sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O liberalismo não será televisionado

Quando Cristina Kirchner era governante na Argentina, a mídia brasileira, de forma religiosa e mais disciplinada que quartel militar, repetia como um mantra as notícias sobre o “caos econômico” no país. Inflação alta, aumento da pobreza, suposta escassez de produtos, redução das taxas de investimento, baixo crescimento da economia etc. De manhã, tarde e noite, no mínimo uma vez na semana, tínhamos uma notícia criticando o governo de Cristina em todas as emissoras do Brasil – para não falar dos jornais, sites e emissoras de rádios.


Aí Maurício Macri, devoto fanático do liberalismo econômico e filho bastardo do Tio Sam, foi eleito presidente e a onipresente Argentina dos noticiários tornou-se uma espécie de tia distante: nunca mais ouvimos falar. Dizia-se que a Argentina tinha muita inflação devido ao intervencionismo estatal; hoje a inflação é a maior em 14 anos: 46%. Era dito que a pobreza estava aumentando, com Macri temos 1, 4 milhões a mais de pobres e mais de 200 mil trabalhadores perderam seus empregos desde ele assumiu. O preço da água, luz e gás subiu entre 300% ou 2000% para regular os preços “pelo livre mercado”, mas o mercado, esse sujeito cheio de exigências, mesmo assim não reagiu bem: o consumou caiu 6,4%, o gasto médio por compra 26,3% e a taxa de investimentos (públicos e privados) também não cresceu!


Em Buenos Aires acontecem protestos diários, o presidente só sai agora de carro blindado e o nível das lutas sociais na Argentina é gigantesco. Até as camadas médias de pequenos e médios empresários, que caindo no conto do liberalismo econômico votaram em Macri, colhem os frutos amargos de um governo puro sangue dos monopólios e do imperialismo estadunidense. Se o governo de Cristina tinha pouca popularidade em sua fase final, o de Macri é mais que isso: é um governo totalmente impopular.


O liberalismo econômico em ação, isto é, a capa ideológica do domínio da burguesia interna e do imperialismo, é extremamente autoritário na gestão política (com foco na repressão aos descontentes) e uma tragédia – sob qualquer referencial estatístico – na política econômica. Porém, o liberalismo não será televisionado, hoje à noite preparem-se para um novo editorial de algum jornal da Globo ou da Folha de São Paulo sobre a “crise econômica” na Venezuela e a “divisão do país” – afinal, hora pois, a Argentina está é bem unida e feliz.


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