segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Os perigos da ideologia da unidade

Lula e Ciro Gomes.
Quem milita nos espaços de resistência já ouviu milhares de vezes a ideologia da unidade de toda esquerda, sem "sectarismo", proclamada pelos setores ex-governistas agora alijados do Governo Federal. Se fosse resumir a ideia, diria que ela se centra em três pontos fundamentais: a) a negação da necessidade de um balanço crítico (teórico e político) do programa democrático-popular e dos anos do petismo; b) a ideia que toda esquerda está unida, quase homogênea, na luta contra o governo Temer; c) a noção movimentista que esse não é o momento de debater as diferenças táticas, estratégicas e de concepções de ação política na resistência - apenas "agir".
Por que isso é uma ideologia? Porque é um conjunto de ideais que falsifica a realidade procurando ocultar que existem fortes divergências no seio da esquerda sobre como chegamos onde estamos e o que devemos fazer para sair dessa situação. Ainda esconde o debate sobre os rumos da esquerda nos últimos anos ao mesmo tempo em que impõe uma narrativa falsa do significado do impedimento: afirmando sempre que foi um governo popular derrubado por um movimento de direita, porque esse governo se negava a atacar os trabalhadores e seus direitos. Por fim, mas não menos importante, esconde um dado fundamental: continua existindo uma DISPUTA no seio do vago conceito de esquerda sobre "que caminho seguir", ou seja, sobre quem e como irá liderar os processos de resistência. Enquanto proclama uma unidade fictícia se desenrola nos bastidores articulações de cúpula visando a eleição de 2018 e impondo Lula ou Ciro Gomes numa nova velha frente de "centro-esquerda" com o "capital industrial" contra o "rentismo" num filme repetido com final previsível e de péssimo gosto.
Ninguém discorda da necessidade de unidade nesse momento contra a guerra de classe operada pelo Governo Temer. Mas que ninguém seja ingenuo de ver nessa unidade tática, na ação, a negação das disputas no seio da esquerda. Essas disputas fazem parte da luta de classe! Se, por exemplo, a maioria da esquerda continuar achando que a grande solução para seus problemas é lançar uma "frente eleitoral" para 2018 com Lula ou Ciro Gomes, na eterna espera de um messias, a classe dominante terá ganho outra batalha fundamental. Combater a conciliação de classe, o aparelhamento, o peleguismo, o institucionalismo, a burocratização e as teorias da pseudo-esquerda (keynesianismo, humanização do capitalismo, capital financeiro vs capital industrial etc.) é parte fundamental da organização das resistências e de forjar as possibilidades de avanço popular.
O fato gritante de ser a juventude, e não o sindicalismo, hoje a principal força política de combate ao ajuste fiscal antipopular só mostra que sem combater e destruir a cultura política forjada pelo programa democrático-popular nunca vamos ter condições de operar uma resposta política radical. Essa ideologia da unidade também esconde que em vários espaços de resistência, como na UFPE, PT e PCdoB continuam operando como freios da luta de classe contra as mobilizações e a radicalidade política. O PCdoB fez todo o possível e o inimaginável para impedir a greve dos professores na UFPE, por exemplo.
Enfim, peço a todos e todas que tenha o extremo cuidado com essa ideologia tal como colocada pelas forças ex-governistas da "unidade". Essa "unidade" é mais uma forma de querer subjugar o conjunto da esquerda socialista e comunista a seu eterno projeto de conciliação de classe e de unidade eleitoral com a burguesia dita progressista.

Um comentário:

  1. Olá, companheiro!
    Dois pontos:
    1) Compreendo suas ressalvas e compartilho da sua opinião. Mas a dúvida que fica: marchar ou não marchar ao lado dos ex-governistas? E se sim, que ressalvas devem ser tomadas?

    2) O que seria "capital financeiro VS capital industrial" dentro das teorias da pseudo-esquerda?

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