sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre a cobertura do impeachment da presidenta sul-coreana

Presidenta que sofre o impedimento.
O parlamento da Coreia do Sul aprovou o impedimento da presidenta Park Geun-hye, devido a um escândalo envolvendo vazamento de informações confidenciais do Governo e a relação com uma "seita religiosa" [1]. O que mais chama atenção na cobertura é a linha editorial hegemônica que considera a Coreia do Sul um exemplo de democracia em um momento atípico de instabilidade institucional. Sem entrar no âmbito dos elementos substantivos da democracia, isto é, as condições de vida socioeconômicas da maioria da população (a classe trabalhadora e camadas médias), vamos lembrar alguns fatos da história política recente da Coreia do Sul que mostram que chamar esse país de democracia é uma piada de mal gosto.


A Coreia do Sul tem em sua institucionalidade uma lei de Segurança Nacional (semelhante a que o Brasil tinha na época da ditadura empresarial-militar) que proibi, dentre outras coisas, defender a reunificação das Coreias, "elogiar" a Coreia do Norte (Coreia Popular), propagar abertamente o socialismo, criticar o domínio geopolítico e militar dos EUA sobre o país etc. Realizar pesquisas acadêmicas sobre uma perspectiva marxista, na Coreia do Sul, é algo bem perigoso.


Em dezembro de 2014, a suprema corte do país colocou na ilegalidade o Partido Progressista Unificado (PPU), a acusação foi de "realizar atividades favoráveis à Coreia do Norte" [2]. O PPU tinha cinco cadeiras no parlamento e foi eliminado sem grandes problemas. Ainda em 204, um cidadão da Coreia do Sul foi preso e responderá há um ano de prisão por ter exaltado a Coreia do Norte no... twitter [3]. Em 2015, a professora com cidadania sul-coreana e estadunidense Shin Eun-mi, foi expulsa da Coreia do Sul porque suas aulas foram consideradas enaltecedoras da Coreia do Norte [4]. Em resumo: é proibido realizar qualquer atividade política, acadêmica ou ações banais (como escrever um texto no Facebook) considerado elogioso à Coreia Popular. A gravidade dessa institucionalidade autoritária fica evidente quando a questão nacional da unificação das duas Coreias é o tema mais importante das duas nações há mais de 50.


Mas a questão não fica apenas aí.  Diz o ditado popular colombiano que no país é mais fácil montar uma guerrilha do que um sindicato. Na Coreia do Sul não é fácil ser guerrilheiro e muito menos sindicalista. As empresas em associação com o Governo perseguem abertamente os sindicatos não subservientes ao patronato [5]; é legal no contrato de trabalhado os trabalhadores se comprometerem a não se filiar a determinados sindicatos (os combativos), a prisão de sindicalistas é uma realidade comuns no país e a repressão das forças de segurança em atos de massa lembra muito a nossa terra brasilis. Notem, por exemplo, que quando os trabalhadores protestaram contra a privatização da malha rodoviária do país, a resposta do Governo foi mandar prender cerca de 30 líderes sindicais acusados de “desestabilizar a economia” [6]. Bem, “desestabilizar a economia” é o tipo de coisa vaga que significa na prática: é proibido fazer greves e protestos de rua.

É fundamental à propaganda anticomunista do imperialismo mostrar a Coreia Popular como uma ditatura totalitária comandada por um adolescente mimado e a Coreia do Sul como uma democracia símbolo de eficiência e competividade. Na realidade, a Coreia do Sul, em termos políticos, vive sobre uma semi-ditadura militar com fachada constitucional onde é expressamente proibido debater o principal tema do país – a questão nacional da reunificação – e atividades básicas das liberdades democráticas, como o direito à organização sindical, são vedados com todo empenho possível pelo Governo em associação com os monopólios econômicos e os monopólios de mídia.


[1] –http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2016-12/relator-da-onu-diz-que-pec-do-teto-tera-impacto-severo-e-recomenda-debate
[2] –http://www.vermelho.org.br/noticia/255765-9
[3] –http://www.news.com.au/technology/s-korean-man-charged-after-praising-n-korea-on-twitter/story-e6frfrnr-1225985330397#ixzz1BFzv4GCM
[4] –http://exame.abril.com.br/mundo/coreia-do-sul-deporta-americana-que-elogiou-coreia-do-norte/
[5] –http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1458

[6] -http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/33198/mais+de+cem+mil+saem+as+ruas+na+coreia+do+sul+contra+privatizacao+da+malha+ferroviaria.shtml

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