domingo, 12 de fevereiro de 2017

Qual a diferença entre esquerda e direita?

É comum no jornalismo, no meio político institucional e na universidade ouvimos que a distinção entre esquerda e direita não serve mais para ajudar a entender a política e os conflitos que vivemos. Esse senso comum é reforçado pela situação brasileira atual onde o maior partido institucional da esquerda, o PT, e o da direita, o PSDB, são cada vez mais parecidos e em muitos aspectos defendem absolutamente a mesma coisa.

Defendemos que a distinção entre esquerda e direita continua válida sim, vamos mostrar os motivos e refutar as visões dominantes sobre o tema. Tudo isso, seguindo o princípio da coluna “dúvidas básicas”, com uma linguagem que seja a mais clara possível, evitando usar bibliografia e citações. Isso fará o texto um pouco simplista em alguns momentos, mas o seu objetivo é ser uma introdução ao tema e não um artigo que aborde absolutamente todos os elementos de complexidade do problema.

A visão conservadora mais refinada sobre a diferença entre esquerda e direita é que a primeira defende a igualdade e a segunda a liberdade. Essa visão por assim dizer “clássica” conclui a partir disso que todas as vezes que a liberdade foi sacrificada em nome da igualdade terminamos em ditaduras totalitárias e nesse momento, normalmente, é citado o exemplo da União Soviética no período de Josef Stálin. A liberdade nesse sentido é compreendida como o indivíduo não ser dominado por um poder político ditatorial que tome sua propriedade, o prenda, agrida-o ou mate-o sem seguir o devido processo legal e justo, não ser obrigado a fazer coisas contra sua vontade, poder viajar quando quiser, usar as roupas que quiser, ouvir a música que quiser etc.

Essa ideia é falsa. Por quê? O liberalismo que se coloca como o máximo protetor do indivíduo defendeu por muito tempo a escravidão, a colonização de outros países do continente africano e asiático, a exploração infantil de crianças, as deportações forçadas (o sujeito cometia um crime na Inglaterra e sua pena era ser mandado para Austrália pelo resto da vida), genocídios em massa como o extermínio dos índios nos EUA, Austrália e Canadá ou dos chineses durante a guerra do ópio (quando a Inglaterra queria vender a droga ópio e o governo chinês quis proibir, aí a Inglaterra junto com outros países invadiu a China, matou milhares de chineses para ter o “direito” de vender ópio inclusive para... crianças e idosos).

 Como se pode imaginar é impossível ser um autêntico defensor da liberdade apoiando essas cosias citadas acima. Em todos esses momentos históricos foi a esquerda, não a direita, não os liberais, que foi a favor realmente da liberdade. Durante a Revolução Francesa, por exemplo, quando subiu ao poder os Jacobinos (a “esquerda” do país) um dos primeiros atos foi acabar com a escravidão nas colônias (a França colonizava, isto é, dominava vários países); quando os jacobinos foram derrotados e assumiu o poder os girondinos, a “direita” do país, um dos primeiros atos de governo foi voltar com a escravidão.

Outra visão mais vulgar e recente diz que a esquerda defende mais Estado e a direita menos Estado. Isso é falso de um ponto de vista histórico e atual. De um ponto de vista histórico basta citar que durante muito tempo a direita defendeu abertamente: escravidão, colonização e proibição do direito de voto e organização sindical dos trabalhadores; a direita sempre defendeu a forte atuação do Estado nos seus interesses – como proibir os trabalhadores de se organizarem por melhores salários – mas sempre foi contra o Estado atuar para reduzir as desigualdades ou para aumentar o salário dos trabalhadores.

Nesse momento alguém pode dizer que o nazismo é de esquerda e que a direita defende Estado mínimo. Na realidade o Estado mínimo da direita é apenas um discurso nunca aplicado porque não existem condições reais de aplicação – o capitalismo precisa do Estado para garantir que os trabalhadores não se revoltem e para manter as condições básicas de funcionamento da economia; e o nazismo não é e nunca foi de esquerda. Por quê? Um argumento basta: os dois maiores partidos de esquerda da Alemanha, o Partido Operário Socialdemocrata e o Partido Comunista Alemão, quando o nazismo chegou ao poder, foram postos na ilegalidade e seus dirigentes mortos ou presos (alguns conseguiram fugir). Já a direita em sua grande maioria participou tranquilamente do governo nazista junto com todo a elite da Alemanha (industriais, banqueiros, latifundiários etc.).

Então qual é o verdadeiro critério para diferenciar o que é esquerda e direita? A esquerda é composta por um conjunto variado de teorias, ideias, noções, organizações e sua história que compreende que as formas de desigualdade social, econômica, política e cultural não são produtos inevitáveis e eternos, mas passíveis de modificação; a esquerda luta para que os bens materiais e culturais produzidos pela humanidade sejam desfrutados na medida do possível por todos. Já a direita tende a naturalizar, justificar, legitimar, as formas de desigualdade que existem e coloca-la na responsabilidade do indivíduo sempre na perspectiva de restringir o quanto possível o acesso ao poder político, riqueza, cultura etc.

Mas dentro do que chamamos de esquerda existe diferenças importantes. Podemos resumir mais ou menos assim: a esquerda reformista e a revolucionária. A primeira corresponde a movimentos da esquerda que defendem o combate às formas de desigualdade social, econômica, política etc., mas sem a necessidade de superar o capitalismo, construir uma nova sociedade. Já a esquerda revolucionária embora não deixe de lutar por conquistas parciais, tem como foco a superação da sociedade atual, a construção do socialismo, porque acredita que dentro do capitalismo a superação total da exploração, opressão e dominação é impossível.

Claro que dentro da esquerda reformista existe muitas diferenças. Há, por exemplo, os movimentos ou partidos que praticamente só atuam na institucionalidade – através de eleição – e os que apostam na organização popular e na mobilização como melhor forma de conquistar melhoras (o primeiro exemplo seria o PT e o segundo o trabalhismo de Leonel Brizola).

Grosso modo, porém, essa distinção é ótima para localizar quem é quem na arena política. A esquerda está ao lado dos explorados e oprimidos lutando por melhores condições de trabalho, salário, serviços públicos, mais direitos, ampliação das liberdades democráticas e até a superação da sociedade atual e a direita irá legitimar seus privilégios sociais – como o fato de que a imensa maioria dos estudantes de universidades públicas são de famílias ricas e de classe média – como meritocracia ou direito natural e apresentar o princípio da concorrência no “mercado” como a única forma legítima de ter acesso à riqueza e a cultura produzidos pelos trabalhadores.


2 comentários:

  1. Acho que nao faz mais sentido colocar o PT como uma esquerda.

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