sábado, 28 de janeiro de 2017

Tá virando amigo de polícia?

Texto do camarada Messias Martins! 


Tá virando amigo de polícia
Perguntaram
Logo eu
Negro, favelado, nascido e criado na Ilha do Rato.
Militares na Revolução dos Cravos, Portugal


            Há uns dias escrevi que estava chegando o final do ano e eu não conseguia lembrar de quantos baculejos havia levado somente em 2016. Lembro ainda do meu primeiro. Devia ter entre 8 e 9 anos. Jogando bola na rua da minha casa com quem eu pensava que seriam meus amigos pra vida toda. Um grupo de policias entraram na rua com armas na mão e mandou todo mundo deitar no chão, ali mesmo, sem camisa. Nos revistaram rapidamente, mas ainda consigo sentir aquelas mãos em meu corpo suado de jogar bola e a terra grudando no peito e barriga.
            Desde então os contatos com a PM foram caminhando por outras estradas. As vezes sentado, dentro de um coletivo onde todas as cadeiras estavam ocupadas e algumas pessoas estavam em pé. Rio Doce/Piedade. 2007. Estava indo pra igreja. A polícia parou o ônibus em frente ao Centro de Convenções, em Olinda. Dois PMs subiram e olharam para os passageiros. Me mandou levantar do banco que estava, me revistou primeiro, em seguida minha bolsa. Desceu sem falar nada. Eu fui o único a ser revistado. O ônibus seguiu viagem. Quando chegou na próxima parada as pessoas já haviam voltado aos pensamentos anteriores a blitz.
            O ódio de classes foi brotando em meu coração e regado diariamente por um monte de opressões que eu passava. Com o tempo fui observando que outras pessoas enfrentavam as mesmas negações de direitos. Inicialmente observei o que tínhamos de comum, logo de cara - a cor da pele.


"Cê já notou, e ó que eu nem falei a minha cor ainda".


            Com algum tempo fui observando que as pessoas negras e algumas outras pessoas brancas sofriam constantes golpes contra sua dignidade humana. Vivíamos na mesma comunidade. Percebi que várias outras pessoas em diversas cidades e países passavam por situações semelhantes, guardando suas especificidades. Entendi então que fazíamos parte da mesma classe - a classe trabalhadora.
            Depois de muito bater a cabeça e com algumas atitudes radicaloides pelo caminho passei a ter contato com alguns comunistas na extinta Frente Contra o Extermínio da Juventude Negra, no final de 2015, em Recife. No começo de 2016 passei a andar mais próximo de uma delas, a quem se tornou um pedaço de mim. Mylena era desenrolada demais! E não era só pelas falas nos atos e assembleias que faziam o sangue ferver, mas pude observar coerência entre sua teoria e prática. Através dela pude conhecer outros e outras camaradas e me organizar com eles e elas na União da Juventude Comunista.
            Por questões de falta de maturidade demorei algum tempo para entender - e ainda estou buscando uma melhor compreensão - o centralismo democrático. O camaradão Lênin explica bem o que significa em Que Fazer: “O centralismo e a disciplina são necessárias para que o partido atue com uma vontade comum única e assegure a coordenação do trabalho. Ao mesmo tempo, só se pode alcançar e consolidar esta vontade discutindo conjuntamente os problemas e aprovando decisões obrigatórias para todos. A vontade comum, cristalizada nas decisões do partido, é fruto da democracia interna.” Ainda de acordo com Lênin o centralismo democrático é “liberdade na discussão e unidade na ação”.
            A partir desse entendimento passei a olhar de uma forma mais ampla a PM. Embora suas fardas nos separem de nós eles e elas também são filhos e filhas, membros e membras da classe trabalhadora. Nenhuma revolução popular conhecida na História aconteceu sem que o sangue de militares fosse derramado, é verdade, mas também nenhuma revolução popular aconteceu sem que militares se enxergassem como participantes da mesma classe que os manifestantes. Foi o poder do povo construindo um mundo novo.
            Nessa questão é pontuada a necessidade da desmilitarização desses trabalhadores e dessas trabalhadoras. É por meio de uma Emenda Constitucional que a proposta de desmilitarização consiste na mudança da Constituição de forma que polícias Militar e Civil constituam um único grupo policial, e que todo ele tenha uma formação civil e venha a ser julgado como um cidadão comum e não por uma Justiça Militar que tende a arquivar processos e penalizar com trabalhos administrativos.
            Na mesma linha da desmilitarização também é veemente combatido o beneplácito chamado Auto de Resistência, que embora tenha sido abolido na Polícia Federal e nas Polícias Civis de alguns Estados ainda respalda uma Polícia Militar que mata, tortura, oprime, forja flagrantes e age com truculência em protestos de movimentos sociais, estudantes e professores, partidos e organizações progressistas por reivindicações de direitos que são negados a classe trabalhadora.
            Também denunciamos a estrutura racista que rege a PM. Em tempos de golpe onde muitos passaram a falar em estado de exceção os e as comunistas denunciam que a favela nunca conheceu um estado diferente. Estado de exceção tem sido todo estado que a parte mais pobre da classe trabalhadora conhece. Rafael Braga ainda está preso, um exemplo vivo da arbitrariedade policial. A única pessoa presa e condenada por conta das manifestações de 2013. Flagrante forjado e a sentença de cinco anos de reclusão atualmente em regime fechado. Não por acaso Rafael é negro e morador de rua.
            Não só convidamos PMs a terem consciência e não traírem sua classe como também a se unirem pela desmilitarização. Como bem observa o camarada Mauro Iasi: “A Polícia Militar perdeu o controle da situação e 70% dos próprios integrantes da PM querem a desmilitarização da corporação. Mas nós vamos mais além e queremos a sua extinção”.
            
Vai ter mais falas e rodas de conversas com esses e essas trabalhadoras e quem quer que seja que se coloque como capitão do mato e braço forte do Estado para reprimir o povo será cobrado pelo próprio povo.

            Eu mesmo, comunista em formação.

            Ousar lutar. Ousar vencer.


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