quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Obama e as ilusões do simbólico

Obama, o primeiro presidente negro, se despede da presidência dos EUA. Seu Governo, especialmente o primeiro mandato, expressa de uma maneira gritante uma das tragédias de nosso tempo: a pobreza analítica da esquerda [em seus diversos segmentos] e sua incapacidade de fazer "análises concretas de situações concretas" ficando refém de aparências enganosas, presa ao campo do simbólico com correntes mais firmes que as de Prometeu.


Dos anos 80 em diante o marxismo perdeu peso no mundo todo nos partidos de esquerda, movimentos sociais, intelectualidade e sindicatos. Os seus substitutos principais foram o pós-modernismo, variantes do pós-estruturalismo, um renascimento do culturalismo com forte incidência de Weber, o institucionalismo bem ao gosto de Bobbio e no campo econômico um misto grotesco de neokeynesianismo e social-liberalismo. A timidez dos projetos políticos - nada de transformação radical, apenas melhoras pontuais, ou política de "reconhecimento" - combinado com a pobreza teórica e metodológica (Boaventura foi o principal teórico do Fórum social mundial; isso diz muito) propiciou uma situação onde o simbólico, a representação, e não a prática política concreta, ditaram os caminhos e escolhas de amplos leques da esquerda.


O Obama negro, descente de árabe, com discurso de mudança, retórica anti-guerra, encobriu o caráter extremante conservador e antidemocrático do sistema político burguês dos EUA, o papel do complexo industrial-militar na dinâmica do imperialismo, a função do racismo na dominação de classe, o Estado penal litado, a existência da OTAN etc. Como num passe de mágica, a retórica e o perfil de Obama criaram uma neblina sobre os determinantes estruturais da sociedade estadunidense. A representatividade se absolutiza a tal ponto que até os dados mais evidentes, como o feroz aumento de ataques com drones, passou a não significar nada.


O Governo de Obama foi responsável por deportar mais emigrantes que o de Bush, por bombardear mais países que Bush, por derrubar mais governos que Bush, por manter intocado e ampliar o encarceramento em massa e a violência policial, dilatar ainda mais o Estado de exceção, garantir o domínio absoluto de Wall Street na economia, avultar a precariedade das relações de trabalho etc. Mesmo com tudo isso, na segunda eleição que disputa, Obama ainda tem fama de progressista, termina o mandato ainda (!!!) com fama de progressista e sua carniceira e brutal secretária de estado, Hillary Clinton, a Henry Kissinger de nosso tempo, ainda consegue lograr um consenso progressista em seu nome como mal menor comparado com Trump - na intelectualidade de esquerda James Petras e Zizek estão entre os poucos a mostrar a falácia disso.


A imagem histórica de Obama caminha na total contramão da sua prática política. Fenômeno de proporções mundiais que em maior ou menor medida pode ser visto com Tsipras na Grécia, Ciro Gomes no Brasil, Hollande na França, Pablo Iglesias na Espanha, Bachelet no Chile etc. Se historicamente os projetos políticos de conciliação de classe em prol da burguesia pressupunham um pacto redistributivo onde os de baixos tinham ganhos materiais reais, hoje, miseravelmente, o "ganho" simbólico parece bastar e a capacidade de uma análise crítica é inversamente proporcional ao carisma da figura política - se for de uma minoria social, como negro ou mulher, parece que a capacidade crítica é até interditada.


Infelizmente, para as populações da Síria, Ucrânia, Líbia, Paquistão, Haiti ou a classe trabalhadora dos EUA (especialmente seu segmento negro) as bombas, os drones, a OTAN, a cadeia, não são nada simbólicos, mas bem materialista!


2 comentários:

  1. Texto denso e intenso!
    Ninguém disse melhor do que vc.,Jones Manoel sobre o significado de Obama e os descaminhos do pensar nessa virada para o século vinte e um.
    Parabéns, lúcido camarada!
    ...

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  2. Compreendi seu texto. Sem querer colocar em um grau comparativo, mas você não crê que a representatividade (de um presidente negro) não tem nenhuma importância dados os desmandes de Obama?
    Quais são suas críticas a Boaventura.

    Parabéns pelos textos esclarecedores.

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