sexta-feira, 31 de março de 2017

Considerações sobre a greve geral (elementos para sair do "idealismo")

Depois da aprovação da lei da terceirização irrestrita (fim da CLT e do direito de greve) várias pessoas postaram clamores por uma greve geral. De minha parte, como todo mundo sabe, sou militante de uma organização que CORRETAMENTE compreende a greve geral como principal mediação tática para barrar os ataques da burguesia e tentar alterar a correlação de forças; contudo, isso não significa achar que é fácil construir a greve geral. Segue abaixo algumas dificuldades práticas.


- Sindicalização.


Mobilização da Unidade Classista no Ceará
Temos atualmente no Brasil cerca de 100 milhões de trabalhadores e trabalhadoras (esse número exclui, evidentemente, crianças, idosos, beneficiários do INSS impossibilitados de trabalhar e camadas sociais não trabalhadoras). Desses cerca de 100 milhões apenas 60,5 milhões, isto é, 61,3%, têm contrato de trabalho formal. 21 milhões trabalham por conta própria, 6,4 milhões são trabalhadoras domésticas e quase 7 milhões estão em trabalhos não remunerados (categoria estranha usada pela PNAD - dados de 2014). A primeira grande dificuldade é que o índice de formalização no Brasil é muito baixo e nosso país, diferentemente da Argentina, por exemplo, não tem forte tradição política de sindicalismo de desempregados e informais.


Desses 60 milhões de trabalhadores formalizados 45,2% estão no setor de serviços. Setor com histórico de baixíssima qualificação, altíssima rotatividade e com pouca experiência sindical. O comércio e a reparação ocupam 18,2% (o mesmo dito sobre serviços se encaixa no comércio). Trabalhadores agrícolas, construção e indústria representam, somados, cerca de 35% da força de trabalho (no campo temos o MST e outros movimentos e na indústria e construção o nível de organização e ativismo sindical é bem maior).


Olhando apenas para os trabalhadores formais o índice de sindicalização é de 29,7% (extremamente baixo); se o prisma de análise for o total dos trabalhadores (formais e informais) o índice cai para desesperadores 17,3%.


Ou seja, a imensa maioria dos trabalhadores desse país NÃO SÃO sindicalizados e provavelmente não tem experiência política no sindicalismo.


- Sindicalismo pelego.


Ser sindicalizado não significa necessariamente estar atuando e fazendo política. Ao contrário. Temos centrais sindicais expressamente patronais, como a Força Sindical, e outras centrais, como CUT e CTB, que operam nas últimas décadas com práticas sindicais pelegas, desmobilizadores, aparelhistas e subordinadas à governos e partidos da ordem. O resultado é uma cultura política de um sindicalismo extremamente desmobilizado, despolitizado, crivado de máfias e quando mobilizado, dominado pelo economicismo e o “sindicalismo de resultado”.


As centrais sindicais de esquerda, como a CSP-Conlutas, embora avançadas ideológica e politicamente, encontram bastante dificuldades para construir um sindicalismo combativo e massivo que não fique restrito a radicalidade das diretorias sindicais (os motivos disso, por questões óbvias, não irei debater na internet).


- Enfraquecimento do sindicalismo público.


O sindicalismo público, desde os anos 80, é o mais avançado e combativo no país. Percebendo isso a classe dominante, nas últimas décadas, enfraqueceu de diversas formas o funcionalismo público e por consequência seu sindicalismo. Ampliação da terceirização (hoje temos mais de 12 milhões de trabalhadores terceirizados no país), penetração massiva de Organizações Sociais e ONG’s no setor público, explosão de contratos temporários e instáveis, ampliação do número de estagiários e redução do quadro de funcionários são estratégias usadas. A PEC da MORTE e as políticas de ajuste fiscal antipopular prometem enfraquecer ainda mais o setor público e seu ativismo sindical (o legislativo também discute uma lei de greve buscando proibir a greve de funcionários públicos).


- Configuração socioespacial da indústria.


A tendência dos pequenos polos industriais que existem hoje no Brasil é estarem extremamente concentrados em regiões e fugir dos centros urbanos. A realidade da vila operária não existe mais e fazer greve na indústria hoje e contar com amplo apoio popular é bastante difícil. A maioria das greves, inclusive, nós não sentimos (por diversos motivos). Os grandes monopólios também contam com estratégias como estoques ampliados, capacidade de não parar o escoamento da produção aumentando a produção em fábricas não paralisadas, importação de produtos de filiais em outros países etc.


- Desemprego.


Fazer greve num período de desemprego é algo extremamente difícil. A classe dominante conta com um exército de reserva ampliado e pode com facilidade substituir os grevistas por novos trabalhadores. Além disso, em setores como a indústria, temos milhares de trabalhadores de licença não remunerada que podem tranquilamente ser usados como elemento fura greve. É impossível fazer greve numa situação de altíssimo desemprego? Não. Mas isso demanda um alto nível de consciência de classe onde o trabalhador ameace perder o emprego em prol da lutar maior.


- Situação política e ideológica.


O petismo e a classe dominante ensinaram a maioria de nossa classe a não crer na sua força e mobilização e esperar a “salvação” da institucionalidade – ou melhor: das eleições. A imensa maioria dos trabalhadores hoje não consegue se perceber como sujeitos políticos que têm capacidade para mudar sua realidade caso se organizem e lutem. O sucesso de igrejas evangélicas adeptas da teologia da prosperidade, literatura de autoajuda, ideologia do empreendedorismo e a eterna espera pela volta do messias [Lula] são expressões desse desarme teórico, político e ideológico de nossa classe. A imensa maioria dos explorados estão putos com a contrarreforma da previdência, mas pouquíssimos acham que podem impedir isso lutando, por exemplo.


Que fazer então para construir uma greve geral no país? Segue no próximo texto ideias sobre “Que fazer”!.


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