segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Stálin, Lampião e Spartacus: Koba, presente

No dia 18 de dezembro comemoramos 138 anos de nascimento do camarada Josef Stálin. Maior líder da União Soviética nas suas primeiras e principais décadas de existência, comandante do país na grande guerra anticolonial de resistência ao nazisfascismo e arquiteto da superpotência URSS, que marcou o século XX como o Século Soviético. Figura mais que controversa, vítima de uma gigantesca campanha de difamação pelo imperialismo e seus adversários no movimento operário, e responsável – não, necessariamente, de forma direta – por muitos dos erros cometidos nas décadas em que foi a principal figura teórica e política do movimento comunista mundial, reivindicar o camarada Stálin é, até hoje, uma dificuldade para a maioria dos comunistas. Dificuldade compreensível, mas compreender não é o mesmo que justificar.

Essa dificuldade é tão pulsante que eu, antes de desenvolver os argumentos que pretendo, irei fazer dois apontamentos preliminares. Sou militante da União da Juventude Comunista e do Partido Comunista Brasileiro. Sigo, defendo e construo o programa político dessas duas organizações, porém, isso não significa que tudo que publico no meu blog é um reflexo fiel das posições do Partidão e da UJC. No Partidão não temos “centralismo-teórico” [1] e sim centralismo-democrático. Quem quiser conhecer a posição do Partidão sobre a construção do socialismo soviético liderado por Stálin, pode fazê-lo lendo o texto “socialismo: balanços e perspectivas” [2] – evidentemente, porém, minha posição sobre o socialismo no século XX é totalmente influenciada pela posição da minha organização, mas, de forma alguma, essa influência significa uma relação de cópia formal, de identidade absoluta.

Reivindicar o legado positivo do camarada Stálin não me faz negar os seus vários erros e decisões equivocadas. Estou bem longe da posição de algumas organizações no Brasil que divinizam Stálin e sua liderança na URSS, e negam-se a realizar qualquer crítica séria e marxista à sua trajetória – justamente por isso, usam como fonte histórica apenas o livro “História do Partido Comunista (Bolchevique) da U.R.S.S”, livro editado pelo próprio PCUS, sob supervisão de Stálin, e que é uma versão auto-elogiosa e sem o necessário rigor científico na escrita histórica.

Ao mesmo tempo, porém, considero como igualmente bizarra a posição da maioria das organizações trotskistas que consideram um crime em si reivindicar qualquer legado positivo da liderança de Stálin, e o consideram um dos piores inimigos – quiçá o pior – do movimento socialista. Essa posição irrealista de uma corrente teórico política que vive em negativo – existe por contraste com o “stalinismo” – e que, em mais de cem anos de história, nunca conseguiu dirigir um processo revolucionário socialista ou anticolonial de libertação nacional ou, ao menos, tornar um movimento de massas consistente.

Os trotskistas deveriam estar mais preocupados em explicar sua falência (sim, essa é a palavra) como alternativa histórica ao movimento socialista, do que viver eternamente em negativo com o “stalinismo” – reforçando, inclusive junto com o imperialismo, vários mitos anticomunistas. Termino essa segunda advertência com esse preciso trecho do camarada Althusser

O que explica, diga-se de passagem, não poucos fenômenos de aparência paradoxal como, por exemplo, 50 depois da Revolução de Outubro e 20 anos depois da Revolução Chinesa, o fortalecimento de Organizações que subsistem há 40 anos sem terem obtido nenhuma vitória histórica (pois, ao contrário dos “esquerdismos” atuais, elas são organizações e têm uma teoria): as organizações trotskistas (Althusser, 1978, p. 56) [3].

Que posição eu defendo? Bem, em resumo, e simplificando a questão, sigo a leitura histórica do filósofo Domenico Losurdo que, não eximindo o período da liderança de Stálin de críticas, sublinha que seu legado é mais positivo que negativo para o movimento operário e a humanidade no geral, e coloca como tarefa de primeiro plano destruir a ideologia anticomunista que tornou-se a versão historiográfica dominante na leitura da trajetória do movimento comunista.

Mas por quê colocar Lampião e Spartacus no meio da história? Losurdo usa um argumento fantástico no seu livro “Fuga da História?”. A esquerda italiana, inclusive os comunistas, gostam de reivindicar Spartacus, o líder da revolta de escravos contra o poder de Roma, como símbolo de liberdade e rebeldia dos de baixo. A apropriação à esquerda de Spartacus como expressão de contestação à ordem é feita à despeito de, durante sua trajetória, ele ter participado e comandado chacinas, massacres, estupros, assassinatos de crianças das elites romanas etc.

A esquerda italiana que reivindica Spartacus não defende nenhumas dessas atrocidades. Isso é tão evidente que não precisa de explicação prévia. Tal como Spartacus, Lampião e o cangaço representam um símbolo de contestação social pré-socialista que é reivindicado e defendido por setores significativos da esquerda brasileira – especialmente, é claro, no Nordeste. As imagens de homens e mulheres comuns que resolveram se armar e lutar contra os “coronéis” latifundiários em busca de justiça se cristalizaram através, principalmente, da literatura e da música (em especial o movimento manguebeat) – a UJC-PE, inclusive, vende uma camisa de Marx vestido de cangaceiro, que é sucesso absoluto de vendas.

Mas o cangaço também reproduzia privilégios e hierarquias autoritárias em sua estrutura (Lampião comandava seu “bando” com mãos de ferro), praticava atos atroz de violência como chacinas e mutilações humanas. Porém, quando Chico Science grita “Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro, todos os Panteras Negras! Lampião, sua imagem e semelhança”, ele não grita pelo Lampião das chacinas, mas pelo Lampião que desafiava os latifundiários e que, de uma forma rudimentar, até meio tosca, mostrou que não viver apenas para morrer na miséria era possível.

Isso significa algum tipo de relativismo ético? Algo do tipo: massacres são ditos como errados, mas, se aconteceram há cinquenta anos, relevamos. Não, não é nada disso. A questão é: compreender as condições histórico-concretas que balizaram essas lutas contestatórias, não criar um quadro ideal, à priore, e julgar a história abstratamente por esse quadro. Spartacus e os escravos que ele liderou podiam não usar de extrema violência? Os cangaceiros poderiam ter agido de forma totalmente diferente? O Exército  Vermelho poderia não ter matado nazistas mas, sim, apenas dialogado? Os guerrilheiros do Vietnã eram assassinos por que mataram soldados norte-americanos? É claro que não. O julgamento ético não relativiza os padrões ético-morais que guiam nossa conduta cotidiana na análise histórica: ele insere dentro da história a variação desses padrões e as condições concretas onde desenrolou-se a ação política.

Por quê então a dificuldade de fazer o mesmo com Stálin? Quando faço uma homenagem ao camarada Stálin, não estou reivindicando os problemas da democracia operária que sua visão excessivamente tecnocrática nos legou, ou a dificuldade de institucionalizar os canais de poder popular na U.R.S.S, ou, muito menos, as disputas no seio do PCUS que levaram à morte de Trotsky, Bukharin, Kamanev, Zinoviev etc. Estou reivindicando a figura do líder político que comandou a vitória sobre o nazifascismo (maior inimigo da classe trabalhadora no século XX), que foi ferrenho opositor do colonialismo e deu grandes contribuições à libertação nacional de África e Ásia, ao líder que era símbolo para os negros mundialmente no combate ao racismo, ao homem que comandou a industrialização, a planificação da economia e a coletivização do campo e, com todas as contradições desses processos, foram eles que garantiram uma sociedade soviética com o maior e mais amplo nível de bem-estar social do mundo.

James P. Cannon, dirigente trotskista e negro, ao falar da atuação da Internacional Comunista “stalinista” e da URSS, diz:

Os comunistas norte-americanos dos primeiros anos, sob a influência e pressão dos russos na Comintern, estavam aprendendo lenta e dolorosamente a mudar sua atitude de não ver na questão negra nada que merecesse uma atenção especial, para além do programa revolucionário do proletariado em geral; a assimilar a nova teoria da questão negra como uma questão especial de pessoas duplamente explorada e posta na situação de cidadãos de segunda classe, o que requeria um programa de reivindicações especiais como parte do programa geral – e a começar a fazer algo sobre esta questão.” A década de 1930 – durante o auge do stalinismo na IC – encontrou “um Partido Comunista preparado para atuar neste terreno como nenhuma outra organização radical havia feito neste país.
Foi o Partido Comunista, e nenhum outro, que converteu os casos de Herndon e Scottsboro em questões conhecidas nacional e internacionalmente, e que pôs os grupos de linchamento legal dos “Dixiecratas” na defensiva, pela primeira vez, desde a derrubada da Reconstrução. Os militantes do partido dirigiram as lutas e as manifestações para conseguir condições justas para os negros desempregados e para colocar novamente nos seus apartamentos os móveis dos negros que eram jogados na rua pelos proprietários. Foi o Partido Comunista que apresentou um negro como candidato a vice-presidente (dos Estados Unidos) em 1932 – algo que nenhum outro partido radical ou socialista jamais havia feito [4].

George Pademore, líder pan-africanista e militante (durante os anos 30 e 40) do movimento comunista internacional, mesmo depois de ser expulso da IC por problemas com a orientação, escreveu essas palavras sobre a URSS de Stálin, às vésperas da Segunda Guerra Mundial

A outra razão pela qual nós devemos defender a União Soviética, e isso se aplica particularmente aos povos colonizados e às raças dominadas, é porque ela é a única Grande Potência que solucionou o problema das nacionalidades (…). Na União Soviética, (…) a segregação racial, disseminada por todo o Império (britânico), não tem mais lugar. Eu visitei a maioria dos países europeus e da América, e nunca encontrei um povo mais simpático em relação às raças de cor do que o povo soviético.
A Revolução não só emancipou os trabalhadores russos da opressão do capitalismo, mas libertou mais de cem nacionalidades e raças sujeitas ao jugo do imperialismo czarista. O Império Russo (…) foi transformado em uma união de povos livres, iguais em status [5]

É difícil compreender essa valorização crítica do legado de Stálin? Saber que reivindicar uma figura histórica do movimento operário não significa concordar integralmente com os elementos de sua trajetória política e, muito menos, se isentar de críticas; assim como combater os mitos anticomunistas da ideologia dominante é algo muito distinto de nutrir uma visão acrítica de nossa história.

Bem, concluo esse texto sintetizando tudo que argumentei no decorrer dessas linhas: reivindicar os elementos do legado positivo do camarada Stálin não me faz “stalinista”, ter uma visão acrítica da trajetória do ex-líder soviético ou, muito menos, deixar de considerar trágicos os desfechos da disputa pelo poder no PCUS, ou os excessos do necessário processo de coletivização do campo etc.


Defender o legado positivo de Stálin – tal como defender da propaganda anticomunista todas as experiências de transição socialista do século XX e seus grandes líderes – é parte da luta ideológica, àquele teorizada por Engels, que nós, comunistas, temos que travar com a ideologia dominante, e destruir o quanto antes a autofobia que o imperialismo incutiu nos comunistas sobre a sua história.  


[1] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2016/05/um-esclarecimento-historico-sobre-o.html
[2] – https://pcb.org.br/portal/docs1/texto7.pdf
[3] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/01/otrotskismo-e-o-movimento-comunista-no.html
[4] – http://www.pagina13.org.br/historia-humanidades/a-internacional-comunista-e-a-questao-racial-2a-parte/#.WFgQzRsrLIX
[5] – http://www.pagina13.org.br/historia-humanidades/a-internacional-comunista-e-a-questao-racial-2a-parte/#.WFgQzRsrLIX

Um comentário:

  1. Muito bom texto camarada, essa coerência política quando se trata desse tema é algo que devemos esperar de todos os militantes de esquerda, no mínimo.

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