segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A "classe média" e o golpe em movimento

protesto anti-Dilma dominada pela "classe média"
Os anos do petismo no Governo produziram mitificações grosseiras sobre o comportamento político e ideológico das camadas médias. O principal dele foi tomar a “classe média” como um todo reacionário, esquecendo, por exemplo, que durante os anos 80 a maioria do que podemos classificar como classe média votava no PT e PDT – dois partidos de esquerda e com níveis variados de elementos socialistas. De um ponto de vista estatístico, ainda que com uma explicação sociológica errada, André Singer, no seu livro “Os sentidos do lulismo”, demonstrou de forma satisfatória que houve um realinhamento eleitoral e a partir de 2006, e a maioria dos segmentos médios – não todos – passou a votar na direita ou centro-direita e ter o PSDB como seu principal partido político.


Essa direitização é uma resposta ideológica às situações objetivas. Tentando resumir a ideia, por uma série de transformações nos padrões globais e nacionais de acumulação do capital e do papel das camadas médias na divisão social e técnica do trabalho, existe uma insegurança social que não garante mais como tempos atrás – mais ou menos 30 anos – a reprodução da condição de classe. As camadas médias reduzem de tamanho em todo mundo, sofrem com uma competição cada vez mais intensa para se reproduzir e seu padrão de consumo está em constante processo de encarecimento. Pegando um exemplo simples: trinta anos atrás se um filho da “classe média” se formava em direito, contabilidade ou psicologia, seu emprego, salário razoável e reprodução das condições de classe era quase garantido; hoje, essa garantia não existe mais.


Outro elemento é o fator simbólico. A abissal desigualdade social no Brasil criou um padrão de consumo e sociabilidade que forjou um verdadeiro apartheid entre a classe média e as classes trabalhadoras. Poucos eram os espaços de consumo e convivência policlassista – como praias e estádios de futebol. O aumento relativo do poder de compra dos salários, a criação de nichos de "consumo popular" nos shopping da classe média, a expansão precarizada do ensino superior, a maior “democratização” do uso de certo bens de consumo (como TV a cabo e aeroportos), políticas sociais como cotas etc. feriram o exclusivismo de classe vigente por décadas e os signos de distinção social da classe média. Junte o mal-estar objetivo com o simbólico, o resultado foi segmentos importantes da classe média encontrar o culpado da degradação de sua condição material nas cotas, no bolsa família, no negro, na feminista, nas políticas sociais etc. O reacionarismo anti-PT, condicionado e potencializado pelos monopólios de mídia, foi uma resposta ideológica ao mal-estar material e simbólico e um grito patético, mas perigoso, de sobrevivência das camadas médias ameaçadas de “proletarização”.


A ideologia, embora tenha sua objetividade própria, não consegue negar a objetividade das relações materiais de produção e reprodução da vida. A “classe média” apoiou o impedimento e é ainda base de sustentação – base cada vez mais tímida e retraída – de um governo que tem como projeto político congelar os investimentos públicos por 20 anos, privatizar as estatais (já foi anunciado um plano de demissão para o Banco do Brasil de 18 mil funcionários), sucatear brutalmente as universidades, concluir a desindustrialização do país, acabar com a precária rede de proteção social etc. As medidas de Temer vão acelerar como nunca o rebaixamento econômico da “classe média”. O fim dos concursos públicos, o ataque às universidades e a própria recessão ou crescimento medíocre nos próximos anos terão efeitos que não existe manipulação midiática que consiga esconder. Nesse momento as cotas, o bolsa-família, o negro, a feminista etc. não poderão mais ser os culpados.


Enfim, quero dizer que teremos condições objetivas que vão abrir um processo de ruptura total entre a maioria dos segmentos médios e o Governo Temer – os sinais disso já são visíveis. Esse processo de ruptura pode não ser à esquerda. A possibilidade de ser capturado por um projeto tecnocrático – do tipo antipolítica – ou reacionário estilo Bolsonaro, me parece, na atual conjuntura, maior que ser absorvido pela esquerda. De toda forma, é, sem dúvida, um movimento em processo que estará em 2018 no centro da disputa eleitoral e nos próximos anos da disputa política


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