segunda-feira, 13 de março de 2017

Lukachianismo acadêmico: a doença infantil do academicismo

Marx, ainda em vida, repudiou certos pretensos seguidores de sua obra afirmando que não "era marxista". Lukács, caso estivesse vivo, com toda certeza, diria o mesmo para uma tradição de epígonos do revolucionário húngaro que são a expressão mais bem acabada do academicismo estéril, elitista e idealista. Lukács, nunca podemos esquecer, era um revolucionário, um homem de partido, um comunista militante: mesmo com alguns problemas a obra de Lukács é um dos melhores exemplos do século XX do intelectual comprometido com os explorados e oprimidos e que produzia suas reflexões tendo como fio condutor a revolução socialista.


Já uma tradição brasileira de discípulos do mestre húngaro inaugurada por Chasin é o oposto, ou melhor, a negação do que representava Lukács. Esses senhores são professores universitários apartados da luta política real que negam todo e qualquer sindicato, partido, movimento social e no limite formas de ação coletiva (a coisa é de tal forma esses senhores, grosso modo, viram as costas até para a realidade da universidade em que parasitam). Falam do "sujeito revolucionário" e da "revolução" como uma abstração no tempo-espaço despida de formas-organizativas e problemas práticos. Aliás, não conseguem pensar a política e para toda e qualquer conjuntura dizem que a resposta é acabar com o sociometabolismo do capital ou evitar o politicismo, afinal, a política é ontonegativa.


A ausência de prática política é mostrada como um sinal de compreensão superior da obra de Marx. Mas não para aí. Esses senhores ignoram completamente a realidade do seu país e da América Latina e escondem isso com suas palavras difíceis, bonitas e repetitivas: a cada dez palavras cinco é "ontológico" ou "ontologia". Não compreenderam, infelizmente, que a "análise concreta das situações concretas" exige a capacidade de apreender o real em seus diferentes níveis de abstração e saber recitar todas as paginas do Livro I do Capital sem conhecer a estrutura produtiva do país e da América (e o papel do país na divisão internacional e capitalista do trabalho) direciona o conhecimento para uma escolástica inútil, estéril, descolada da realidade e no limite alienada: afinal, um dos pressupostos básicos do pensamento crítico é compreender a realidade em que se está inserido.


Esse tipo de conhecimento condiciona a uma prática academicista e elitista: debater quem entende mais da obra de Marx (normalmente provando o quanto o seu alemão é perfeito) descolado da análise da realidade. Nesse esporte de quem é mais marxista que Marx os líderes revolucionários são desprezados como deturpadores de Marx, as revoluções como experiências históricas a serem esquecidas e até Engels - veja só - é considerado um deturpador de Marx. Quem entendeu Marx? Apenas os seus seguidores iluminados (a aparência religiosa da disputa não é acidental).


Ausência de prática política, desconhecimento das mais básicas relações sociais e de produção do país, predominância de debates elitistas e escolásticos sobre a obra de Marx, negação da nossa história revolucionária e descolamento total da relação entre teoria e prática. És a síntese do lukachianismo acadêmico.


Essa brilhante tradição é repleta de glórias. Temos episódios fantásticos como a simpatiza do deus supremo Chasin pelo Governo FHC passando pelo importantíssimo debate se Serviço Social é ou não trabalho até a recomendação de um professor de Alagoas que para seremos revolucionários temos que estudar 20 horas por semana por cinco anos para termos o mínimo de capacidade de "escolher" uma organização e começar a militar - o sujeito fala isso estando num dos estados mais pobres e miseráveis do país onde na produção latifundiária açucareira a média de tempo de trabalho é de 14h por dia; o trabalhador alagoano explorado no latifúndio e distante da cultura livresca nunca será um revolucionário para esses senhores (e caso comece a militar será acusado de “praticismo”).


Não existe só academicismo pós-moderno, liberal ou conservador. Existe academicismo com roupagem marxista também. E todo academicismo deve ser combatido - sem cair, é claro, em posturas anti-intelectuais

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