um dos principais traços do oportunismo é criar uma ruptura entre estratégia e tática, entre o objetivo final e a ação prática. O oportunismo separa o imediato do futuro, reafirma formalmente o objetivo final – a construção do socialismo -, mas na prática cotidiana realiza uma política que o afasta do socialismo como o diabo da cruz.

Ao pregar que o correto seria estar a reboque de um projeto político - o governismo - que significa rebaixamento teórico, político e organizativo da classe trabalhadora e um direcionamento estratégico de conciliação de classe (direcionamento que se mantém mesmo com o PT estando nas cordas, à beira do nocaute) porque não “temos alternativas revolucionárias agora”, o governismo expressa através do seu oportunismo uma incongruência insuperável: como construir uma alternativa revolucionária apoiando um projeto burguês, conciliador e pró-capital?

Para os governistas deveríamos agir no cotidiano a reboque do governismo mas em palavras, e só em palavras, propormo-nos a superar suas contradições – de resto, essa é a postura da Consulta Popular. É “natural” essa postura dos governistas. Na sua prática política o oportunismo – essa ruptura entre tática e estratégia e a justificativa de todas as medidas de conciliação com o capital – é onipresente. O PT se afirma defensor do socialismo, mas no Governo manteve o modelo neoliberal em seus fundamentos; o PCdoB se afirma marxista-leninista, mas é o partido do código florestal dos latifundiários e que votou a favor do ajuste fiscal antipopular – para ficar apenas em alguns exemplos.

Mas os governistas estão certos em uma coisa: não temos ainda uma alternativa ao PT e ao PDP. Temos a falência de uma estratégia política da classe trabalhadora, contudo essa falência, pela primeira vez em nossa história, não é acompanhada de uma grande ascensão de massas que crie as condições subjetivas e políticas de uma formação mais ou menos rápida dos nortes centrais de uma nova estratégia. O primeiro grande ciclo do movimento operário brasileiro foi anarquista e anarcossindicalista e foi superado pela propagação do marxismo, o impacto da Revolução Russa e a criação do PCB; com a hegemonia do PCB temos a estratégia democrático-nacional que não faliu, porém foi derrotada em 1964 e o PCB foi esmagado pela repressão da ditadura empresarial-militar; com a abertura dos anos 80 e a desarticulação do PCB, a estratégia democrático-popular e o PT puderam surgir como os grandes instrumentos da luta socialista.

Bem entendido, não estamos afirmando que existe uma ausência de formulações críticas ao PDP e sua trajetória e propostas de estratégias alternativas. Essas críticas existem – e o melhor dos críticos é Mauro Iasi – e as formulações estratégias revolucionárias – como as do PCB, Insurgência, PCLCP etc – também. Mas essas críticas e formulações estratégicas carecem de uma maior penetração nas massas trabalhadoras.

Embora exista um evidente, ainda que lento, crescimento do peso político das organizações da esquerda socialista, ainda não estamos no patamar adequado para a luta revolucionária, mas a chegada nesse patamar é um processo construído já agora, comportando tarefas de curto, médio e longo prazo, e não pode ser uma tarefa para um futuro distante a ser realizada num tempo indeterminado.

A conclusão que podemos chegar é que o momento histórico apresenta a falência do PDP não acompanhado da ascensão do movimento de massas e das condições objetivas e subjetivas para a criação de uma nova estratégia revolucionária de peso nacional nas massas trabalhadoras, contudo, isso não deve-nos fazer capitular frente ao governismo, ficar ao seu reboque e suspender as críticas teóricas e práticas ao limites e consequências do PDT. Se somos coerentes na relação orgânica entre estratégia e tática, e se o objetivo estratégico é a construção do socialismo, devemos desde já lutar incansavelmente – com fundamentação na teoria revolucionária marxista – por sua realização, construindo cotidianamente seus pressupostos – ou, como diria a grande Rosa Luxemburgo:

Vocês veem que um certo número de nossos camaradas não se colocam no campo do objetivo final de nosso movimento. E é por isso que é necessário dizê-lo claramente e sem equívoco. É hoje necessário mais que nunca. Os golpes da reação caem sobre nós duros como granizo. Nós devemosa responder ao último discurso do imperador. Nós devemos declarar, de uma maneira clara e franca, como o velho Catão: “ Eu penso que é preciso destruir este Estado.” A conquista do poder político permanece nosso objetivo final e o objetivo final permanece a alma de nossa luta. A classe operária não deve se colocar sob o ponto de vista decadente do filósofo: "O objetivo final não é nada, o movimento é tudo.” Não, ao contrário, o movimento enquanto tal, sem relação com o objetivo final, não é nada, o objetivo final é que é tudo! [1]  




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