segunda-feira, 30 de maio de 2016

A sociologia da vítima



A barbárie da menina vítima de um estupro coletivo perpetrado por mais de 30 homens jogou luz na forma como os monopólios de mídia tratam a vítima quando ela pertence a um grupo oprimido e é da classe trabalhadora. A insistência na ideia do "suposto" ou "alegado" estupro e as "pesquisas" sobre o passado da vítima, sua vida sexual pregressa, o uso de drogas etc. mostra uma ideia básica na sociedade de classe: até na hora de se constituir como vítima os determinantes da dominação de classe e da opressão operam.

Quando a vítima do crime é alguém das camadas médias ou da classe rica (portanto brancos e incluídos nos padrões hegemônicos de beleza, moral, estilo de vida etc.) o discurso dominante é destacar os sonhos da pessoa, sua história de realizações, suas qualidades nas relações com amigos e familiares. Quando o jovem casal Liana Friedenbach e Felipe Caffé foi assassinado, e ela estuprada, ninguém nos monopólios de mídia tentou colocar a culpa nas vítimas. Comentários do tipo "ela não deveria está sozinha com o namorado na mata" não foram visto nos jornais, TV's, Rádios's e portais da internet. A vítima é mostrada como uma pessoa em sentido pleno: com amigos, história de vida, sentimentos, qualidades, futuro, talentos. O clima de comoção produzido é muito forte porque esse tipo de abordagem cria uma espécie de empatia contagiante - quem não se solidariza com uma jovem "bonita" de "boa índole" e com um futuro brilhante pela frente?

Quando a vítima é da classe trabalhadora e agrega os padrões de opressão, como ser negro e/ou mulher, ela se constitui como uma "semi-vítima". O tema não é sua história de vida, mas seus "maus hábitos", não tratam do seu futuro, mas dos "seus erros do passado", sua culpa na tragédia é questionada a todo o momento; não se cria uma empatia, mas sim um distanciamento negativo do tipo "eu não apoio estupro, mas essa menina tinha que estar em casa"; "ela não deveria usar drogas" etc. Ninguém até agora nos grandes monopólios de mídia falou dos sonhos da menina, de como ela é uma boa amiga ou a mostrou como alguém “com futuro”.

O genial documentário "TV alma sebosa" [1] ao analisar os programas policias de Pernambuco demonstrou como as vítimas na periferia são retratadas como sem história: apenas um nome e uma foto 3x4 é mostrada seguida de comentários do tipo "a polícia suspeita ser acerto de conta" ou "familiares dizem que a vítima tinha envolvimento com drogas". O processo de desumanização está pronto. Ninguém mais - com exceção da família - sente empatia com essa vítima.

O delegado Orlando Zaccone estudou no seu livro "Indignos de vida" os autos de resistência na cidade do Rio de Janeiro. A maioria dos assassinados pela polícia são homens pobres na idade da juventude e negros. O judiciário do Rio de Janeiro no processo de "apuração" das mortes concentrasse mais na "reconstituição" do passado da vítima do que na ação dos polícias. A conclusão de que a vítima "morava em área de risco", "tinha envolvimento com drogas" ou "andava em más companhias" torna a versão da polícia - troca de tiros - como verdadeira de forma automática.

Enfim, para ser vítima não é necessário apenas sofrer algum tipo de violência. Ser vítima é algo carregado de determinantes de classe, raça, gênero e ambiente sócio-geográfico - sendo o determinante de classe o decisivo. Sem discordar das pessoas que apontam o machismo na forma como os monopólios de mídia abordam o caso do estupro coletivo, a questão abarca o machismo mais é ao mesmo tempo maior que ele! Os filhos e filhas da classe trabalhadora dificilmente serão "vítimas humanizadas" na sociedade capitalista.

[1] - https://www.youtube.com/watch?v=ST9h5BWZSTE

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