domingo, 15 de janeiro de 2017

O socialismo defende salario igual para todos?

Esse é o primeiro texto de uma série que farei para tirar dúvidas básicas de quem está começando a conhecer os temas do socialismo, marxismo, história das lutas dos trabalhadores/as etc. Irei fazer textos curtos,  de no máximo duas páginas, sem usar bibliografia e evitando ao máximo citações, que devem servir como instiga para pesquisas mais aprofundadas e despidas de preconceitos contra o marxismo.

O primeiro tema é a lenda de que no socialismo todos devem ganhar o mesmo salário e que isso seria injusto, estimularia a preguiça, atrasaria o desenvolvimento econômico e tecnológico e desincentivaria uma pessoa a estudar para ser médico ou engenheiro, por exemplo, porque seu salário seria igual ao do gari ou do pedreiro. Em resumo, o socialismo é visto como uma repartição [divisão] igual da riqueza através de uma igualdade salarial geral sobre as mesmas bases da economia atual – ou seja, continuaríamos com uma economia capitalista onde as fábricas, bancos, terras, grandes lojas etc. são privados e a economia é de mercado; a grande diferença é que, agora, todo mundo vai ganhar a mesma coisa e, consequentemente, consumir os mesmos produtos, tudo igual.

A primeira coisa a se dizer é que Marx e Engels (“fundadores” do marxismo), ou qualquer marxista importante até hoje (Lênin, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Stálin, Mao, Gramsci, Che etc.), nunca defenderam que o socialismo significa salário igual para todos nesse tipo de economia que vivemos. Marx e Engels, inclusive, lutaram contra pensadores como Proudhon e Lassalle, que defendiam que a igualdade social seria fruto de um salário igual para todos dentro do capitalismo. Então esse é nosso primeiro argumento: não existe qualquer fundamentação em textos de Marx e Engels ou qualquer marxista importante do século XX para dizer que o socialismo defende salário igual para todos.

O segundo argumento, mais consistente, é baseado na compreensão de que, para o marxismo, os operários, por não terem os meios de produção – fábricas, terras, etc. –, são obrigados a vender sua força de trabalho para os burgueses (os donos dos meios de produção). Nesse processo de venda e consumo da força de trabalho é que a classe trabalhadora produz toda riqueza que existe (casas, carros, roupas, eletrodomésticos etc. tudo é produzido pela classe trabalhadora), mas ela só recebe “de volta” por sua produção uma pequena, uma ínfima, parte da riqueza que produziu. A maioria do trabalho não pago, a mais-valia, fica com o patrão porque o direito e o Estado garantem que ele, como dono dos meios de produção, tem o direito de ficar com grande parte da riqueza social produzida.

O salário, então, significa no capitalismo o reverso da moeda da exploração econômica: como o salário será sempre menor que a mais-valia, todo salário, no capitalismo, representa a exploração do operário. Mas Marx e Engels entenderam que o problema não é porque o salário é baixo, mas sim que o salário é baixo por ser a expressão, o resultado, de uma relação de exploração fundamentada na propriedade privada dos meios de produção. É por isso que o socialismo não defende o salário igual para todos, que todo mundo use a mesma roupa, tenha os mesmos objetos de consumo, ou que as casas, roupas, celulares etc. sejam de todos, mas sim que a economia seja baseada na propriedade coletiva [pública] dos meios de produção; ou seja, fábricas, bancos, terras e grandes lojas vão funcionar de acordo com o interesse dos trabalhadores (eles, através de complexas formas, vão decidir como trabalhar) e vão produzir para atender as necessidades humanas, não para gerar lucro – as formas de produzir e o que produzir vão ser planejadas pela sociedade organizada pelo Poder Popular; na história chamamos isso de “economia planificada”; tem esse nome porque não é mais o lucro e o “mercado” que controlam a economia, mas toda a sociedade, através de um complexo e bem articulado plano econômico.

Mas aí podem aparecer dois argumentos. O primeiro é que Marx defendeu no livro “A guerra civil na França” todas as pessoas, especialmente as em funções públicas, ganharem um salário médio de um operário. Isso é verdade? Colocado dessa forma, não. Marx, nesse livro, defende essa medida numa situação revolucionária de transição socialista, e nunca indicou a sua validade universal (se ela achava que essa medida deveria ser usada em toda revolução socialista) e sua temporalidade (ou seja, duração). Defender um salário médio igual numa situação de transição revolucionária, para evitar formação de “privilégios” no novo Estado operário que está se formando, é diferente de dizer que no capitalismo todos devem ganhar o mesmo salário.

Mas aí nosso amigo liberal pode dizer que nas experiências de transição socialista, tal como União Soviética ou Cuba, todos ganham o mesmo salário. Isso também é falso. Em tais experiências de transição socialista, não existe mais salário nos termos capitalistas. A economia é organizada de acordo com as necessidades da população, e o “salário” é uma forma de consumir de acordo com a individualidade de cada pessoa (como quero decorar minha casa, que roupas vestir, que coisas quero ter etc.), mas os bens essenciais de consumo coletivo, tal como educação, saúde, cultura, lazer, segurança, moradia, alimentação etc. são garantidos para todos, como obrigação da sociedade e de cada um.

Isso significa que as diferenças que existiam entre o “salário” (a parte de retorno individual que cada pessoa recebe por participar da criação da riqueza socialmente produzida) não criam desigualdades sociais significativas, abismos em termos de capital cultural (ou seja, não existe na URSS, Cuba ou qualquer outra experiência socialista, uma divisão rígida entre “cultura popular” e “cultura erudita”) ou divisão da sociedade em classe. Na URSS, um cientista tinha um salário em média três vezes maior que um operário, mas eles frequentavam o mesmo teatro, moravam no mesmo bairro ( não existia bairros de ricos e bairros de pobres), iam ao mesmo hospital, seus filhos estudavam na mesma escola, tinham acesso aos mesmo livros etc. O cientista, é claro, tem uma capacidade de consumir maior que a do operário, mas não existia qualquer abismo social entre eles – é justamente isso que o socialismo defende: uma igualdade social real e não uma igualdade mecânica, onde todo mundo veste a mesma roupa, tem a mesma casa etc.


A moral da história é que essa lenda de que o socialismo defende “salário igual para todo mundo” é algo totalmente falso e antagônico a tudo que o marxismo defende. 

4 comentários:

  1. Stalin é realmente um marxista importante! hahahahaha

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  2. Então a diferença salarial no socialismo é controlada pelos mesmos fatores que a controlam no capitalismo, excluindo os lucros e a posse dos meios de produção? A quantidade de horas trabalhadas, a qualificação do trabalhador (se vc fosse engenheiro vc ganharia mais que um operário) e quais outros fatores controlam esta diferença salarial?

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  3. Muito interessante o texto e a sua proposta. Mas gostaria se saber de onde você tirou essa fonte sobre o salário de um cientista e de um operário na URSS, pessoalmente, tenho um interesse na URSS, sua história, sua organização social e etc. Vc poderia me indicar alguma leitura?

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  4. Christopher Guimarães, no "O que é liberdade?", Caio Prado Jr. falou um pouco dessas diferenças. Não sei foi o que o autor usou como fonte, porém.

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